Em minha casa os presentes sempre se abriram na manhã de 25 de dezembro. Não me lembro do que vinha dentro dos embrulhos. Lembro-me de acordar super excitado, entrar pelos quartos adentro e arrancar os meus pais, a minha irmã e o meu irmão (dez e oito anos mais velhos) da cama. Eles vinham de pijama, desgrenhados, a bocejar e a refilar. Eu não me importava, amava aquele momento. Ainda agora, se fechar os olhos e se me conectar com essa memória, surgem-me lágrimas de alegria. Pronto, acabou de acontecer…

Desconfio que os meus pais tinham dificuldade em tolerar o meu nível de ansiedade e por isso deixavam-me abrir um presente na noite de 24. Eu gostava tanto daquele burburinho emocional do dia seguinte que escolhia sempre o embrulho que desconfiava ter a coisa menos especial. Queria que a excitação da manhã seguinte fosse a maior possível. E, por consequência, aquela era a noite mais curta do ano.

Aos poucos os presentes deixaram de existir e a excitação que lhes era inerente foi sendo transferida para a comida, a sua confeção e a partilha à mesa. Participar na cozinha com o meu pai, enquanto fazíamos a sopa de bacalhau e a aletria, é dos momentos que mais acalento no coração. Estar à mesa com a família reunida na noite de Natal traz-me uma sensação de calor no meio do peito. O meu coração sente-se nutrido pela pertença, pelo carinho que recebo e que dou. É tão bom pertencer a uma família!

Então, para meu deleite, a família começou a crescer. Os sobrinhos e os filhos nasciam e com eles regressou a magia dos presentes. Para tornar tudo ainda mais especial, eu e a Carla começámos a tradição do teatro de Natal. Uma coisa à séria, com narrador, efeitos especiais, música e atores. Este ano será a 7ª edição que, tal como a anterior, já é preparada pelas crianças.

Há três anos atrás, feitos doidos depois de uma ida à Eurodisney, fomos para lá da história do Pai Natal e começámos a dar vida aos bonecos do Leonardo e da Sofia durante o mês de dezembro. De manhã, o Leonardo e a Sofia saltavam da cama, excitados para descobrir que asneiras é que o Woody e companhia tinham estado a armar durante a noite. Desde a árvore de Natal caída no meio do chão à casa-de-banho cheia de papel higiénico, aconteceu de tudo.

Como dá para perceber, para mim a época de Natal é um período mágico que me dá muito ânimo. Como é para ti esta época? Para muitas pessoas, o Natal é stress e tristeza. Então eu gostava de tentar despir o Natal de tudo o que é material e refletir contigo sobre o que é essencial.

Preparar o coração

Independentemente da tua crença religiosa, o Natal é uma oportunidade de amor. É um momento cheio de pequenas ações que transformam as monótonas rotações de 23 horas, 56 minutos, 4 segundos e 9 centésimos da Terra sobre si mesma, em dias especiais. A raposa explicou-o da seguinte forma ao principezinho:

“Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.
– Que é um rito? perguntou o principezinho.
– É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso!”

Não são os presentes, nem a comida, nem as crenças religiosas que fazem do meu Natal uma possibilidade de amor. São os ritos, cheios de gestos de generosidade e de autenticidade. Eles ajudam-me a preparar o coração para que se expanda até aos braços. Assim, o meu coração pode abraçar quem me deu a vida, quem me salvou quando caí num esgoto na praia, quem me deu colo depois de me cortarem o frênulo da língua a frio, quem me ensinou a aceitar que é possível deixar exames por fazer.

Não sei como é o teu Natal. Talvez sintas o calor do aconchego que eu sinto, talvez não sintas nada, talvez sintas o frio da solidão, ou talvez sintas o cansaço do frenezim das compras. Seja como for, este ano desafio-te a seres uma estrela que pulsa e ilumina tudo à sua volta.

Quando o Sol se destapa

Fico sempre triste, com uma sensação de vida desperdiçada, quando ouço histórias de famílias que deixaram de se reunir no Natal. Ou porque estão zangadas ou porque a morte ocupa demasiado espaço. É como se um eclipse tivesse tapado o Sol da família e ninguém acreditasse ser possível destapá-lo, vivendo na crença de que é assim e pronto. É urgente destapar o Sol.

Repara, provavelmente vais viver oitenta anos. Se tiveres a minha idade só tens mais quarenta e cinco hipóteses de voltar a ter um Natal mágico. Há que arregaçar as mangas e dar corda ao coração. Não podes desperdiçar nem mais uma oportunidade. Sabes, o amor, ao contrário do que alguns filmes nos tentam vender, não é algo que acontece, é algo que se pratica. Como disse sabiamente M. Scott Peck em O Caminho Menos Percorrido:

“o amor é trabalho, a essência do não-amor é preguiça”

A preguiça mata o amor. As pessoas deixam de se amar porque deixam de agir e passam a queixar-se. Então, neste Natal, venho propor-te três exercícios para limpares o pó ao coração e o pores a brilhar:

  • Escreve uma carta (ou um email) para alguém da tua família com quem já não conversas há muito tempo. Fala a partir de um espaço de amor, sem julgares o outro. Fala do que te alegra e do que te entristece. Fala-lhe de ti e da vossa relação. Se te for possível desafia-a para se encontrarem nesta época de Natal.
  • Cria um novo ritual dentro da vossa habitual celebração do Natal. Deixo-te algumas sugestões: escolham uma entrada ou uma sobremesa para ser cozinhada por todos juntos na cozinha; façam uma ronda de brindes do mais velho ao mais novo; escolham cada um uma poesia e declamem-na ao longo do jantar; apresentem um teatro. A imaginação é o limite.
  • Desafia a tua família para uma missão de solidariedade. Convidem um vizinho que esteja em casa sozinho para passar o Natal convosco. Dediquem parte do dia a fazer serviço comunitário. Preparem um banquete de Natal e levem-no a uma família necessitada. Patrocinem uma carta do Pai Natal Solidário e escrevam uma resposta em conjunto para juntar ao presente. Em vez de darem presentes entre adultos, juntem o dinheiro e entreguem-no a uma organização que apoie crianças.

Se nenhum deste exercícios transformar o teu Natal, podes sempre ir mais além e fazer como o avô deste filme. Sim confesso, eu chorei a ver o anúncio.

Feliz Natal

Acredito que devemos aproveitar toda e qualquer oportunidade para celebrarmos a vida, seja no Natal, na Páscoa, nos Santos, no Halloween ou até no Ano Novo Chinês. Assim, desejo-te uma espetacular celebração da vida que pulsa em ti. Se por acaso acontecerem coisas que não estavas à espera, deixa fluir, é a magia do coração.

About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.