Quando ainda não tinha dois anos estive desaparecido durante uma hora na praia. Depois de muito stress e angústia dos meus pais e amigos que me procuravam por todo o lado, fui encontrado longe, dentro de um toldo, a brincar tranquilamente com outra criança. Este episódio que ficou registado para sempre na história da família poderia ser visto como um sinal de falta de atenção por parte dos meus pais. Eu acredito que foi exatamente o oposto. Eu só poderia ter partido para aquela intrépida expedição e ficar tranquilamente tanto tempo longe deles, se no dia-a-dia me dessem a atenção necessária para eu me sentir em segurança.

Quando passados dezoito anos eu anunciei que tinha encontrado casa para arrendar e que me ia mudar, a minha mãe ficou muito perturbada. Nesse momento perguntou-me se eu não gostava de estar com eles. Eu tentei explicar atabalhoadamente que era exatamente por ter uma relação tão boa com eles que me sentia seguro e confiante para sair de casa. Eu não estava zangado com ninguém. Não havia nenhuma revolta interior. Eu, simplesmente, queria partir para uma nova expedição intrépida e só o conseguia fazer porque sabia que tinha nos meus pais um porto de abrigo. A minha mãe, que tem mais anos nesta vida, acabou por aceitar, mas obrigou-me a levar semanalmente a roupa suja para lavar em sua casa. Confesso que não me importei.

Como John Bowlby teria dito, a minha vida pode ser vista como uma série de expedições, cada vez mais longínquas e longas, que partem de uma base segura onde eu regresso para me nutrir de confiança (e lavar a roupa suja). Quando eu era criança, o meu vínculo era com os meus pais e os meus irmãos. Hoje em dia é com a Carla. Quando for velhinho, imagino que será com os meus filhos e com os meus netos. Talvez sejam eles a trazer-me a coragem que me falta para enfrentar essa última grande expedição – a morte.

A teoria da vinculação criada por Bowlby em 1958 tenta explicar esta dinâmica entre os nossos vínculos e a nossa capacidade de exploração. Ao estudá-la, descobri coisas que gostava de ter sabido quando me tornei pai. Este artigo é a minha partilha contigo dessas descobertas.

Fonte de segurança

Em 1958 numa experiência laboratorial, Harry Harlow separou macacos rhesus recém-nascidos das suas mães e colocou-os num cenário que incluía duas “mães substitutas”. Uma era feita de arame e tinha um biberão, a outra era feita de arame revestido de pano macio e não tinha biberão. Os macacos muito assustados, escolhiam sempre ficar com a “mãe” de pano, na qual se enroscavam em busca de conforto, em detrimento da “mãe” que os alimentava. Esta experiência veio demonstrar algo que na época era contra as correntes da psicologia – nós precisamos de contacto. Toque. E isso é tão ou mais importante do que ingerir alimentos. É um tipo de nutrição que nos ajuda a regular as emoções e o sistema nervoso autónomo. É uma fonte de segurança. Eu, tal como o macaco que busca o conforto do pano macio, busco um abraço onde possa relaxar todo o meu ser sem estar preocupado. Um abraço onde sou aceite com todas as minhas imperfeições e incapacidades. Um abraço que me diz – tu podes existir. Está tudo bem.
Mas não é só o toque que funciona como fonte de segurança. É também o olhar.

Em 1975, Edward Tronick apresentou a “Still Face Experiment”. Nesta experiência uma mãe brinca com o filho cara-a-cara. Após uns minutos, a mãe vira a cara e quando volta a olhar para o filho a sua face não tem expressão. No início a criança reage sorrindo, gesticulando e vocalizando. Quando a face da mãe se mantém sem expressão, as crianças respondem com maior agitação numa tentativa de despertar uma resposta emocional. Quando esta tentativa falha, os bebés entram em sofrimento extremo, chorando descontrolados. Então, três minutos depois, a mãe volta ao seu estado normal e o bebé rapidamente se estabiliza. Esta experiência foi amplamente replicada, inclusive com pais, e os resultados são sempre os mesmos. As crianças entram em sofrimento perante uma mãe ou pai que os olha sem os ver. E há quem viva toda uma vida assim. Não dá para imaginar as consequências.

Expectativas sobre as relações

As relações entre bebés e pais são pré-verbais. É aquela fase em que os adultos deixam de saber falar e descobrem o poder da prosódia. São os: Tutututu! Buuu! Olháaa! Brrrr! É uma fase de muita estimulação visual e gestual. É nesta relação afetiva com a mãe e pai (ou substitutos) que o bebé tem a oportunidade de praticar o que é sentir. Nesse processo vão acontecer momentos em que o bebé se vai sentir sintonizado com os pais e momentos em que se vai sentir dessintonizado. A descoberta de que é possível recuperar a sintonia com a mãe quando as coisas correm mal vai ser crucial para o seu desenvolvimento social. Estas primeiras interações funcionam como um ginásio onde o organismo está a descobrir como regular a sua homeostase emocional sempre que se depara com stress e com o desconhecido. É a partir dessas interações que cada um de nós cria as suas primeiras representações mentais de como é relacionar-se com o outro. É seguro? É perigoso? É estranho? É confuso?

O que eu gostaria de ter sabido

Quando soube que iria ser pai preocupei-me em ser o melhor possível. Ser pai era um sonho que eu acalentava. Era algo muito importante para mim. Eu estava particularmente preocupado com o que fazia e com o que dizia. Queria acertar. Queria que os meus filhos crescessem para se tornarem adultos felizes. Esta atitude gerava tensão e stress, particularmente entre mim e a Carla. Neste processo fui descobrindo que muito do que eu tentava fazer não funcionava. Parecia que o maior impacto não vinha do que eu fazia, mas sim do que eu não fazia. Eu esforçava-me para que as refeições fossem momentos ordeiros. Arranjava estratégias para que eles fossem capazes de adormecer sozinhos. Incentivava-os a serem autónomos. Desejava secretamente que começassem a falar e a andar cedo. Tudo isso foi e é importante, mas na verdade todas essas coisas são inconscientemente afetadas pela qualidade da minha presença. E essa foi a minha descoberta. O que realmente importa não é o que eu digo, mas quem eu sou, e como estou com eles. E isto não é um apelo à perfeição. Ter pais perfeitos deve ser horrível. Se os meus filhos se constroem na relação comigo, eles precisam de lidar com a minha imperfeição, a minha frustração, e a minha incapacidade. E essa experiência não é possível se eu colocar uma máscara de pai perfeito. Se eu quero que eles aprendam que chorar é ok, eles têm de me ver chorar e perceber que está tudo bem, que o mundo não me vai engolir. Se eu quero que eles aprendam a ser corajosos, eles têm de perceber que eu também tenho medo, e que isso não é razão para eu desistir de mim. Se eu quero que eles sejam felizes, tenho que permitir-me ser feliz na relação com eles, olhos nos olhos, pele com pele.

Eu descobri, nas profundezas do meu ser, o maior cliché da humanidade: A felicidade na vida nasce do Amor. Se acabaste de rebolar os olhos, então sugiro que vejas a apresentação “O que torna uma vida boa? Lições do estudo mais longo sobre a felicidade” do Robert Waldinger, diretor do Harvard Study of Adult Development, um dos estudos mais longos a decorrer sobre a vida adulta, realizados até hoje.

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.