Em janeiro de 2002, ao mesmo tempo que as primeiras moedas do euro começavam a circular, eu parti para Bolonha em Itália. Foi uma oportunidade única para explorar partes de mim, que eu não me permitia por medo de como isso poderia afetar a imagem que eu tinha construído ao longo de tanto tempo. Pela primeira vez fui irresponsável e desisiti de uma disciplina. Isto para alguém que era “o bom aluno” foi terrivelmente difícil e foi preciso uma longa conversa ao telefone com o meu irmão para que ele me convencesse que estava tudo bem.

Bolonha foi como um casulo, onde eu me permiti descobrir novas asas. Quando regressei a Lisboa, algumas das crenças que eram estruturantes para o funcionamento da minha vida tinham-se dissolvido. No seu lugar tinham surgido novas verdades. A mais importante terá sido a convicção de que é possível criar amizades profundas e duradouras em qualquer parte do mundo, com pessoas que à partida ninguém o diria.

Bolonha foi uma nova gestação, mais curta, de apenas 7 meses. Ao deixar Bolonha, mais do que regressar, eu senti que avançava para Lisboa. Ou seja, eu não voltava para a vida que tinha deixado. Algo se tinha transformado e por isso esperava-me uma transição.

Tenho várias coisas para te contar sobre gestações e transições. Quero começar pela primeira grande aventura. Vamos regressar ao útero. Acredito que o que se passa nessa primeira gestação é determinante para quem virás a ser. Infelizmente não me recordo de como foi a minha gestação. Mas através do que se conhece hoje em dia, posso fazer uma reconstituição e levantar algumas questões pertinentes.

A primeira aventura

Na corrida pela vida, um dos quatrocentos milhões de espermatozóides ganha o totoloto, atravessa a membrana do óvulo, funde-se e surge o zigoto. Esta primeira minúscula célula tem toda a informação necessária para que surja um novo ser humano. Há neste processo uma sabedoria totalmente inconsciente, maravilhosa, mágica.

A viagem pela trompa uterina continua. O zigoto rodopia, rebola, flutua, voa. É jogado contra rochas e espraia-se nas paredes para voltar a ser levado pela corrente. Antes da implantação definitiva vive as suas primeiras atribulações. A viagem será inesquecível, mesmo que nunca me lembre dela.

Passam-se trinta horas e aquela primeira célula vibra, excitada. Começam-se a formar dois pólos, duas zonas de intensa atividade interna. Surge uma corrente entre os pólos com a informação mais profunda sobre a vida. Então o zigoto divide-se pela primeira vez em duas células idênticas.

Depois de seis ou sete divisões, o aglomerado de células que já tem uma semana de vida implanta-se na parede do útero e experiencio a minha primeira sensação de enraízamento. A qualidade do solo terá um impacto determinante na vida que se segue. Se o solo não for receptivo, nem nutritivo a viagem pode terminar aqui.

Pensar, Sentir, Agir

Passam-se duas semanas e o aglomerado de células cresceu mais de mil vezes. A célula primordial deu origem a células nervosas, células musculares, células sanguíneas e células ósseas. Estas células começam-se a organizar de uma forma mágica, tocam-se umas nas outras, comunicam entre si e vão assumindo funções dentro do corpo. Vão se diferenciando, encontrando o seu lugar.

O corpo torna-se num disco alongado com três camadas. Este disco dobra-se sobre si próprio, formando um cilindro triplo, composto por uma série de tubos. Ao longo da ectoderme forma-se o tubo neural com três protuberâncias. É o início do cérebro. A camada ectodérmica dará origem às componentes do corpo associadas com a captação de informação e o seu processamento, entre elas o cérebro e a pele. Esta camada dar-me-á a capacidade de pensar.

No interior do cilindro, na endoderme, forma-se outro tubo, o intestino, de onde nascerão, a seu tempo, todos os orgãos da digestão, da respiração e importantes glândulas. Mais do que um cilindro é movimento, é expansão e é contração. A camada endodérmica dará origem a todas as componentes associadas com a gestão da energia do corpo: digestão, respiração, produção de hormonas. Esta camada dar-me-á a capacidade de sentir as emoções.

Da camada do meio, a mesoderme, as células deslocam-se como num riacho para criarem duas metades de um tubo. Duas metades que se fundirão no coração. Esta camada dará ainda origem aos meus ossos e músculos. Ela dar-me-á estrutura e capacidade de agir.

Passaram-se vinte e cinco dias e um organismo que pesa menos do que um grama tem presente o potencial de pensar, sentir e agir. No seu centro há um coração que pulsa.

As primeiras sensações de prazer

As estruturas fundamentais do corpo estão a ser estabelecidas. Surgem correntes de vida
e as células deslocam-se para criar carne, músculos e ossos. Os nervos surgem da coluna espinal como raízes delicadas. Gotículas de sangue vão-se juntando, criando regatos à medida que o sistema vascular se vai criando. Passaram-se seis semanas e apesar da face ainda não estar totalmente formada, o embrião já ouve.

Ouve dois corações diferentes a bater. Dois batimentos que se fundem num padrão acústico ondulante. Este padrão é acompanhado por rugidos ruídosos e ocos, vindos do sistema digestivo da mãe.

Passam-se cem dias e apesar do feto só ter quinze centímetros, todas as estruturas estão criadas. O corpo está imerso em fluido fetal e preso à placenta pelo cordão umbilical. Há uma corrente de nutrição que lhe chega pelo umbigo e eu experiencio sentimentos maravilhosos de simbiose com a minha mãe. Como se existisse um elo mágico entre nós.

A cabeça é desproporcional em relação ao resto do corpo. Os movimentos de natação primitivos são protótipos dos movimentos que utilizarei, mais tarde, para resistir à gravidade. Para estes movimentos o feto utiliza os longos reflexos espinais, que são as fundações biológicas para mais tarde me mover na vida.

Passados cinco meses surgem finos e suaves cabelos despigmentados na sua pele. Estes cabelos ondulam para a frente e para trás ao sabor do movimento do liquido amniótico. Eles geram as primeiras sensações de prazer.

Se eu hoje tocar na minha pele de uma forma gentil, sou transportado para esta sensação prazerosa. Uma sensação mais antiga do que a respiração. No entanto, nem sempre é assim, muitas pessoas sentem desprazer quando lhes tocam. Têm uma sensação de invasão muito primitiva. Como é a tua relação com o toque?

O primeiro abraço

No útero, o feto partilha do estado afetivo da mãe. Fica triste com a mãe, ansioso, mas também relaxado, satisfeito e feliz. Às vezes a parede do útero torna-se luminosa, outras vezes escurece.

E então o universo que era tão grande, começa a encolher. E o bebé começa-se a sentir fechado. A liberdade absoluta desaparece. Descobre-se prisioneiro, o seu corpo toca todas as paredes. Paredes que se aproximam a todo o momento. Até que um dia as costas do bebé e o útero parecem ser um só.

Este abraço apertado será tão prazeroso quanto acolhedor for o útero da mãe.

No último mês as contrações do útero estimulam o bebé, abraçam-no, aconchegam-no. Quando as contrações chegam, o bebé treme de prazer, deliciado com este jogo sensual. Até que o feto escolhe a posição e o momento de saída. Encarnado naquele corpo, eu estou preparado para transitar para o mundo gravitacional, onde há chão para andar e ar para respirar. O mundo além do útero. Onde me espera a minha família.

O bom bebé

A minha viagem primordial poderá não ter sido assim. Talvez não tenha sido tão adequada, nem tão agradavelmente discreta. Talvez o eu bebé não tenha tremido de prazer, deliciado pelas contrações. Talvez, perante a ambiguidade da expulsão do parto, tenha mostrado uma turbulência própria de quem se quer projetar para a vida de forma livre e sensual.

Este relato de “bom bebé” é, de alguma forma, um eco da crença do “bom aluno”, que ao deixar Bolonha trazia consigo um profundo desejo de viver a sua verdadeira imagem. Hoje sei que é na aceitação de poder deixar de ser o “bom aluno/bebé” que está a possibilidade de me permitir habitar o meu self corporal. Também sei que ainda tenho um longo caminho pela frente.

(Este artigo foi inspirado maioritariamente por Boadella, D. (1987). Life in the Womb. In Lifestreams: An Introduction to Biosynthesis)

About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.