O coração marca o ritmo numa nota grave, profunda. A coluna harpeia. A pélvis badala. O diafragma expande e retrai como um fole. Os lábios abrem-se. Os olhos cerram-se. O corpo é uma orquestra numa progressão de acordes a caminho do suspense. Um crescendo que parece não acabar. Então uma última nota fica suspensa. É um instante de eternidade. Antecipa uma resolução que chega como um sismo. O corpo estremece. Ondas de sensações nascem no epicentro e percorrem o corpo que se contorce, descontrolado. Aos poucos a ondulação acalma e permanece uma vibração prazerosa que se infiltra pela pele, espalhando-se por todos os recantos. Os olhos abrem-se e surge o silêncio – sagrado. O corpo parece levitar. O tempo para. A mente está calada. E então, também o orgasmo passa e só me apetece ficar ali aconchegado nos braços que me envolvem.

Durante muito tempo senti que me faltava uma parte de mim porque era virgem. Ao ouvir as histórias dos meus amigos que se gabavam das suas aventuras sexuais, eu sorria intimidado, embaraçado. A atração era um mistério que eu não sabia resolver. As paixões sucediam-se, mas quase nunca passavam do meu mundo fantasioso. As poucas vezes em que eu reunia todos os pedacinhos de coragem que tinha e verbalizava o que sentia, nada fluía e eu sentia-me trapalhão. Essas interações terminavam, invariavelmente, com a famosa resposta: “Eu gosto muito de ti, mas como amigo.”

Hoje, casado com uma mulher maravilhosa e com dois filhos a ficarem crescidos, olho para esses tempos da juventude e percebo que eu andava perdido numa floresta escura, sem nenhum mapa que me orientasse. Sinto-me muito grato por perceber que a minha curiosidade resiliente me levou até mulheres cheias de luz. Mulheres que me deram a mão e me levaram a descobrir este bosque encantado que é a sexualidade humana.

Gengibre, cócegas e lóbulos de orelha

Na minha juventude entre amigos nunca se falava de sexualidade, isso era um tema higienizado por professores que nos faziam rir nervosamente. Entre amigos falava-se de sexo e o discurso era pobre. O tópico principal era o desempenho e não as possibilidades de prazer que o sexo nos traz. Às vezes parecia que o sexo era a derradeira competição – quem ganhasse, ganhava tudo. E eu era um perdedor (ou achava eu na altura). Naturalmente, sentia muita pressão para atingir resultados. Essa pressão roubava-me uma quantidade enorme de prazer que eu nem sequer sabia que era possível. Aos poucos tenho conseguido deixar cair essa pressão e tenho compreendido que o caminho da sexualidade não é um caminho de desempenho, mas sim de entrega e rendição às sensações.

Comer um pedaço de gengibre cristalizado não tem nada a ver com sexo, mas pode ser altamente sexual. Se eu deixar o cubo derreter-se na boca e me entregar à hipérbole de sabores que me invadem os sentidos há uma onda de prazer que me percorre o corpo. Isso não aconteceria se eu comesse o gengibre de forma mecânica por pura ingestão de um alimento. Saborear a comida pode ser muito prazeroso e o segredo está no tempo que damos ao corpo para que desperte as sensações. O prazer requer tempo e presença.

As cócegas são um particular exemplo de como o prazer se pode transformar em dor, quando um conjunto de condições não estão reunidas. As cócegas são um dos grandes mistérios da vida, estudado por alguns dos maiores pensadores deste planeta:

“Por que é que ninguém pode fazer cócegas a si mesmo?”, Aristóteles em Problemata

“Quando tocados na sola dos pés, por exemplo, ou por debaixo do joelho ou na axila, sentimos, para além da sensação comum do toque, uma sensação à qual colocámos um nome especial, ‘cócegas’.”, Galileo em The Assayer

“No caso do riso provocado pelas cócegas, a mente tem de estar numa condição prazerosa; se um homem estranho fizesse cócegas a uma criança pequena, ela gritaria de medo.”, Darwin em The expression of the emotions in man and animals

Parece-me que o fascínio das cócegas está no paradoxo que representam. Se alguém me fizer cócegas num jogo consentido e respeitar os meus limites, as sensações despertadas são prazerosas e excitantes. Essa ameaça não ameaçadora é uma excelente forma de criar vínculo entre pais e crianças. As crianças adoram o jogo das cócegas, quando se sentem seguras. Se alguém me fizer cócegas não consentidas, o acto torna-se numa invasão e eu posso vivenciar as sensações despertadas como uma violação. As cócegas foram utilizadas desta forma como tortura, ao longo da história, desde os romanos aos nazis.

As cócegas funcionam, assim, como um mecanismo de autodefesa. Um mecanismo que nos permite sentir na pele como o outro nos afeta. Permitirmo-nos ter cócegas, numa relação saudável, é uma possibilidade de abrirmos a porta a um mundo de sensações de prazer. Essa possibilidade exige uma rendição que só acontece se existir confiança e respeito.

Um recanto do corpo onde eu sinto que isto é especialmente verdade é o lóbulo da orelha. O que é que se passa com este pequeno pedaço de pele que ninguém sabe para que é que serve, nem porque é que existe? Porque é que é tão sensível, tão sexualmente ativo? É um mistério e os mistérios têm sempre dois caminhos: podem ser resolvidos, ou podem ser vividos. Eu, neste caso, escolho o segundo. Sei que se estiver presente e der tempo às sensações das cócegas no lóbulo da orelha, estou no caminho certo para encontrar a onda perfeita.

Em busca da onda perfeita

Wilhelm Reich publicou a primeira edição de “A função do orgasmo” em 1927. Naquela que é uma das suas obras centrais, Reich descreve o orgasmo como uma curva com várias fases: prazer preliminar, penetração, controlo voluntário, controlo involuntário, climax, orgasmo e relaxação prazerosa. A primeira vez que vi a curva de Reich, pensei como seria a sua forma se tivesse sido desenhada por uma mulher. Certamente que seria diferente. O orgasmo é uma onda de sensações tão íntimas, é uma experiência tão única, que um diagrama será sempre pobre para explicar a abundância do prazer. E, claramente, a experiência feminina é distinta da masculina.

Ainda assim, esta curva, se vista como uma onda (conforme sugere David Boadella), pode ser uma boa metáfora para descrever a minha experiência.

As minhas melhores ondas demoram a rebentar. Começam lá longe da praia com uma altura reduzida. Vão se aproximando lentamente, ganhando energia e velocidade. A crista começa a crescer, ameaçadora, mas aguenta-se durante muito tempo. Até que a energia supera a sua capacidade e ela rebenta com um rugido. Então vai-se desvanecendo enquanto a espuma se aproxima da praia. No final, a onda espraia-se pela areia até desaparecer.

Das melhores ondas que apanhei realço estas descobertas:

  • Quanto mais demorada é a chegada da onda à zona da rebentação, maior a crista e mais sonoro o rugido.
  • Eu só sei apanhar uma onda de cada vez, mas diz-se que há homens que tal como as mulheres sabem apanhar várias. Infelizmente ainda não conheci nenhum que me contasse o seu segredo.
  • Uma vez apanhei uma onda que rebentou sem espuma e sem ruído, só silêncio. Foi um orgasmo sem ereção e sem ejaculação. Foi uma experiência incrível que não sei descrever. Talvez tenha sido aquilo a que chamam de místico.
  • Quanto mais me rendo à força da corrente, maior a onda que se cria.

O corpo humano é um mundo inesgotável de sensações que me surpreendem permanentemente. Quando as sensações começam a crescer, a minha mente dispara os seus alertas: “Isto não é próprio!”, “O que é que eu faço com isto?”, “E se é demais?”. O orgasmo funciona, assim, como um farol que me permite navegar entre esses escolhos, sem desistir de explorar a vasta terra da sexualidade humana.

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.