O Telmo é um dos meus camaradas do Colégio Militar. Nós não temos muito em comum. Não partilhamos dos mesmos interesses. Não passamos férias nos mesmos sítios. Não saímos juntos à noite. Nunca tivemos uma conversa íntima sobre a vida do outro. Ele tem acesso a canais de televisão em casa e eu não. Então porque é que sempre que nos encontramos, nos cumprimentamos com um abraço de cumplicidade, como se fossemos irmãos?

Anualmente, durante os festejos de aniversário do Colégio Militar, reencontro-me com o bando com quem partilhei a minha adolescência dia após noite, durante oito anos. Este ano no meio de toda aquela alegria, dos abraços, das histórias de sempre e dos risos destravados, apercebi-me que eu não escolhi este grupo de pessoas para a minha vida. Este grupo é família e a família não se escolhe. Esta distinção levou-me a refletir sobre a qualidade da relação que tenho com o Telmo e com o resto das pessoas que me acompanharam ao longo do colégio. Apesar de já ter escrito várias vezes dentro da categoria Umbigo sobre relações, esta merece uma atenção especial, por tão reveladora que é.

Camaradagem

O termo camarada suscita-me sempre imagens que ecoam à revolução dos cravos. Tem conotações político-militares. Talvez por isso me tenha sido sempre difícil tratar as pessoas do meu curso do colégio por camaradas. É que o que me une a eles não é político, nem militar. No entanto, não encontro nenhum termo mais adequado. Colega nem sequer começa a descrever o que nos une. Amigo nem sempre é verdade. Companheiro foi verdade durante aqueles oitos anos, mas já não é. Camarada está certo. A palavra significa literalmente: pessoa que partilha a mesma câmara.

Não sei se alguma vez partilhaste o teu quarto com alguém que não conhecias. Uma vez fi-lo numa pequena pensão, no sopé do vulcão Villarrica no Chile. Fiquei num quarto duplo, o qual tive de partilhar, numa noite com um espanhol e noutra com um suíço. Dormi mal e agarrado às coisas mais valiosas que tinha: a carteira, o meu diário e o leitor mp3.

Dormir é um ato de confiança. Quando fechamos os olhos e nos entregamos ao sono, estamos também a entregar-nos à possibilidade de não voltarmos a acordar. Por isso só aceitamos dormir ao lado de quem confiamos. Para muitas pessoas, esse grupo restringe-se à família e ao conjûge. Eu dormi numa camarata ao lado de um bando de gajos durante anos, noite após noite. Sem os ter escolhido, foi com eles que partilhei a câmara que serviu de casulo para a atribulada transformação da adolescência. Nessa câmara não eram só os armários que não tinham cadeados, eram também os nossos sonhos, com todas as suas ilusões e desventuras.

O sentimento de confiança era reforçado por uma relação igualitária. Todos usávamos roupa da mesma marca. Todos comíamos o mesmo caldo verde ao jantar. Todos tínhamos dois cobertores com que nos aquecermos à noite. Foi uma surpresa quando compreendi que afinal não pertencíamos todos à mesma classe social. Esta convivência igualitária poderia chegar para explicar a camaradagem que existe entre mim e o Telmo, mas não chega. Para que o nosso abraço se revista de cumplicidade foi preciso que ele tivesse visto a minha sombra.

Na sombra

Muitas das minhas relações são baseadas em máscaras que utilizo conforme as necessidades que tenho: a pessoa que compreende e aceita tudo; o otimista que acredita na humanidade; o extrovertido que não deixa ninguém de fora. Estas máscaras são funcionais, mas cansativas. Então, quando chego a casa, dispo a máscara e exponho aquilo que não quero que ninguém veja. A minha falta de paciência, o meu cansaço, a minha tristeza, a minha inveja, a minha sensação de fraude, o meu medo. Tudo aquilo que é a minha sombra e que eu não mostro ao outro, não vá ele rejeitar-me. É a minha família que tem de aturar a minha sombra.

Quando vivemos num internato utilizamos máscaras para as relações com os adultos, mas os nossos pares têm acesso a quase tudo o resto. São como os irmãos que conhecem todos os nossos podres. Foram os meus camaradas que viram o Rodrigo-cheio-de-paciência descontrolar-se e atirar uma bola de basket à cabeça de um deles. Foi com eles que o Rodrigo-bem-comportado entrou à socapa, durante a noite, no gabinete do Diretor. Foi com eles que o Rodrigo-que-não-chora chorou baba e ranho por ter terminado o secundário. Foi com eles que o Rodrigo-leal-acima-de-tudo beijou a apaixonada de um dos seus melhores amigos. Não há ninguém que não tenha a sua sombra, mas ironicamente todos temos medo de a mostrar. Então não nos relacionamos de forma completa. Perante o outro somos só metade, a parte ideal. As relações genuínas precisam da sombra. Sem unidade não há intimidade. Sem intimidade não há cumplicidade. E sem cumplicidade nunca teriam existido os três mosqueteiros.

Vinte anos depois

A divisa do Colégio Militar é o lema dos mosqueteiros de Alexandre Dumas – Um por todos e todos por um. Eu, que sou um romântico por natureza queria acreditar de coração nesta mensagem. Hoje, quase vinte anos depois, e porque continuo um romântico, quero acreditar na mensagem de “Vinte Anos Depois”, o volume seguinte da trilogia “D’Artagnan Romances”.

Na sequela de ”Os Três Mosqueteiros”, D’Artagnan perdeu completamente o contacto com os seus três amigos. Numa tentativa de os voltar a reunir, ele e Porthos descobrem-se na fação oposta de Athos e Aramis. Ao longo da história a amizade dos quatro mosqueteiros é posta à prova pela divergência dos seus interesses e lealdades políticas. No final, os laços que os unem provam ser mais fortes que qualquer diferença

Estou convencido que esta experiência de mosqueteiro foi a maior dádiva que o Colégio Militar me deu. Ela permitiu-me compreender, profundamente, que as vivências intensas criam a possibilidade de relações genuínas entre pessoas, mesmo que elas acabem do outro lado da trincheira. Talvez por isso tenha ido em busca de grupos como a Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico, os animadores da Candeia ou a Alma13 da Biossíntese.

Ao longo da vida fui tendo a sorte de estabelecer relações genuínas com pessoas muito diferentes. A maior parte delas já não está presente na minha vida, mas o vínculo mantém-se, pois sei que quando as encontrar também lhes darei um abraço destes que dou ao Telmo – um abraço mosqueteiro.

 

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About Rodrigo Dias

Quando tinha quinze anos, o meu pai descrevia-me aos seus amigos como sendo o filho que quando chegava a casa, ninguém dava por mim.

Um dia, durante um campo de férias, decidi que queria ser mais extrovertido. Então comecei a fazer as coisas que os extrovertidos faziam: falar à frente de muitas pessoas, abordar miúdas que me intimidavam e tentar entrar em discotecas metendo conversa com os porteiros. Maior parte do que tentei não correu assim tão bem, mas eu não desisti.

Aos poucos fui aprendendo que expôr o que penso e o que sinto a partir de um espaço genuíno que me ajuda a perceber quem sou e o que quero.

Hoje, tenho trinta e cinco anos, sou casado e pai de duas criaturas maravilhosas. Sou o responsável pelo bem-estar e produtividade de uma equipa com mais de setenta e cinco pessoas. Sou estudante de psicoterapia somática em Biossíntese no CPSB. E como alguém há pouco tempo comentou, sou um introvertido corajoso.