Há quase 10 anos atrás, a Carla desceu 350 metros de slide, vestida de noiva, para se juntar a mim, ao som de Oh, Pretty Woman. Eu, esperava-a, deslumbrado e nervoso. Parte de mim estava ocupado a tentar controlar os acontecimentos para garantir que tudo naquela festa corria bem. Essa parte foi surpreendida quando esta mulher, saudavelmente louca, me agarrou para dançar. Isto não fazia parte do plano. Aos poucos a minha rigidez controladora começou a derreter e eu deixei-me levar pela aventura. Quando nos sentámos perante a Conservadora, o meu sobrinho mais velho, que tinha 5 anos, veio-se sentar ao nosso lado, enquanto nós dizíamos os famosos “Sim, é de minha livre vontade”. Isto também não estava no plano. Não fez mal. Se alguém o tivesse mandado fazer o-que-era-suposto, eu teria perdido uma das memórias mais doces que tenho do meu casamento. Ao longo desse dia, os gestos de amor foram muitos e essa validação foi-me nutrindo o coração. À noite, a cantar no palco com os Scrap, senti-me vivo, cheio, presente. Tinha encontrado, através da loucura amorosa da Carla, uma ligação à minha vitalidade. Como a amei nessa noite!

Amar alguém é uma sensação maravilhosa. É como se dentro de mim tudo se alinhasse, o tempo parasse, e eu sentisse um profundo contacto com a vida. Senti-o com os meus filhos nos braços, minúsculos, sem defesas, genuínos. Sinto-o muitas vezes quando estou na presença da Carla. Sinto-o nas vivências terapêuticas e nas sessões de clown quando estou perante alguém que se despe de todas as suas máscaras e se permite a mergulhar na vulnerabilidade de tudo o que é.

É muito difícil escrever sobre amor. O tema é tão crucial à minha sobrevivência, que me sinto a fugir para a superficialidade ou a agarrar-me à intelectualidade. Ainda assim, tenho muita vontade de partilhar contigo a minha experiência. Tentarei fazê-lo a partir do coração, esse lugar mágico onde o pensamento, a emoção e ação se encontram.

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Quando me propus a escrever sobre o amor, fui confrontado com a imensidão do tema. No google aparecem 4.200.000.000 resultados para a pesquisa “Love”. É um resultado esmagador para quem quer escrever sobre o tema. Parece que já todos os autores, filósofos, profetas, poetas e músicos falaram sobre o amor. Para não me perder na partilha irei utilizar como guia as palavras da Lisa Hoffman:

“O Amor é como o Pi – natural, irracional, e muito importante.”

Imagino que já te estejas a contorcer no lugar só de imaginar que aí vem mais um texto cheio de citações. O que é que eu hei de fazer? Isto é a Internet. Aqui, as citações de amor são como os legumes nas sopas da minha mãe, abundam.

O amor é natural

Por falar na minha mãe, falar de amor é falar de vínculo e eu nasci literalmente vinculado a ela. Essa experiência, primordial de amor, em que fiz fisicamente parte de outro ser é pré-verbal. Ela reside nas minhas células em forma de sensações. Talvez por isso seja tão difícil acertar nas palavras ao falar de amor.

O vínculo umbilical com a minha mãe terminou de forma abrupta, mas permaneceu uma outra ligação. O olhar dela, o seu toque, o leite materno, funcionaram como objeto transacional para que eu me pudesse ir separando num movimento lento. Aos poucos fui gatinhando para longe dela e fui negociando a sensação de segurança, por uma necessidade de liberdade. Pé ante pé, encontrei a minha independência.

Numa qualquer ficção orwelliana que não a realidade, o ser humano cresceria para se tornar um ser altamente eficiente, sem vínculos ou dependências que o pudessem atrapalhar a atingir o seu desígnio. Não é essa a natureza humana. Trinta e cinco anos depois do meu parto continuo a ansiar por criar vínculos. Esse anseio irá, provavelmente, assombrar-me até à morte – esse último momento em que me voltarei a fundir com a natureza. Separamo-nos para nos voltarmos a juntar. Como a onda que se espraia na areia para depois regressar ao mar.

Parece que vimos naturalmente programados para amar e sermos amados. Talvez por isso se diga que Deus é Amor. Pergunto-me se esta afirmação católica é comutativa. Porque eu sinto que Amor é Deus.

O amor é irracional

Em matemática, um número irracional é um número real que, quando escrito de forma decimal, não termina, nem é repetitivo. Entendo que o amor também partilha dessas propriedades: é real, não termina e não é monótono.

Tim Minchin, um dos meus comediantes preferidos disse num espetáculo:

“Amor sem evidência é assédio”.

Tim falava antes de cantar uma música dedicada à sua mulher. Esta música tem a seguinte frase:

“Se eu não te tivesse a ti, outra pessoa serviria”.

A letra da música que aconselho a todas as pessoas que querem perceber a verdadeira irracionalidade do amor, é uma forma muito inteligente e cómica de explicar o âmago dos vínculos saudáveis: Em vez de eu te amar porque necessito de ti, eu necessito de ti porque te amo.

Amar por necessidade do outro, é um inimigo do amor tão ou mais perigoso que o ódio. No início da minha vida adulta, desesperado por ter uma relação amorosa que me validasse, vivi esta dependência camuflada de amor. A minha carência de afeto íntimo levou-me a uma série de relações que nasceram por querer agradar aos outros, focado nas suas necessidades, com medo da desaprovação. Não era amor, era uma dependência simbiótica, nascida de uma má resolução da minha independência. Quando conheci a Carla e me enrolei (literalmente) com ela, disse-lhe da forma menos romântica e mais assertiva possível:

“Nós não namoramos. Deixa ver o que acontece. Não quero ter nenhum compromisso.”

Ela sorriu, no fundo sabia algo que eu ainda não tinha percebido. Esta frase foi a forma possível de eu colocar um travão à minha dependência. Então surgiu a possibilidade do meu amor pela Carla nascer de quem eu sou, do meu amor próprio, respeitando o meu tempo e as minhas necessidades. Este amor que vivo há mais de dez anos é completamente irracional: é real, não termina e claramente não é monótono.

O amor é muito importante

Em 1949 a OMS pediu a John Bowlby para escrever um relatório sobre a saúde mental das crianças de rua na Europa pós-guerra. O relatório concluiu que as crianças devem experimentar uma relação calorosa, íntima e contínua com a mãe (ou mãe substituta permanente), em que ambos encontrem satisfação e prazer, pois quando isso não acontece podem existir consequências significativas e irreversíveis na sua saúde mental. Estas conclusões, que na altura foram controversas, viriam a tornar-se muito influentes. O seu desenvolvimento daria origem à teoria da vinculação, um modelo psicológico que tenta descrever a dinâmica das relações interpessoais entre humanos.

De acordo com a teoria, uma figura de vinculação funciona como uma base segura a partir da qual a pessoa se pode aventurar no mundo-lá-fora com a confiança de que pode sempre regressar em busca de assistência e conforto, caso surjam obstáculos. Esta teoria que no início se centrava na relação filhos-pais, tem sido verificada, por vários estudos, no contexto das relações amorosas entre adultos.

Durante os primeiros anos da minha relação com a Carla senti-me muitas vezes condicionado pela minha experiência de dependência das relações. Sempre que eu fazia algo em que não colocava a nossa relação em primeiro lugar, ficava retraído por dentro, à espera que me fosse cobrada uma dívida. Estou falar de coisas simples, como ir passar um fim-de-semana com a tuna, ficar a trabalhar até mais tarde, ir a uma despedida de solteiro. A Carla nunca me cobrou nada. Estar com ela depois desses eventos era tão fácil que me era estranho. Aos poucos, como quem experimenta a temperatura da água, fui me habituando a esta liberdade, a esta arte de amar a três: eu, ela e nós. O meu vínculo a esta mulher trouxe-me paradoxalmente liberdade. Nela descobri a base segura de que falava Bowlby e comecei a aventurar-me. De repente a frase de Neruda ganhou sentido:

“Se niente ci salva dalla morte che almeno l’amore ci salvi dalla vita”.

Passados dez anos, a frase “Sim, é de minha livre vontade” faz ainda mais sentido. E sim, o meu sobrinho mais velho já tem 15 anos!

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.