Nunca percebi porque é que há homens que não trocam fraldas e há mulheres que não os deixam fazê-lo. Hoje, que é dia do Pai, celebro a atual liberdade masculina que me permitiu mudar fraldas, dar banho, secar rabos, fazer de vaca e de gato, cantar músicas de embalar, dançar a Dança das Gatinhas, pentear cabelos e dar beijos repenicados de boa-noite.

Trocaria todos os dias essa ideia do pai austero e distante, ou a do pai másculo que não chora, por esta possibilidade de ser um pai próximo e afetuoso. E não, não me sinto menos viril por isso.

O movimento feminista

É curioso que tenha sido o movimento feminista a trazer esta possibilidade aos homens. Foi preciso que as mulheres começassem a trabalhar nas fábricas para que os homens começassem a trabalhar em casa e se pudessem infiltrar nesse monopólio feminino dos cuidados infantis. Tal como um pêndulo, esse movimento continua à procura do seu equilíbrio. Eu tive a sorte de ter encontrado uma mulher que me deu o espaço para também eu cuidar dos nossos filhos. Gosto de pensar que eu não ajudo lá em casa, eu participo. Somos ambos cuidadores, não há ajudantes. Essas tarefas básicas de trocar fraldas, cortar unhas, dar banhos, dar de comer, limpar ramelas, aspirar ranho, ajudaram-me a criar intimidade com os meus filhos.

Cocó

O que é que mudar uma fralda tem a ver com intimidade? Mudar uma fralda é um ato de cuidado para com um ser indefeso que precisa que deixemos cair todos os nossos julgamentos sobre cocó. É um micro-ato-Madre-Teresa-de-Calcutá. É quando deixamos cair esses preconceitos sobre tocar em cocó que percebemos que mudar uma fralda é um momento singular de partilha. É aceitar aquela pessoa na sua totalidade, sem querer esconder as partes feias. É um pequeno gesto de validação dos meus filhos. É dizer-lhes:

Estou aqui para ti durante toda a tua vida, para os momentos maravilhosos e para os momentos de merda.

Essa intimidade teve o dom de me confrontar com a minha vulnerabilidade. É que na verdadeira intimidade não há máscaras. Se eu quero estar realmente em contacto com os meus filhos não me serve de nada colocar aquele ar de que sei do que estou a falar, ou usar as expressões de quem é calmo e está tranquilo com a vida. A intimidade é feita de emoções.

Claro que dá medo quando as lágrimas querem rolar, ou quando a raiva quer explodir. Parece que sou demais e que algo de mal pode acontecer. Até ter filhos eu não chorava, nem me zangava. Era tudo muito controlado. E depois eles apareceram e destrambelharam por completo o meu sofisticado sistema de proteção e defesa. As brechas começaram a surgir, as lágrimas a fugir e a raiva eclodir. Eu escondia isso do mundo dos adultos, mas na intimidade comecei a ter de lidar com essas emoções. Era isso ou fugir. E eu estava farto de fugir.

Fugir teria sido esconder-me atrás da ideia do pai altivo, que não se envolve nos cuidados das crianças. Fugir teria sido deixar de mudar fraldas, porque tinha sempre um telefonema importante para atender. Fugir teria sido “ser um homem”, porque um homem não faz certas coisas de mulher. Fugir teria sido fugir de mim mesmo. Não fugi, rumei em direção às ondas por maiores que elas fossem.

Pais unidos jamais serão vencidos

Estar no meio da tempestade acompanhado, é muito bom. Pedir ajuda é essencial. Estou há horas a tentar acalmar a nossa filha. A sensação de pai babado que olha enfeitiçado para filha linda, já passou há muito. Estou a dar em doido e já tenho pensamentos de a atirar a ela ou a mim pela janela. Então aparece a Carla, pega na bebé, levanta uma mão e damos um high-five ao mesmo tempo que dizemos em uníssono “Pais unidos jamais serão vencidos”. E no momento em que me deito, sinto as lágrimas correrem pelo rosto, é um misto de ansiedade e alegria. Para lá do cansaço e da frustração, há mais qualquer coisa. É algo que me diz que os meus filhos me estão a transformar e que isso só pode ser bom.

Olhando agora para trás, sei que os meus filhos tiveram a capacidade de me levar ao limite. E experimentar os meus limites levou-me a procurar psicoterapia. O que me levou a um processo de descoberta das minhas emoções, das minhas feridas e dos meus recursos. Hoje já não me sinto numa tempestade e quando as ondas vêm, por vezes, sou capaz de mergulhar nelas. Hoje sinto-me no caminho que quero percorrer e sinto-me o pai que quero ser.

Hoje celebro todos os pais que têm a coragem de mostrar o seu afeto, que não têm medo de se emocionar e que nunca se coibiram de se sujar para cuidar dos filhos. Hoje celebro o meu pai.

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.