Não ta acreditas! Há-des-o ver. O gajo comprou um chapéu da mema côr que a cana. Agora dia sim dia não pega num botezito e pôe-se ao largo. Desgraçado!

O meu pai nunca me percebeu. Dizia que eu era o primeiro pescador da família, como se fosse uma vergonha. Eu não me importava. Eu era muitas pessoas e uma delas era pescador. O meu pai era caçador. Percorria o país e o estrangeiro atrás do melhor troféu. Desde pequeno que o acompanhava. Conhecia bem todos os lances de caça. O barulho do disparo. A ansiedade da espera. O latir dos cães em busca da presa. A descarga de adrenalina. O que é tudo isso ao lado da força do mar ?

O puto fica lá sózinho à espera. No meio do mar, chapéu verde na cachola, cana na mão e o bote para cima e para baixo. Tá mais velho que eu. Na tarda quer ter um cachopo.

O meu pai adorava ter conversas sérias. Parava sempre uns segundos. Piscava os dois olhos três vezes. Lambia os lábios e começava a falar. Explicava-me que o mundo não pára e que temos de estar sempre atentos. Insistia que se paramos indrominam-nos. Ele nunca parou. Visitou meio mundo.Fez de tudo. Tinha amigos engenheiros, médicos, músicos, bailarinos, empresários, jogadores de futebol, até chulos. Era respeitado por todos. Actualmente tenho um restaurante à beira-mar, um hotel de cinco estrelas no Brasil e uma herdade com turismo de habitação. Quando comecei a tomar conta do restaurante, ele estava sempre a dar palpites, a mudar coisas. A sua cabeça nunca parou. Quando na escola tinha de preencher a ficha e me perguntavam a profissão do meu pai escrevia sempre inventor.

E agora anda na queca com uma grega. Ê na me acredito! Desconfio daquela gaja. Na me importo que uma mulher séria às vezes seja uma puta, agora na suporto que uma puta queira ser uma mulher séria

Foi a Olímpia que me revelou o mundo da pesca. O seu pai era pescador grego. Já morreu. Ela fugiu do desgosto, das lamúrias da mãe, dos pescadores gregos. Não queria acabar pobre da carteira e do espírito como a mãe. Agora em vez de amanhar peixe, amanha-se a si própria agarrada a um varão no bar de strip cá da terra. Não acho que esteja muito melhor. Até merecia! É uma miúda à maneira. Quando dança parece que está a fazer amor com o ar. Uma mão a subir aquelas pernas enlouquece antes chegar ao fim. As mamas são deliciosamente redondas e os mamilos são santos com auréolas a comprová-lo. O cabelo preto espraia-se como uma onda no início das costas, planalto outonal. A face é meiga e as expressões carinhosas. Helena de Tróia devia ser assim. Convidei-a para vir dar uma volta de barco, esperava enfiá-la na cama. Largámos da doca às nove da manhã. O mar era um espelho e o Sol chegava-nos de todos os lados. A minha lancha de sete metros e meio, linha americana, cortava a superfície do mar como se este fosse o tornedó que eu vendo no restaurante. Olímpia de bikini esforçava-se para que a sua pele morena ficasse ainda mais escura. Tentei todos os meus números mas não tive sorte nenhuma. Ela não quis nada para além de conversa. Falou sobre a sua relação com o mar. Eu ouvi e aprendi.

Ê tenho medo é que ele se desleixe no rumo da vida e deite tudo a perder por causa de merdas. Há moças que dã a volta à cabeça dos homens. Olha que o raio da grega é bê bonita!

Um dia passei-me e disse-lhe que ia largar tudo, dedicar-me à pesca. Sabem o que ele me respondeu? Que a escolha era minha. O meu velho sabia muito. Claro que não ia abandonar nada. Eu não sou parvo. O meu pai construiu com muito suor as sapatas do micro-império do qual vivo actualmente. Sempre o respeitei e a tudo o que fazia. Apesar disso, a pesca transformou-se na minha fuga da realidade, o mar no meu santuário, o rugir das ondas na minha liturgia. A solidão da pesca não era cansativa como a solidão que passava no restaurante. Ainda agora o azul do mar me preenche, cura-me as mágoas. Às vezes Olímpia juntava-se e falava-me sobre o mar da sua terra. O facto de nunca ter dormido com Olímpia não cabia na realidade do meu pai. Ele simplesmente não acreditaria. É estranho, nunca tive paciência para conversar com mulheres, mas a sua voz seduzia-me. Sentia-me como o sultão das Mil e Uma Noites viciado nas histórias de Xerazad.

Sabes o que é que ê devia fazer? Meter-me na cama com o raio da grega. Podia ser que o puto abrisse os olhos. Sabes como é, as que na mandamos cá em baixo levamos com elas lá em cima.

Tinha vinte seis anos, dezasseis empregados a meu cargo, tinha a minha casa e o meu carro. No entanto para o meu pai continuava a ser o adolescente imberbe que ele teve de ir buscar à esquadra por causa de uma rixa à porta da discoteca. Todos os dias luto para vestir a minha pele e para despir a de filho do meu pai. Por isso é que ele não percebia o meu gosto pela pesca. Era eu, apenas eu e não ele. Penso que tinha medo de ficar sozinho. Estava a ficar velho e rabugento. Olímpia era o catalizador dos seus receios. Por coincidência. Se ela não existisse, alguma outra razão tomaria o seu lugar. É o síndroma dos pais. A sensação de que o mundo se começa a inverter. Quando a dependência dos filhos se transforma na dependência dos pais e a autoridade se transforma num conceito demasiado imaterial. Por isso refilava. Apesar de tudo era bom sentir como se esforçava para que eu continuasse a viver aconchegado pela sua mão protectora.

Ainda perco o puto por causa da gaja. Convenceu-o a ir pescar. Se calhar ainda o convence a esquecer o pai!

Olímpia desapareceu ao mesmo tempo que o meu pai. Ambos partiram de carro. Ela, soube mais tarde, foi com um lisboeta para um bar de strip na capital. Ele partiu a caminho de um canil e nunca lá chegou. Por causa dela, acabei mesmo por perder o que tinha de mais precioso. O meu pai. Por coincidência, ele desaparecia por causa do meu desejo de conquistar Olímpia. Tenho saudades da forma como lambia os lábios antes de me explicar a secura da vida.

Tênho de ir. Deixa a conta cómigo. O puto quer comprar um Lulu da Pomerânia para a grega. Tenho de o ir ajudar. Ele sabe lá comprar um cão! Amanhã no restaurante às oito. Adeus.

*A imagem que acompanha o texto foi criada pelo artista Paim das Neves, inspirado pelo conto.

About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.