Um dia comecei a chorar compulsivamente sem perceber porquê. Sentia-me tão triste que só me foi possível esconder enrolado na cama. Durante o meu casamento senti-me tão eufórico, que tive delírios de grandiosidade sobre como aquele momento iria mudar a vida dos convidados. Acredita, o nível da minha crença era delirante. Por vezes sinto-me paranóico e tenho medo que haja pessoas a ler o blog que me queiram fazer mal. A paranóia vai ao ponto de pensar que me querem matar. Eu sou bastante desarrumado, mas há dias em que estou tão irritado que me ponho a arrumar a casa de forma compulsiva e irracional. Durante mais de vinte anos, a ansiedade provocou-me cólicas e azia. Quando tentei parar de consumir açúcar durante duas semanas, senti todas as noites as garras da dependência.

Parece loucura, mas

Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa

Passei os últimos seis meses a estudar psicopatologia e a identificar em mim os sintomas das doenças mentais descritas pelo Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders da Associação Americana de Psiquiatria.

O reconhecimento destes sintomas veio reforçar a seguinte crença. Não existe uma linha a separar os doentes mentais das pessoas sãs, mas sim uma linha a uni-los. Ou seja, a doença mental não define uma pessoa, é apenas uma variável contínua na escala da saúde. Os sintomas da doença mental são extremos de experiências possíveis para todo o ser humano, o que te inclui a ti e a mim. É como se o volume das sensações associadas à experiência estivesse no máximo e a pessoa não fosse capaz de o reduzir ou desligar. Compreender este contínuo entre a saúde e a doença mental ajuda-me a não estigmatizar quem precisa de ajuda e dá-me mais vontade de lutar pela minha sanidade em vez de ficar à espera de que tudo corra pelo melhor.

Hoje gostava de passear por este caminho perturbador da doença mental. Queres vir?

O Rei vai nu!

No conto de Hans Christian Andersen, um rei muito vaidoso desfila vestido com um tecido tão especial que só os inteligentes é que o conseguem ver. Ninguém diz nada com medo de parecer estúpido, até que há uma criança que expressa aquilo que todos estavam a pensar: “O Rei vai nu!”

No nosso conto, temos uma sociedade muito ambiciosa que só pensa em vencer. E nós não dizemos nada, com medo de sermos os perdedores, até descobrirmos que um em cada cinco dos nossos filhos estão deprimidos, ou ansiosos, ou com problemas de aprendizagem, ou a sofrer de hiperatividade.

Como é possível que as estimativas da prevalência da doença mental na infância apontem para valores de 10 a 20%? Fiquei chocado quando vi estes números pela primeira vez, não queria acreditar. Ainda pensei que poderia ser uma distorção causada pelos países com maiores dificuldades económicas, mas não é. Os valores no mundo mais desenvolvido são assustadores: Suíça (22,5%), Espanha (21,7%), EUA (21%). Ou seja a probabilidade de um filho teu vir a sofrer de uma doença mental, se é que não sofre já, pode ser de 20%.

Perante este cenário, apetece-me perguntar: Quem é que está louco? O rei que vai nu? As pessoas que não querem parecer estúpidas? Ou a criança que expressa o que mais ninguém quer ver?

Considerando o segundo princípio da Declaração dos Direitos da Criança proclamada em 1959 pela ONU:

“A criança gozará de uma proteção especial e beneficiará de oportunidades e serviços dispensados pela lei e outros meios para que possa desenvolver-se física, intelectual, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração fundamental a que se atenderá será o interesse superior da criança.”

Fica claro que a loucura é de alguém, exceto da criança.

Enquanto adulto responsável por crianças, sei como é difícil aceitar que, às vezes, não faço a mínima ideia do que estou a fazer e tomo decisões apenas porque não quero parecer estúpido. Se quero que os meus filhos sejam o mais saudável possível, é importante começar por compreender porque é que sofremos de perturbações mentais.

Diathesis-Stress

Ninguém sabe muito bem porque é que sofremos de doenças mentais, mas há muitas opiniões. O modelo explicativo que eu mais gosto é o diathesis-stress. Este modelo é uma resolução elegante do velho debate na psicologia entre nature vs nurture, entre inato vs adquirido. O modelo foi desenvolvido nos anos 60 para tentar explicar a causa da esquizofrenia, mas hoje em dia é uma hipótese muito mais abrangente na explicação da doença mental.

Este modelo diz que tu tens vulnerabilidades (diathesis) que perante o stress poderão levar ao desenvolvimento de uma doença mental. Também diz que há um conjunto de fatores protetores na tua vida que reforçam a tua resiliência para lidar com esse stress.

Por exemplo: Eu terei herdado alguma vulnerabilidade biológica face às patologias da ansiedade. Estas patologias poderiam ter sido despoletadas pelo stress que eu sentia antes de entrar em palco com a TUIST, mas o suporte e a validação que sentia da tuna poderá ter funcionado como fator protetor e ajudado a direccionar essa ansiedade.

Se não quiseres desenvolver uma doença mental, de acordo com este modelo, tens três variáveis com as quais podes jogar.

  • Diathesis. Podes tentar descobrir as tuas vulnerabilidades e modificá-las. Isto implicaria alterares o teu código genético, a tua organização biológica, ou as tuas experiências na infância. Este caminho para mim seria não aceitar quem eu sou. Parece-me uma loucura. Felizmente, mesmo que a tentação fosse grande, acho que ainda não é possível.
  • Stress. O stress faz parte da vida. Por muito que alguém tente fugir do stress, existem situações inevitáveis como as catástrofes e a morte. Existe ainda um equilíbrio difícil entre o stress e as escolhas que eu e as pessoas que me são queridas fazem na vida. Este equilíbrio é especialmente perigoso quando me sinto tentado a reduzir a liberdade dos meus filhos, ou de outros, para reduzir o meu nível de stress. Há claramente coisas que podemos fazer na vida em relação ao stress, se calhar a mais importante seria mudarmos a nossa relação com ele como propõe Kelly McGonigal na surpreendente Ted Talk “How to make stress your friend”.
  • Fatores protetores. Esta é a variável onde mais podes investir para garantires a tua sanidade mental, até ao último dos teus dias. Nesta variável estão incluídas as tuas relações com os outros, a nutrição do teu corpo, os estímulos do teu intelecto e a investigação da tua alma.

O melhor fator protetor

Patch Adams, o famoso médico palhaço afirmou numa entrevista:

“Não concordo que rir seja o melhor remédio. Eu nunca disse isso. A amizade é claramente o melhor remédio. É a coisa mais importante na vida.”

Eu concordo. A amizade é a relação mais saudável que tu podes construir com alguém. Tem como base o amor que sentes por quem o outro é e não por aquilo que gostavas que ele fosse. Essa aceitação é um fator protetor inigualável que te ajuda a lidar com os eventos mundanos e excecionais da tua vida.

Ely Saks, na TED Talk “A tale of mental ilness – from the inside”, conta como foi possível chegar aquele palco, apesar de sofrer de esquizofrenia crónica. Ela fala da aceitação dos amigos e da família e como essas relações lhe trouxeram significado e profundidade de vida. E fala da aceitação do seu local de trabalho que “não só acomoda as suas necessidades, mas, na verdade, as abraça”.

Parece-me que, enquanto sociedade, nos falta esta capacidade de aceitação. Estamos tão preocupados em ficar bem na fotografia e em não parecer estúpidos que não temos capacidade de escutar as crianças. Em vez de aceitarmos a hiperatividade, a tristeza, a ansiedade, a diferença, o medo, a agressividade e a mesmice das crianças que não se comportam como é esperado, medicamo-las, condicionamo-las, reprimimo-las e escondêmo-las. Aceitá-las e dar-lhes espaço para que elas possam ter a oportunidade de se aceitarem a si próprias dá muito mais trabalho. Enquanto pai, implica ser capaz de educar os meus filhos de acordo com as suas necessidades e não para satisfazer as minhas. Implica compreender que a educação de uma criança tem como objetivo a sua independência em todos os campos da vida, para que ela possa ser quem escolher ser. A educação não serve para que a criança seja quem nós, do alto do nosso pedestal de adultos, achamos que ela deveria ser. Talvez por isso ser tão difícil, necessitemos de continuar a recordar a Declaração dos Direitos da Criança, mesmo nos países onde felizmente as crianças têm direito a uma infância.

Aceitar

Sinto-me muito grato pela generosidade de todas as pessoas que, ao longo da minha vida, partilham a sua amizade comigo. Não há melhor sensação do que me sentir aceite pelo outro, simplesmente pelo que sou e não pelo que tenho ou o que faço.

Este é um dos grandes desafios da minha vida. Aceitar-me. Pois como Alexander Lowen escreveu no final do seu inspirador livro O Medo da Vida:

“A aceitação do destino muda o próprio destino. Ao desistirmos do esforço para superar o destino, deixamos de lado a nossa estrutura neurótica de caráter e então pode emergir um caráter saudável, que determine um destino diferente.”

E esta é a minha intenção. Aceitar-te como és, um mundo sem fim de possibilidades, com toda a tua loucura e com toda a tua normalidade. E tu, aceitas-te?

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.