Sento-me numa das cadeiras coloridas da bancada. Lá em baixo a aula de natação do meu filho de oito anos está prestes a começar. Sinto o impulso de agarrar no telemóvel. Resisto. Ao meu lado está um homem, provavelmente um pai. Apresenta a nova postura da evolução humana – pescoço dobrado, olhos fixos num paralalelipípedo de plástico e vidro que agarra com as duas mãos. A professora dá indicações e os miúdos começam a nadar crawl. Tenho cinquenta minutos de espera pela frente e volto a sentir o impulso de agarrar no telemóvel para me entreter. Resisto. Decido dedicar o tempo a observar o Leonardo a nadar. Apercebo-me que evoluiu imenso e que já é capaz de respirar alternadamente de três em três braçadas. Às vezes quando para, olha para mim em busca de um sinal. Eu coloco a mão no ar, fecho-a e levanto o polegar. Quem me vê talvez pense que eu estou a fazer um “gosto”, mas na verdade é um “fixe”, a versão pré-facebook, menos egóica. O telemóvel toca. É a Carla a perguntar-me se eu quero que ela compre alguma coisa para o almoço. Peço-lhe para comprar peixe fresco, que fazemos no forno. Ela desliga. Passam-se vários minutos e apercebo-me que fiquei agarrado a ler notícias sobre o Trump. Faço um esforço e volto a guardar o telemóvel. Concentro-me na aula de natação. O aborrecimento assola-me rapidamente e o pequeno dispositivo eletrónico chama por mim como uma sereia. Estou a tentar com todas as minhas forças manter-me atento à aula do Leonardo, mas o meu cérebro congemina um plano com o meu braço e dou por mim a agarrar no telemóvel para ir ver as horas. Tenho uma notificação no WhatsApp. Passam-se vários minutos até eu me aperceber que voltei a ficar alheado da realidade. Estou a ler emails de trabalho. A aula termina e eu vou esperá-lo no balneário. De repente sinto uma vibração na perna, agarro no telemóvel e descubro que não está a tocar. É uma vibração fantasma. Então compreendo que isto se está a tornar ridículo. Tenho de fazer alguma coisa.

Fantasias Gratificantes

Sherry Turkle, conhecida pela sua vasta investigação sobre a relação entre o ser humano e a tecnologia, deu uma TED Talk em 2012 com o tema “Ligados, mas sós?”. Durante essa apresentação, Sherry reflete sobre como os nossos dispositivos e personalidades virtuais estão a redefinir a experiência humana. Segundo ela, começámos a viver três fantasias gratificantes inconscientes:

  • Primeiro, que podemos colocar a nossa atenção onde quisermos que ela esteja.
  • Segundo, que iremos ser sempre ouvidos.
  • E terceiro, que nunca teremos de estar sozinhos.

Quando reflito sobre a relação dependente que criei com o meu telemóvel, apercebo-me da intolerância que desenvolvi para com os pedaços aborrecidos da vida. O mais estranho é que, hoje em dia, parece normal eu agarrar no telemóvel:

  • durante reuniões, com pessoas a falar diretamente para mim, quando o que me dizem não está a ser assim tão interessante;
  • quando acordo e quando me deito, o que claramente interfere na qualidade da relação com a minha família;
  • na rua, quando vou sozinho e tenho de andar durante algum tempo, pondo em risco a minha própria segurança.

Esta possibilidade de fugir dos momentos aborrecidos da vida parece trazer uma gratificação instantânea, ao estilo da ingestão de açúcar, mas tem um custo elevado. Ela promove o meu desconforto com o estar só e isso priva-me dos momento de autorreflexão que a solidão oferece. Promove também a incapacidade de estar em contacto com as emoções desagradáveis que surgem nas relações humanas cara a cara. E então surge a tentação de me esconder atrás do ecrã para comunicar coisas desagradáveis. Como diria o Eddard Stark:

“The man who passes the sentence should swing the sword.”

Ao escapar das emoções através da porta da tecnologia, estou a privar-me da possibilidade de me conhecer. E assim, apesar de estar cada vez mais ligado, estou cada vez mais isolado, porque me falta a ligação primordial – a ligação a mim mesmo.

Se este tema me parece importante na minha vida, ele é especialmente relevante na vida dos meus filhos. Eles nasceram num mundo tecnológico incrível, cheio de possibilidades maravilhosas. Foi graças ao meu telemóvel que tivemos a possibilidade de comer um saboroso robalo assado no forno depois da natação. Demonizar a nossa realidade tecnológica parece-me pouco saudável e pouco inteligente. Não é essa a minha reflexão. O que eu quero é encontrar um equilíbrio saudável entre a tecnologia e a minha humanidade.

Criar espaço para sentir

O apelo da tecnologia é tão forte que tenho tentado cultivar espaços sem tecnologia. Esses espaços são criados por regras que vamos definindo e negociando em conjunto. Partilho contigo algumas ideias:

  • Cá em casa durante os dias de semana, as crianças não têm acesso à tecnologia. Isto significa que não veem televisão, nem jogam com nenhum dispositivo eletrónico. Sem essa fonte de entretenimento rápido disponível, elas têm ganho tempo de qualidade para brincarem juntos e aprenderem a autorregular-se.
  • Há algum tempo que decidi que o meu telemóvel não entra no quarto. É uma forma de criar um espaço sagrado para a minha relação com a Carla.
  • Não se pode utilizar tecnologia à mesa. Sem nada que nos entretenha, surge a possibilidade de conversar e jogar em família.
  • Tenho um momento meditativo pessoal diário. Praticar o estar só, em contacto com o que sinto tem sido uma das melhores formas de me ajudar a sustentar esse contacto no dia-a-dia. Algo que eu gostaria de estender às crianças.

Depois daquela aula de natação, enquanto regressava a casa, pensei no meu velho Nokia 3310, que só servia para fazer chamadas e enviar sms. Não senti saudades. Se por um lado, não tinha de fazer um grande esforço para resistir ao seu apelo. Por outro, não teria sido possível escrever parte deste artigo enquanto caminhava por Lisboa. Não acredito que a solução seja o de negar a nossa realidade tecnológica, mas quero aprender a regular-me. Nem que seja para deixar de sentir vibrações fantasma.

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.