Entre escritas e reescritas

Entre escritas e reescritas do romance que está a ser moído neste cérebro-coração-barriga-e-dedos, surgiram vários textos pseudo-poéticos. São pensamentos prosaicos sobre os tempos modernos que andamos a viver. Para todos os que gostam de me ler, aqui têm cinco textos diferentes do habitual. São como flores do nosso cato do luar – floresceram quando menosContinue a ler “Entre escritas e reescritas”

Anseio pelo dia em que nos voltaremos a abraçar

Há muito tempo que não acordava sem vontade de sair da cama. Da cozinha chegava o som dos pratos a serem colocados na mesa. Alguém estava a tomar duche. Parte de mim queria amuar, dizia, ok, já chega, está bom, não quero mais… As rodas dentadas da nova rotina familiar estavam em marcha e aContinue a ler “Anseio pelo dia em que nos voltaremos a abraçar”

Olha, eu a lançar um livro

Sentei-me sozinho no palco, microfone do lado esquerdo, três exemplares e uma cábula do lado direito. Estava nervoso. Senti necessidade de explicar porque é que estava sozinho. Queria ter uma conversa com quem tinha vindo, olhá-los de frente, não queria que assistissem a um diálogo. Dei as boas-vindas e apercebi-me de como ainda estávamos distantes,Continue a ler “Olha, eu a lançar um livro”

Sem chuva, não há arco-íris

Estou em Santa Cruz – essa praia no oeste agreste português onde o inverno passa o verão. Eu e o meu filho vamos a caminhar no meio da estrada, o que só é possível fazer nas terras onde os peões ainda são a classe dominante, quando ele afirma “Papá, eu nunca te vi chorar”. FiqueiContinue a ler “Sem chuva, não há arco-íris”

Rejeitar para não ser rejeitado

Estou sentado à mesa e sou o único que não vai comer. Estamos num daqueles restaurantes tipicamente lisboetas que se mantêm resilientes face à onda trendy/gourmet/veggie/michelin-wannabe que invadiu a cidade. São as toalhas de papel, as facas sem serrilha, os cadáveres dos peixes expostos à janela, o menu onde o bitoque é rei e osContinue a ler “Rejeitar para não ser rejeitado”

És extrovertido ou introvertido?

Assim que desligo as luzes do carro alugado volto a surpreender-me com o negrume da noite. Estou há mais de quarenta e oito horas na ilha, mas ainda não consegui sossegar o coração. Está tudo bem – tento acalmar-me tal como, em tempos, tentava sossegar a minha filha perante a escuridão do seu quarto aoContinue a ler “És extrovertido ou introvertido?”

Qual é o sentido da vida?

Assim que a minha filha fica entregue na escola, o meu coração acelera ligeiramente. A alteração é tão subtil que os outros pais e crianças que me rodeiam não têm forma de perceber a ligeira excitação que se apodera do meu corpo. Tal como um cão de Pavlov, o corpo antecipa o momento que seContinue a ler “Qual é o sentido da vida?”

Um ano sem açúcar

Há um ano atrás, a meio do jantar da passagem de ano, dei por mim a declarar uma ideia ousada que andava a congeminar dentro de mim há algum tempo. Iria passar um ano sem comer açúcar adicionado. Entenda-se, não iria comer nada no qual tivesse sido adicionado açúcar, fosse de cana, de coco, fossemContinue a ler “Um ano sem açúcar”

Parar de me sentir em falta

Há mais de um mês que não publico nada no blog e tenho dado por mim a pensar: será que alguém sente falta? Logo em seguida surge uma caótica miríade de pensamentos: o que é que interessa às pessoas se eu escrevo ou não? estou a escrever isto porque quero que tenham pena de mim,Continue a ler “Parar de me sentir em falta”

Queixar-me ou não me queixar

Metade da turma está, mas não está. Portáteis abertos, conversas para o lado e olhares vazios. É como se eu não estivesse realmente presente, como se fosse um holograma emissor de informação com o qual não se têm de relacionar. Estarão ali apenas para não ter falta? Ganho coragem e explico-lhes um dos meus princípiosContinue a ler “Queixar-me ou não me queixar”