Quando eu era criança, a minha irmã era o meu anjo da guarda. Recordo-me de vir da escola com ela, de mão dada pela rua. Eu tinha seis anos e ela dezasseis. Vínhamos o caminho todo a rir com as suas maluquices. Uma vez rebolei, de tanto rir, no chão da rua Maria da Fonte. Ela, adolescente que era, não se preocupava muito que uma criança estivesse deitada no meio da rua e ria comigo. Nesses momentos, a sós com ela, sentia-me seguro e amado. Sentia-me feliz.

Esta experiência de amor que eu tive o privilégio de viver logo desde muito cedo, terá contribuído de forma indelével para a construção da minha segurança interna e consequentemente da minha resiliência perante a vida.

Hoje quero te falar da importância de estar próximo do outro, olhos nos olhos, a partilhar uma experiência emocional positiva, com gentileza.

O ponto de rebuçado entre o stress e a apatia

O nosso corpo parece desenhado para manter a estabilidade e sobreviver através de uma série de mecanismos dinâmicos que buscam a homeostase. Um mecanismo central a este equilíbrio é o sistema nervoso autónomo. Este sistema regula funções como a respiração, circulação do sangue, controle de temperatura e digestão, alterando-as conforme os estímulos internos e externos. É constituído por dois subsistemas, o simpático que regula a resposta lutar-fugir e o parassimpático que regula o estado descanso-digestão. O equilíbrio destes dois sistemas é essencial. São o yin-yang da nossa homeostase.

Infelizmente o mundo parece estar a apostar forte e feio no subsistema simpático, sem perceber que é publicidade enganosa. Este subsistema, de simpático, não tem nada. Deixa-nos num estado de alerta, sem conseguirmos dormir, prontos para atacar ou fugir. Isto causa ansiedade, insónias, hipertensão e mais uma série de maleitas que todos os desequilíbrios gostam de trazer no pacote. Como é que podemos promover o subsistema parassimpático de forma a recuperar o equilíbrio?

Uma das componentes principais do subsistema parassimpático é o nervo vago, que liga o cérebro a partes importantes do corpo como o coração, os pulmões e o intestino. Segundo a recente Teoria Polivagal desenvolvida por Stephen Porge, o nervo vago também é responsável por processar e compreender quão seguros estamos com uma outra pessoa. Um contacto próximo com alguém permite-me, de forma inconsciente, observar as expressões faciais, o tom e a prosódia da voz. Quando o meu corpo entende estar em segurança, o subsistema parassimpático toma conta da ocorrência e a resposta lutar-fugir é suprimida. A ansiedade reduz-se.

Eu tenho sentido este efeito, muitas vezes, em terapia. O contacto ocular do terapeuta, a sua respiração tranquila, a forma atenta como me escuta, a aceitação calma e gentil, tudo contribui para eu encontrar o ponto de rebuçado entre o stress e a apatia. É como se acontecesse uma sincronização da nossa neuroquímica. Surge uma ressonância partilhada e eu sinto-me profundamente seguro.

Estas condições não existem apenas em terapia. Elas acontecem numa boa conversa com um bom amigo a beber um chá quente, no conforto de casa. Elas acontecem quando estou a conversar com a Carla, ao mesmo tempo que lhe massajo os pés, e os miúdos estão a jogar uma partida de xadrez ao nosso lado. Elas acontecem quando eu aprendo a utilizar a memória desses momentos como recursos valiosos.

Mão no coração

Aprendi este exercício num artigo da autora e psicoterapeuta Linda Graham, que inspirou grandemente a minha vontade de escrever esta partilha contigo.

A ideia do exercício é estimular o subsistema parassimpático. Coloco a mão sobre o meu coração. Respiro gentilmente e então recordo-me de um momento, apenas um momento, em que me senti em segurança, amado e querido por outra pessoa. À medida que recordo esse momento, e apenas esse momento, permito-me sentir as sensações que vivenciei. Deixo-as percorrerem o meu corpo, e permaneço assim durante trinta segundos.

De alguma forma o meu cérebro acredita que a experiência é real, o subsistema parassimpático é estimulado e o corpo começa a relaxar. A memória do momento de amor, ativa a libertação de oxitocina que é o antídoto imediato para o cortisol, a hormona do stress. Segundo a Linda, esta técnica é suficientemente poderosa para acalmar um ataque de pânico em menos de um minuto.

Porquê a mão no coração? Eu poderia simplesmente recordar um momento feliz, ou como diria a Fraulein Maria:

“I simply remember my favorite things”

A mão no coração traz uma dimensão física ao processo de imaginação. Estou a combinar o poder da mente, com o poder do corpo. Sinto o toque, a respiração e o bater do coração. É um pulsar quente, que expande e contrai. É a vida. E a vida acontece no presente. Aqui e agora. Está aí à tua espera no teu peito.

Assim termino com uma proposta. Desliga o telemóvel, ou o tablet, ou o ecrã, onde estás a ler estas palavras. Põe a mão no teu coração e permite-te sentir. Recorda um momento de segurança e amor. Deixa o nervo vago e a oxitocina fazerem a sua magia. São só trinta segundos.

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.