As pessoas sem filhos não têm noção de como coisas tão simples como sair de casa se podem tornar quase impossíveis quando se tem filhos. Este é o mote para um momento brilhante de stand up comedy de Michael McIntyre. A sua descrição do processo de sair de casa com os seus dois filhos de manhã é hilariantemente familiar. Sim, porque quando se tem filhos, sair de casa para os levar à escola é todo um processo. E às vezes corre mal.

Vamos sair!

Tudo começou com o alarme a tocar à hora prevista – aquela que eu tinha calculado, num momento de lucidez, como ideal para que houvesse tempo suficiente para todos os imprevistos que podem suceder durante a manhã. Estava sozinho, a Carla tinha saído muito cedo. Três vezes depois de ter feito snooze ao alarme, sempre com a desculpa pouco lúcida de “São só mais cinco minutos…”, levantei-me estremunhado e fui acordar as crianças. Quem é que quer deixar o calor da cama e enfrentar o frio? Só adultos loucos. As crianças depois de muito resistirem lá aceitaram vestir-se, com a condição de o fazerem dentro da cama. Cheio de inveja por não poder fazer o mesmo fui tomar banho. Como é que tu tens força de vontade para fechar a água quente do banho? Tomar essa decisão é uma guerra que eu travo todos os dias de manhã. A mão avança para a torneira e em vez de fechá-la, dá-lhe aquele toque que aumenta ligeiramente a temperatura da água. “São só mais uns segundos…” e depois decido que tem mesmo de ser e a mão volta a ludibriar-me e a aumentar mais meio grau Celsius. Desligo a água, tal como me levanto da cama – sem saber como. É uma decisão inconsciente cheia de urgência.

Saí do banho e as crianças estavam a acabar o pequeno-almoço. Olhei para o telemóvel e percebi (como se diz cá em casa) que estávamos na risquinha para chegar a tempo. Fiquei irritado e ao mesmo tempo que fui preparar uma torrada, comecei a gritar: “Vão lavar os dentes! Vão-se calçar! Ponham os casacos!” Comi mal e a correr. Esfreguei os dentes, que foi o possível. Calcei-me. Vesti o casaco. Cheguei à porta pronto para sair e vi as horas no telemóvel. Ainda íamos a tempo! Se saíssemos naquele momento chegaríamos à escola segundos antes de tocar. Como vamos a pé, o tempo é sempre o mesmo, não há trânsito. Então gritei: “Vamos sair!”

O pai monstrengo

Era o momento-chave da narrativa matinal. Infelizmente, naquele dia, estávamos em modo trágico e havia direito a conflito. O meu filho de oito anos tinha decidido arreliar a irmã de sete e andavam à luta na sala. Ou seja, ignoraram-me totalmente. O pai monstrengo tomou conta de mim e dei dois berros para que parassem imediatamente com aquilo. O pai monstrengo para além de ter a capacidade de gritar, tem o dom da moralidade: “Não pode ser, Leonardo! Estamos atrasados. Porque é que tens de estar sempre a chatear a tua irmã? Principalmente quando queremos sair de casa. Queres chegar atrasado à escola?” O meu filho mais velho olhou-me e disse-me zangado : “Não grites comigo!”

Parte de mim percebia que ele se estava a sentir injustiçado, a outra parte não admitia aquele tipo de desafios à autoridade. “Sabem que castigo é que vocês merecem?” O olhar do Leonardo duro, preparado para o embate. O olhar da Sofia surpreendido, em pânico pelo que aí vinha. Então tão rápido como surgiu, o pai monstrengo espraiou-se como a espuma das ondas. ”Um castigo que eu já me arrependi de ter pensado nele e que não vou dizer…” Enquanto o elevador descia oito andares, eu ganhei consciência do que tinha realmente acontecido. Tinha me intrometido numa dinâmica entre os dois, algo que deveria ser resolvido entre eles. Na verdade, eu não fazia a mínima ideia se era o Leonardo que estava a arreliar a Sofia. Eu tinha estado demasiado atarefado a tentar recuperar o tempo perdido em pequenos prazeres da manhã. Tinha descarregado nele uma irritação pela qual ele não era responsável. Era normal que se sentisse injustiçado. Quando o elevador chegou ao rés-do-chão, eu já tinha percebido que tinha um pedido de desculpas a fazer.

Despesculpulpapa

Há qualquer coisa estranha que acontece comigo sempre que sinto o impulso de pedir desculpa a alguém. É uma resistência interna, como quando era criança e ia fazer uma atividade desconhecida. Parece que tenho medo que o coração me caia do peito. Demorei um minuto a organizar-me internamente e a acalmar a necessidade de manter a autoridade como pai. Quando saímos do prédio, dei-lhe um abraço, que ele não retribuíu, e disse-lhe ao ouvido: “Desculpa ter gritado contigo”, depois dei-lhe um beijinho na cara. Ao afastar-me percebi que ele tentava esconder um ligeiro derreter do seu olhar duro. Dei as mãos aos dois e lá partimos em silêncio em direção à escola. Minutos mais tarde, mesmo antes de atravessarmos a Avenida da República, o Leonardo parou e puxou-me pela mão, então disse-me: “Desculpa ter gritado, Papá.” O meu coração encheu-se de alegria e pôs-se para ali a saltitar pelo corpo, entusiasmado. Dei-lhe um grande abraço, que ele retribuíu. Então a Sofia quebrou o silêncio e lá fomos divertidos a treinar a língua dos Pês. Eupeu gospostopo muipuitopo depe tipi. Um minuto depois de ter tocado estavam a entrar na escola, mais do que a tempo. Enquanto voltava para trás, sozinho a pé, ia a sorrir desmesuradamente. Sem o ter planeado, durante aquela manhã tínhamos todos experimentado como é reparar uma relação. E essa, como a maior parte das lições, não se explicam, vivem-se.

Isto nem sempre acontece

Quantas vezes descarreguei a minha irritação nos meus filhos, irritação pela qual eles não tinham nenhuma responsabilidade? Muitas. E raramente lhes pedi desculpa. Quando reflito sobre essas situações percebo porque é que isso acontece. Internamente, estou tão frustrado e zangado, que nego a minha responsabilidade e protejo-me da sensação difícil que é admitir que estava errado. Ainda por cima, como eles são crianças e dependentes de mim, é fácil ignorar as emoções deles e simplesmente esperar que lhes passe a “birra”. Infelizmente, esse meu comportamento não tem nada de bom, exceto dar-lhes a oportunidade de lidarem com a frustração de serem acusados injustamente de algo. Acho que há melhores formas de lhes proporcionar essa experiência.

“Eles também não se vão lembrar quando crescerem”, poderás dizer. Não é essa a minha experiência. Conheço adultos que se lembram daquele momento em que se sentiram injustiçados pelos pais. É um momento que nunca foi reparado e que ficou ali embrenhado na relação, criando distorções ao longo de toda a vida.

Passamos a vida a ensinar as crianças a pedirem desculpa quando cometem algum lapso social. Talvez seja mais importante elas experimentarem o poder reparador de um pedido de desculpas vindo de alguém que tem autoridade sobre elas e que ainda assim as ama. Da minha parte, continuarei a procurar ter a lucidez que me permite acalmar as minhas emoções, sair da minha própria experiência egóica e considerar a perspetiva dos meus filhos.

Ah! E se não tens filhos e queres perceber como é sair de casa com eles, aqui tens Michael McIntyre no seu melhor: https://www.youtube.com/watch?v=uFQfylQ2Jgg

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.