Daqui a duas horas e vinte e um minutos estará morto. Passo o tempo a dizer-lhe que um dia vai acontecer. Ele não me ouve. Já há muito que não me ouve.

Quando era criança, sentado na sanita, a olhar os azulejos preto e branco sem os ver, pensou na sensação de morrer. Mergulhou tão fundo em busca do não existir que quase sufocou. Os braços do pai socorreram-no num abraço antipânico. A tremer, perguntou ao pai se ia morrer como o irmão. O pai disse que não e apertou-o contra o peito. Inquieto, deixou que o aperto lhe imprimisse a mentira na pele. Vestiu-a e esqueceu-se que a tinha vestido.

Pedem-lhe que se dispa todo. Cuecas também. Desvia o olhar do espelho. Antes de regressar ao quarto veste o uniforme do hospital. Joga na equipa dos doentes. A enfermeira pergunta-lhe se tem alguma alergia conhecida. Não tem. Deita-se na cama e sente falta da sua almofada de caroços de cereja. A mãe chega e senta-se a centímetros da cama. Fala-lhe das colegas. Afaga-lhe o braço despido. Ele sente pudor e retrai-se. Tem saudades do toque da sua mulher. Agarra o fio de pensamento que o conduz ao porquê da separação, mas desiste imediatamente. Está cansado. Foi isso que aconteceu, o cansaço. A mãe muda o tema, mantém-se a conversa velha. Cheira-lhe ao armário dos disfarces.

Quando ele era jovem, a mãe disfarçou-se uma vez. Talvez por insistência do pai. Ele viu-a à porta de casa, pronta para a festa. Pensou que era a mulher mais bonita do mundo. Esqueceu-se que já não era criança e deu-lhe um abraço de corpo encostado. Talvez tenha sido o último. Sentiu-lhe o desconforto. Não por causa do abraço. Ainda não. Por causa do ridículo. Ele conhecia-o bem, do balneário do judo. Ambos inseguros. Ele da nudez, ao trocar de roupa. Ela da nudez da nova roupa. Depois de se despedir dos pais e fechar a porta, foi ao armário e escondeu-se lá dentro. Cheirava a naftalina. Adormeceu a sonhar com uma mãe que não conhecia e um pai que não bebia.

Pega no copo vazio e olha para o fundo. Não bebe, nem come, há nove horas e trinta sete minutos. A mãe calou-se. Apetece-lhe confrontá-la, fazer-lhe perguntas difíceis. Sobre o pai. Sobre o novo companheiro dela. Sobre o irmão que não conheceu. Em vez disso liga a televisão. Ficam assim trinta e dois minutos. Consomem as desgraças dos outros em vez das suas. A enfermeira volta e prende-lhe uma banda à volta do braço. Volta a perguntar das alergias enquanto lhe mede a tensão.

Nunca se sentiu tão tenso como no dia em que a sua mulher saiu de casa. Quando abriu a porta, a mulher estava sentada na mesa de jantar à sua espera. Temos de falar. Ele não queria falar. Queria tomar um banho e depois dormir. Estava cansado. A mulher ordenou-lhe que se sentasse. Ele sentou-se. Amuado. A mulher disse-lhe que se ia embora de casa. Queria se divorciar. Não dizes nada? Estava em pânico. Tentou sorrir. O mesmo sorriso que usara durante o dia de casamento. As lágrimas começaram a deslizar pela face da mulher. Levantou-se, foi até ao quarto e pegou numa mala já feita. Odeio-te. O som da moldura com a fotografia do casamento a cair no chão. O som da porta a bater. Silêncio. Ficou sentado na mesa de jantar durante muito tempo. Sentia os vazios que a vida lhe tinha criado a regressarem. Lembrou-se do pai. Levantou-se. Foi à cozinha. Encheu um copo com aguardente velha. Bebeu de um trago. A dor tornou-se suportável e assim se manteve.

Avisam-no da dor ao espetarem o cateter. O soro não silencia a fome. Informam a mãe de que o vão levar. Ela se quiser pode esperar na sala. Ela quer. Quando a cama ganha vida, a mãe diz-lhe Desculpa. É antigo. Profundo. Ele quer responder, mas não sabe como e a mãe já não está a centímetros. Nunca tinha estado deitado dentro de um elevador. Levita. A cama desliza até à porta do bloco operatório quatro. O anestesista pergunta-lhe se tem alguma alergia conhecida. Acha que não. A mãe saberá melhor. Pergunta-lhe se bebe álcool. Mente. É informado que lhe vão dar uma anestesia geral. Volta uma sensação esquecida. Um sufoco sufocado. Abraça-se em busca da mentira que vestiu em criança. Colocam-lhe adesivos no tórax e um dedal no indicador. Sente um ardor no braço. As cores quentes das toucas cirúrgicas misturam-se com as luzes frias presas no teto. A última coisa que vê são os olhos do cirurgião, que se aproxima a coxear. Estão cheios de ânimo.

Um dia, no trabalho, acusaram-no de não ter alma. Porque é que diz isso? O senhor tem a inteligência, mas falta-lhe o ânimo. Falta-lhe o brilho no olhar. Ficou desarmado a olhar aquele homem. Não sabia o que dizer. Era demasiado verdade. Nessa noite, deitou-se na cama vazia. Fixou o olhar na moldura com o diploma que garantia a conclusão da licenciatura. Levantou-se. Tirou a moldura da parede e colocou-a de baixo da cama. Adormeceu e sonhou com o casamento. Desta vez não sorri e está feliz. É uma sensação estranha, mesmo a dormir.

Está profundamente adormecido. O corpo à mercê de outros. As mãos do cirurgião já operaram quinhentas e doze pessoas. Descobre que ele é o um no milhão que nunca esperou encontrar. Desaparece o ânimo dos olhos do cirurgião. Surpresa. Determinação. Angústia. Ele não sente a dor, mas sente a sua chegada. Nunca se tinha apercebido que a morte estava tão próxima. No último momento pensa no irmão. Será que ele chegou a sentir o conforto do aperto nos braços do pai.

Velam os corpos sem vida. Dizem-lhes palavras que já não podem ouvir. Adiaram os atos do coração para depois. Depois não é tarde, é nunca. Entretanto estão demasiado ocupados a ignorar a morte.

Ele coxeia até ao balcão. Pede um café. O diretor do hospital aparece a seu lado. Está tudo a ser tratado. É a vida. Ele diz que não. É a morte. O diretor toca-lhe no ombro. Ele não se retrai. É melhor ele ir descansar. Já não há nada que possa fazer. O café desaparece num trago. Dá um abraço ao homem mais velho. Coração com coração. Sai sem pagar a conta. Quer telefonar à mulher. Precisa de mimo. A mulher não pode atender. Está a voar. Sempre a voar. Acende um cigarro.

O pai recomeçou a fumar no mesmo dia em que a empresa desapareceu. Nunca soube o que aconteceu. As palavras calavam-se. As mágoas suspiravam-se. A raiva continha-se. Saiu do colégio privado, entrou na escola pública. Era menino querido, passou a vítima. Todos os dias estrangulavam-no. Betinho. Passa para cá uns trocos. Chorão. Em casa alinhava no silêncio do pai. Fechava-se no quarto e fantasiava. O pai ia até à escola. O pai ia tratar deles. Ele ia voltar para o colégio. Nada mudava. Um dia cedeu ao desespero. Gritou com o pai. Não teve resposta. Depressão, explicou a mãe. De punhos cerrados, foi gritar para o quarto. No dia seguinte não chorou. Deu uma dentada na mão de um e uma cabeçada noutro. Acabou no hospital. Sobrolho aberto. Tíbia fraturada. Lesão permanente do nervo fibular comum. O pai apareceu a seu lado. Beijou-lhe a testa. Estou aqui. Não volto a sair do teu lado.Apesar das dores sorriu. Sentia-se finalmente calmo.

A nicotina acalma-o. Atira a beata para o chão. Desce dois degraus. Volta atrás. Apanha a beata e guarda-a no punho fechado. Desce as escadas. Valida o passe. Desce mais escadas, lentamente. Coxeia até meio da plataforma. Entra na carruagem do meio. Senta–se. À sua frente está uma estrangeira. Veste uns calções curtos e um top de alças. A estrangeira debruça-se para lhe fazer uma pergunta. Ele consegue ver as curvas convidativas. Finge que não percebe inglês e refugia-se na escuridão para lá do vidro. Um comboio passa no sentido contrário. O túnel ganha vida por uns instantes. Depois volta a escuridão e uma linha verde que segue encostada à parede. A sua paragem é anunciada. Ele prefere ficar ali hipnotizado. Enche-se de coragem e volta a olhar em frente. A estrangeira desapareceu. No seu lugar senta-se uma grávida.

O seu primeiro filho nasceu às nove e trinta seis minutos da noite. Dezassete horas de trabalho de parto. O choro ecoou por toda a maternidade. Os seus braços deram-lhe o primeiro embalo. Pesava uma vida. Sentiu que algo profundo mudava. Placas tectónicas que se deslocavam para criar novas possibilidades. Pousou o filho nos braços da mulher. A enfermeira aproximou os lábios do bebé ao mamilo. O filho começou a sugar com a segurança de um sábio. A mulher sorria. Ele aproximou-se. A mulher encostou a sua cabeça. Sussurrou. Amo-te. Era muito raro ela dizer aquelas palavras. Ele sorriu. Estava tudo certo. Era pai.

Os filhos não estão em casa. A empregada também não. Olha o telemóvel. Nenhuma mensagem. Vai à cozinha e deita a beata no lixo. Serve-se de água. Aguarda. Devem estar a chegar. Liga a televisão. Investigadores criminais discutem frases empoladas sobre um assassino. Desliga a televisão. Não precisa de morte. Precisa de vida. Quer ser inundado pela energia ignorante dos filhos. Deixar-se esquecer nas suas observações inconsequentes. Abre a janela. Está no oitavo andar. Lá em baixo os carros circulam ininterruptamente.

A sua primeira emergência foi um desastre automóvel. Começou a ouvir a ambulância um minuto antes dela chegar. As portas abriram-se. Era uma mulher. Talvez sessenta anos. Ele correu ao lado da maca enquanto verificou o pulso e a respiração da paciente. Estava viva. Respirava mal. Abriu-lhe a boca. Procurou a obstrução. Não conseguiu. Deviam entubá-la, mas não em andamento. Chegaram ao bloco operatório. O cirurgião geral aguardava. Nervoso. Ríspido. Entubaram a paciente. Ligaram-na à máquina. Bip. Inseriram-lhe um cateter no torax. Bip. Descompressão. Bip. Iniciaram uma infusão. Bip. Oito mãos trabalhavam para manter uma vida. As dele eram as menos experientes, as mais suaves. Bip. O cirurgião geral zangou-se. Projetava perdigotos que não passavam da mascára verde. Esta mulher não morre no meu turno. Bip. Ninguém discutiu. Executaram. Sem sucesso. Aos poucos a mulher esvaziava-se de vida. Bip ininterrupto. Primeiro, massagem cardíaca. Depois os choques com o desfibrilador. Mais massagem e depois mais choques. O coração não aguentou e calou-se de vez. Só ficou o bip. O cirurgião geral atirou com o tabuleiro ao chão. Merda. Saiu do bloco. Ele era o interno. Foi ele que preencheu a papelada. Foi ele que comunicou à família. Foi ele que nessa noite, quando chegou a casa, se abraçou à mulher e chorou.

O telemóvel toca. É a mulher. O voo atrasou-se. O aeroporto estava um caos. Ele nem imagina a puta da aterragem. As crianças já estão com a mãe dele. A empregada levou-os de autocarro. A mãe dele concordou. Fica com as crianças até amanhã. Leva-as à escola. Esteve três horas parada em Paris. Deu tempo para ir às compras. Traz uma surpresa para logo à noite. Só se ele se portar bem. Silêncio. Estás bem? Ele demora a responder. Esta noite tem de ir a um velório. Morreu um paciente durante uma cirurgia. Pede-lhe que vá com ele.

A mulher estava sentada ao seu lado. O pai tossiu várias vezes antes de falar. A voz faltava-lhe. Tinha-lhe sido diagnosticado um cancro de pulmão. Tinha mestastases espalhadas pelo corpo. Talvez um ano de vida. Talvez menos. Ele apercebeu-se que estava a esmagar a mão da mulher. Levou as mãos à cara. Puxou os cabelos para trás com as duas mãos. Suspirou. Perguntou ao pai se havia cura. Não havia. Ele não se ia submeter à quimioterapia. Não ia lutar contra a morte. Tosse. Muita tosse. Ia aproveitar o último ano. Sem químicos. Com cuidados paliativos. E cabelo. Muito cabelo. Como era próprio daquela família. A mãe dele fugiu a chorar. A mulher levantou-se e abraçou o sogro. Estamos aqui. Estaremos sempre aqui. Ele sentiu a raiva a crescer. Batia com o pé coxo descontroladamente. Levantou-se. Acusou o pai. És um egoísta. Sempre foste. Tu prometeste. Tu prometeste. Saiu da sala. Abriu a porta da rua e desceu os cinco andares de escadas, a coxear. Tinha de agir. Não podia ficar parado à espera do elevador. Não podia simplesmente ficar à espera.

Ele e a mulher juntam-se às pessoas que estão do lado de fora da capela à espera para entrar. Um padre espera-os. Ele reconhece a mãe do paciente que morreu. Está à frente, ao lado do caixão aberto, vestida de preto. Os seus olhares cruzam-se. Ele arrepia-se e encosta-se à mulher. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ele deixa-se estar quieto. Conhece os rituais, mas não gosta deles. Jesus virá novamente para julgar os vivos e os mortos. Pensa, inquieto, no que dirá à mãe do homem que lhe morreu nas mãos. A missa termina e as pessoas formam uma longa fila. Os meus pêsames. As minha condolências. Os meus sentimentos. Ele não vai para a fila. Sai para a rua. Respira fundo. Acende um cigarro. Sente-se aterrado. Conversa com a mulher. Vão embora ou esperam pela mãe do paciente. As pessoas vão enchendo a rua. Cabisbaixas. Aos poucos vão se juntando em pequenos grupos. Muitos já não se viam há muito tempo. Falam sobre tudo, menos a morte que os reuniu. Entusiasmam-se. Falam alto. Riem. Quando a mãe do morto sai da capela, um sopro de vergonha silencia-os. A mãe do morto dirige-se decidida para ele. Ele apaga desajeitadamente o cigarro. Prepara-se para o embate. Não sei porque é que o senhor veio ao velório do meu filho. Ele tem a resposta pronta. Ela interrompe-o. Não importa. Por favor vá-se embora. Não é bem-vindo aqui. Ele está mudo. Perdido. Vira as costas. Regressa ao carro. A mulher pára-o. Agarra-o pelos ombros e fixa-lhe o olhar. Diz-lhe que o ama. Que a sua coragem a inspira. Que aquela mulher está errada. Tu importas-te.

A ideia era absurda, mas isso não importava. O pai tinha-a lido num livro. Tinha declarado que era o seu último desejo. Não houve forma de o demover. Saíram do carro. As crianças a correr. Gritavam pelos avós. Elas não percebiam. Para elas era uma festa. Ele saiu devagar. Deu a mão à mulher. Entrou. A mãe deu-lhe um abraço. Tinha os olhos vermelhos. Obrigada por teres vindo. A sala já estava cheia. Colegas de trabalho. Amigos de longa data. Os primos do Sul. A irmã do pai. Todos em silêncio. Parece que isto vai mesmo acontecer? A mulher chamou as crianças. Deu-lhes instruções. Espalharam corações vermelhos de papel de seda por toda a sala. Ele saiu para o jardim. Um padre que fumava, estendeu-lhe o maço. És o filho não és? Silêncio. Ele não se mexeu. O padre voltou a falar. Ele interrompeu-o. O meu pai ainda não morreu. Voltou a entrar na casa. Sentou-se numa cadeira a um canto. O pai apareceu de cadeira de rodas. Observou cada cara. Olhou os corações vermelhos. Sorriu. Tossiu. Um dos primos começou a tocar uma das músicas preferidas do pai. As crianças correram. Abraçaram o avô. Trocou um olhar de reconhecimento com o filho. O padre falou. Não disse as palavras habituais dos funerais. O pai escutou de olhos fechados. Depois falou um dos colegas de trabalho. Riram-se. Falaram várias pessoas. Chegou a sua vez. Levantou-se. Abriu a folha escrita. Começou a ler. Parou. Amarrotou a folha. Olhou o pai.Desculpa não te ter conseguido salvar. O pai fez sinal para o aproximarem. Levantou-se. Abraçou o filho. Sussurou-lhe ao ouvido. Tu já me salvaste há muito tempo atrás. Quando ainda eras uma criança.

About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.