Está quase tudo pronto para o jantar de Natal. A mesa das crianças com nove lugares foi improvisada na sala. Em cima repousa uma casa de gengibre montada a oito mãos, entre gargalhadas e glacê espalhado pelas caras das minhas sobrinhas. As paredes revestidas de gomas ameaçam ruir a qualquer momento, ao ponto de alguém sugerir que poderia servir para a maquete do terramoto de 1755 que o Leonardo tem de apresentar na escola. Não é motivo para preocupação, dentro de algumas horas ela será devorada pelos Godzillas da família. A mesa dos adultos, com dez lugares, sugere uma formalidade pouco usual cá em casa. Os copos de cristal elevam-se a partir de uma toalha de tons sóbrios e ancestrais do Natal. Duas velas vermelhas substituem de um modo contemporâneo os antigos castiçais. Na verdade um olhar mais atento perceberá que os talheres são de diferente coleções do Ikea. Em jeito de desculpa, poderia alegar que é em prol da diversidade, mas não é necessário. A mesa dos adultos está posta na cozinha perto dos cozinheiros, para quem os salamaleques só atrapalham e roubam a atenção para o que realmente interessa: o sabor e a companhia. Quem fizer as contas às cadeiras descobre que há uma a mais. Não é nenhuma tradição a pensar nos ausentes ou nos que aparecem sem se esperar. É um sinal de que estou a ficar velho e de que o meu sobrinho já tem direito a escolher em que mesa quer comer – se com os adultos onde não pode sujar a mesa, se com as crianças onde tem canetas para pintar a mesa.

Estou nervoso!

É a primeira vez que recebemos a família para o Natal cá em casa. Estou nervoso! Quero que tudo corra bem. Aproveito para estar atento a esta necessidade que sempre tive, de ser validado pela minha família. Não me quero deixar enredar pelos meus velhos padrões conflituosos entre o que eu acho que esperam de mim e o que eu quero fazer. O meu irmão que me conhece bem, ontem dizia-me para não stressar com os talheres, que isso era pouco importante. Curiosamente estou bastante tranquilo com esses pormenores, o que é uma novidade. Sei que a noite correr bem depende mais da minha rendição ao amor do outros, do que à preocupação em que gostem de mim.

A estrela de Natal

Dentro de momentos vou começar a cozinhar com a minha sogra. Tive de comprar uma panela enorme de quatorze litros para a empreitada que nos espera. Vamos fazer o que a Carla sempre comeu em casa na noite de Natal – “Pica no Chão“ também conhecido como “Arroz de Cabidela”. O meu pai acabou de enviar uma fotografia da sopa de bacalhau, que serviremos como entrada, acabada de fazer. Já estou a salivar! Obrigado pai por não teres medo de usar o WhatsApp. Entretanto, a minha irmã veio cá deixar os primeiros doces. A estrela de Natal, o doce mais aguardado do ano, já repousa no seu lugar de destaque. A criança que há em mim fica super excitada ao perceber o que está prestes a acontecer – o que sobrar da estrela de Natal fica cá!

Vamos cozinhar

Pouso agora o tablet onde escrevI esta breve crónica – o computador teve de ser escondido para ganharmos espaço – e parto em busca do meu avental. Desejo que no meio de toda esta loucura, em alguma parte do teu coração, encontres o calor do ritual do Natal.

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.