Lembro-me de estar sentado, à espera, nas urgências do hospital da CUF das Descobertas. Do outro lado da sala estava uma mãe desesperada com o comportamento irrequieto e barulhento do seu filho. No meio do ambiente de doença, a energia viva daquela criança era demais e a mãe sentia a pressão social dos outros pais, cansados e impacientes. Utilizando o derradeiro argumento, apontou para mim e disse ao filho: “Se não te portas bem, aquele senhor vem aqui zangar-se contigo”. Não podia acreditar que ela me estava a utilizar para meter medo ao filho. Respondi, desde a minha ponta da sala: “Desculpe lá, mas não me envolva no seu problema”. Nessa época, eu ainda não compreendia o nível de desespero a que pode chegar um pai ou uma mãe e disse-o sem qualquer compaixão pela situação.

Aquela mãe estava desorganizada. Sem saber como lidar com o medo inconsciente de ser rejeitada pelo grupo de pessoas que a rodeavam, disparava para todos os lados. Sentindo-se impotente para controlar o filho, experimentou passar o poder para mim. É uma estratégia de desresponsabilização que alimenta a insegurança do filho. Em vez dos limites serem colocados pela mãe, são personificados em estranhos, com os quais a criança não tem nenhuma relação de afeto. Isto é um caminho eficaz a curto prazo e desastroso a longo.

Então o que é que ela poderia ter feito? Não sei. Não sei mesmo. Tenho apenas uma ideia de como é que eu poderia ter agido. Quando este episódio aconteceu, eu ainda não tinha tido de enfrentar nenhum acesso de raiva de um filho, o que me permitia ter todo um julgamento superior em relação àquela mãe. Agora que já tive de enfrentar vários, e que conheço o desespero de não controlar um filho, sinto muito mais empatia pela sua situação. Em vez de rejeitar o poder que a mãe me estava a entregar, poderia ter chamado a criança para ao pé de mim e ajudado a acalmá-la, dando espaço à mãe para respirar uns segundos. Ela claramente precisava.

Cada criança é única, tal como cada família. Não há receitas. Nem atalhos. Existem caminhos de experimentação e partilha. Posso, por isso, partilhar o que é que eu tenho aprendido com os meus filhos nesta arte de lidar com a sua raiva e a sua frustração.

Dizer que não

Todos os adultos têm de lidar com o sentimento de frustração diariamente. Se o nosso objetivo enquanto pais é educar os nossos filhos para se tornarem independentes de nós, é importante criarmos as condições para que eles possam experienciar essa sensação em segurança. Poderão assim aprender a estar em paz com ela.

Um dia estava a regressar a pé da escola com os meus filhos. A Sofia vinha convencida que ia acontecer uma coisa que ela queria muito nessa noite. Quando eu lhe disse que afinal já não ia acontecer, ela zangou-se. Começou a gritar e a chorar. Eu respirei fundo e continuei a andar. As pessoas passavam por nós e eu sorria nervosamente. Os seguintes pensamentos inundavam-me a mente:

“Vou ignorar e não dar atenção, ela há de se calar”
“Estou a reforçar que é ok fazer birra”
“Estou a estragar a educação da minha filha”
“Vou-lhe dar uma palmada! Assim tem uma razão para chorar”

Experimentei explicar-lhe a situação de forma lógica. Que era um imprevisto. Que ela gritar no meio da rua não ia mudar nada. Que aquilo já não ia acontecer, independentemente do que ela fizesse. Acho que só aticei ainda mais a tempestade. Ela continuava a gritar a plenos pulmões. Comecei a ficar desesperado. Internamente estava completamente desorganizado, sem saber o que fazer. De repente, lembrei-me de uma partilha no Facebook da minha amiga Isabel Faia e decidi experimentar algo diferente. Decidi abraçá-la. No momento em que me baixava para a abraçar, passavam várias pessoas por nós e a minha mente disparou imediatamente:

“Olha-me este pai a mimar a filha que está a fazer uma birra”

Ignorei o julgamento e abracei-a. Os gritos transformaram-se num ranger de dentes. Incentivei-a a colocar toda a sua raiva naquele abraço. Ela apertou-me com toda a sua força. A tensão do seu corpo cresceu até um pico e depois desapareceu. Onde antes existiam gritos de raiva, surgiu um choro miudinho. Era como se a fúria do guerreiro tivesse dado lugar à tristeza da menina. Voltei a dar-lhe a mão e continuámos o caminho. A tristeza não durou mais do que a travessia de uma avenida. Aos poucos foi capaz de voltar a falar de outras coisas. Quando chegámos a casa, a alegria já se tinha instalado na nossa conversa e ela já tinha aceite que o que ela queria, não ia acontecer.

Espaço para sentir

Aquele abraço não foi uma cedência. Não alterou a minha decisão. E a Sofia não teve o que queria. O abraço foi uma validação de que o que ela estava a sentir era real. O contorno que lhe dei, tornou-se na possibilidade de ela exprimir a sua raiva de forma mais adequada, em vez de ir ao gritos pela rua. Naturalmente surgiu tristeza. Eu também fico triste quando descubro que algo que queria muito afinal não vai acontecer. No entanto, falta-me a capacidade para chorar. Acabo por esconder a tristeza atrás de irritação. Sem me permitir sentir a emoção desconfortável, acabo por fugir da minha interioridade e torno-me implicativo, como meio de colocar a minha atenção em tudo o que se passa fora de mim.

Este acontecimento foi um momento de viragem na relação com a minha filha. A partir daí passei a ter uma referência para lidar com toda a sua intensidade, sem ser por via do conflito. Foi também uma descoberta de vida. Compreendi, finalmente, a importância de validar o que alguém sente, sem querer mudar nada, e do processo de transformação que daí ocorre.

 

Se gostaste deste artigo, junta-te ao grupo de pessoas que acompanham de perto o meu blogue. Clica neste link e deixa-me o teu nome e email. Receberás uma mensagem de boas-vindas com o meu contacto e o conto “A imperdoável escolha de Black”

About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.