Assim que saio de casa, espreito por entre as folhas. Está ali! A avó Estrela brilha, como sempre, na ponta da cauda da ursa bebé. Hmmm. Dá-me coragem, a minha avó Estrela. Quando há nuvens no céu, eu não saio de casa. Fico escondido na minha árvore. Mas hoje não é uma dessas noites. Hoje é noite de me aventurar.
Desço pelo tronco do nosso castanheiro até estar a uma cauda da próxima toca. As cigarras batem os seus tambores em coro como uma onda que ora sobe, ora desce. Aguardo… aguardo… Zzzzz. Confirma-se, o primo Inácio está a dormir que nem uma pedra. Continuo a descer e salto para o chão. Sou tão leve que as folhas nem gemem.
Há uma brisa a correr. Terra molhada, um toque ácido — é ténue, mas não há dúvidas — cheira a chão a nascer. Aprendi com a avó Estrela a guardar os cogumelos presos de cabeça para baixo. Assim secam e ficam estaladiços — bolachas de cogumelos.
Tenho saudades da minha avó. A missão de hoje não são os cogumelos, mas eu não resisto a fazer um desvio.
Corro até um ramo caído, escondo-me e volto a cheirar. Por aqui. Dou um pulo e corro a céu aberto. Zigue. Zague. Zigue-zague. Encosto-me a uma pedra. Por ali. Zigue. Zague. Zigue-zague.
Vejo os cogumelos junto do tronco do carvalho-forreta. Ó avó, afinal a árvore não dá bolotas, mas dá cogumelos dos bons.
Zigue. Zague. Zigue-zague. Espalmo-me contra a casca da árvore. Se o impaciente do Inácio estivesse aqui, já estava a comer os cogumelos. Mas o carvalho-forreta tem poucas folhas e por isso todo o cuidado é pouco.
Pata ante-pata. Pata ante-pata. aproximo-me de um boleto. É gordo como o Inácio.
De repente, as sombras mudam e eu sem pensar atiro-me para o chão. Duas garras mortais desfazem o meu lindo boleto. É por um bigode que a coruja falha o seu alvo: eu!
Começo a correr em direção à avó Estrela. Casa… casa… preciso de chegar a casa… as sombras voltam a mudar e eu travo a fundo, Zigue. Zague. Zigue-Zague. Rebolo pelo chão até que caio aos trambolhões para dentro de um buraco.
Estou cheio de terra na cara, mas não me atrevo a mexer-me. O meu coração salta tanto que quase me sai pela boca. Aguardo… Aguardo… Imóvel que nem uma pedra.
Acho que estou seguro. Sacudo a terra dos meus bigodes. Detesto ter os bigodes sujooo… o que é isto: denso, doce, resinoso.
Semicerro os olhos. Não conheço este buraco. Isto parece trabalho de javali. Procuro, procuro, ali está ela — uma pinha. Uma Pinha!
“As pinhas são a maior riqueza desta floresta, Gaspar” disse-me um dia a avó Estrela.
Agarro na pinha e giro-a por entre as minhas patas. Cheiro, volto a girar, cheiro. Está carregada de pinhões, cada um deles um pequeno tesouro.
E agora como é que tiro a pinha deste buraco escuro?
Escalo a parede e espreito à procura da minha inimiga. Em vez da coruja vejo uma bola de pelo que aterra mesmo em cima da minha cara. Desequilibro-me e lá vou eu parar ao fundo do buraco. Outra vez!
— Primo! — diz o Inácio.
— Primo! — digo eu.
Falamos na língua dos esquilos: estalidos, dentes a chiar, guinchinhos, muitos movimentos de cauda.
O Inácio acordou com um pesadelo. Foi apanhar ar. Viu a coruja a mergulhar. Eu a cair no buraco. Achou injusto eu estar a divertir-me sozinho… Injusto? Dou-lhe uma patada para ele não dizer disparates. Agora estamos aqui os dois presos!
O nariz do Inácio contrai-se, ele fareja o ar:
— Pinhónes! – diz o Inácio.
— Não são para ti – digo eu.
— Quem diz?
— A avó Estrela.
— Egoísta!
— Escuta Inácio.
Esta pinha não é para mim.
Esta pinha não é para ti.
Ajuda, mas é o primo.
A tirar esta pinha daqui.
Ouve Inácio,
ouve o meu plano.
Já ando a pensar nele
há mais de um a…
Muuuuuuuuuuuu!
Sou interrompido pelo Inácio que decidiu encostar a boca à terra e está a mugir que nem uma vaca. Pronto ficou maluquinho. Estou farto de lhe dizer para não comer os cogumelos com pintas vermelhas.
É então que uma nova sombra que se projeta sobre o buraco e ouço uma voz grave:
— Inácio? O que é que estás a fazer no fundo desse buraco?
É o focinho de um texugo, a espreitar.
— Titão! Precisamos de ajuda — diz o Inácio.
— Titão?
— Io e o Titão somos os saqueadores das colmeias perdidas. Não é Titão?
— Há mel aí embaixo? – pergunta o Titão.
— Ouve, Titão. Precisamos de cobertura. A Garras Noturnas está a tentar comer o Gaspar e ele tem que levar uma pinha para casa.
— Não gosto de pinhas.
— Mas gostas dos pinheiros onde as abelhas fazem o mel – explica o Inácio. – Não é Titão? Sem pinhas não há pinheiros. Sem pinheiros, não há mel.
— É capaz de ser verdade.
Estou boquiaberto a olhar para o meu primo. Ele pisca-me o olho e eu sigo-o. Escondemo-nos debaixo do texugo e avançamos lentamente pela floresta, protegidos por um tanque. A coruja nem se atreve a aproximar. Eu levo a pinha com cuidado. O texugo deixa-nos junto ao nosso castanheiro.
— Amanhã vamos ao mel?
— Combinadíssimo!
Subimos rapidamente pelo tronco e o Inácio entra primeiro na sua toca.
— Bona notte, primo — diz ele.
— E-eh… Obrigado Inácio.
— Não foi só a ti que a avó Estrela deu uma missão. Dorme benne… Zzzzz.
Continuo até à minha toca e pouso a pinha. A minha primeira pinha! Não sei como é que o Inácio, depois desta aventura, adormeceu tão rapidamente. Eu continuo excitado, sem conseguir parar quieto. Há tanto trabalho por fazer.
Falo com a pinha sobre o futuro. Falo-lhe dos pinhões a virarem rebentos, dos rebentos a virarem árvores, das árvores a virarem abrigo de tantos animais. Falo-lhe dos cogumelos que nascem na sombra das suas folhas, das novas pinhas que nascem nos seus ramos. Conto-lhe tudo o que a avó Estrela me contou. É então que o primeiro raio de Sol entra pela toca adentro e ilumina a pinha. É a coisa mais bonita que já vi na vida.
Nós vamos conseguir, avó. Esta é a primeira de muitas pinhas!
Escrevi este conto infantil a convite da Leonor Felgar para a Gala dos 35 anos da Candeia. Foi interpretado, no palco, por mim (texto) e pelo Leonardo Varella-cid (música) no dia 21 de fevereiro de 2026
