O chão que me suporta

Os meus pés

A Sofia tinha quinze meses quando pela primeira vez se levantou, deu um passo, depois outro e ainda um terceiro, sem a ajuda de ninguém. Quando voltou a cair com o rabo almofadado no chão, já o mistério estava desvendado. Voltou a levantar-se, a andar e depois a correr. Quando o irmão e os primos, todos mais velhos que ela, se foram deitar, a Sofia tentava fazer curvas. Estava desperta, excitada com aquele chão debaixo dos seus pés que a impulsionava para o mundo. A insegurança de cair que a acompanhara durante aqueles últimos meses tinha sido superada pela excitação descoberta no andar. Nessa noite dormiu mal. Talvez tivesse vontade de não voltar a tirar os pés do chão. Talvez tivesse medo de se esquecer que já sabia andar. Quem sabe?

Estar de pé. Caminhar. Correr. Saltar. Dançar. Todos estes movimentos são possibilidades que, felizmente, ainda tenho na minha vida. São tão básicos, tão antigos que não me lembro da excitação que também eu terei sentido quando, pela primeira vez, venci a gravidade e me ergui pé ante pé. Talvez tu também não te lembres. Nos últimos anos tenho explorado esta experiência de estar em pé com o olhar curioso da criança que ainda me habita. Essa curiosidade levou-me a redescobrir os vários chãos que sustentaram e sustentam a minha vida. Tem sido uma viagem incrível, que sinto que ainda está a começar. Quero muito partilhar contigo sobre os lugares que tenho conhecido e os sábios com quem tenho conversado. Se tudo correr bem teremos tempo para esta longa conversa. Mas hoje … hoje quero começar pelo princípio.

O princípio

Lembras-te dos bonecos sempre em pé? Para eles era tão fácil balouçarem-se e manterem-se de pé. Estavam desenhados para que o seu centro de gravidade estivesse mesmo em cima da sua base. Nós não temos tanta sorte. Quando estamos de pé, o nosso centro de gravidade está mais ou menos a um palmo abaixo do umbigo, distante da nossa base, que é super estreita – os nossos pés. Manter o equilíbrio do corpo enquanto nos movemos implica jogar um jogo praticamente inconsciente de contrações e relaxamento de vários elementos ao mesmo tempo. Só no pé temos mais de cem músculos, tendões e ligamentos.

Uma das formas de compreendermos o nível de complexidade do nosso movimento, é tentarmos reproduzi-lo construindo um robot. Foi exatamente esse o desafio que a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa dos EUA lançou às organizações de investigação robótica mais avançadas do mundo. A competição aconteceu no início de junho deste ano (2015). Vale a pena ver as máquinas mais avançadas do mundo a esforçarem-se brutalmente para fazer aquilo que a Sofia fazia facilmente com dois anos.

Se andar envolve um complicado e maioritariamente desconhecido mecanismo neuromuscular, imagina dançar.

O nosso movimento é um paradoxo. É ao mesmo tempo complexo e simples. Tão complexo que as pessoas mais inteligentes do século XXI não o compreendem completamente. E tão simples que uma criança homo erectus há 2 milhões de anos já o fazia naturalmente. Este hiato entre o nosso conhecimento e a sabedoria do nosso corpo fascina-me. A ti não?

Esta relação que temos com o chão é tão natural e antiga que tem uma íntima relação com a nossa sensação de segurança. Isto é muito concreto e presente, mas para mim era como o oceano para um peixe. Só quando me tiraram de dentro de água e eu me senti sufocar é que percebi que existia água.

O que uma hérnia faz a uma pessoa

Durante algum tempo, sempre que eu fazia longas viagens de carro, surgia-me uma dor ao longo da perna direita. Eu não ligava muito à dor. Até porque acabava sempre por passar depois de sair do carro. Até que a mesma dor começou a aparecer sempre que corria. Decidi descobrir o que se passava e foi-me diagnosticada uma pequena hérnia discal entre as vértebras L5 e S1, na zona lombar. Nessa altura eu descobri que a dor que eu sentia a conduzir era dor no nervo ciático. Eu tinha trinta anos e já tinha a famosa ciática!

Ainda hoje não percebo a origem da hérnia. Falam-me de má postura e esforços mal adequados. Só que essa resposta soa mais a uma cortina que esconde a verdadeira origem. Na verdade, mais importante do que descobrir a origem, é descobrir o que fazer com a hérnia. Eu decidi não me submeter a uma cirurgia e essa decisão levou-me a um regresso ao corpo. Reaprendi a estar de pé. Joelhos ligeiramente dobrados, bacia ligeiramente para trás, core ativado. Descobri que tinha um músculo chamado psoas, responsável por me manter de pé. O tempo que eu demorei a perceber que o músculo não se chamava pessoas, mas sim pssoas! A dor que eu sentia e ainda sinto, funciona como uma âncora a lembrar-me que tenho um corpo para redescobrir e cuidar.

Nesta altura comecei a fazer terapia postural, psicoterapia corporal e fui pela primeira vez a um osteopata. À medida que fui passando mais tempo conectado com o meu corpo e menos tempo refugiado na minha mente, fui ganhando maior confiança em mim. Comecei a ter mais consciência das minhas sensações. Comecei a ser capaz de compreender o que estava a sentir quando certas coisas aconteciam. Foi como se resgatasse uma nova dimensão do meu contacto com a realidade. Foi como se um novo chão se estivesse a criar. Um chão sobre o qual eu podia caminhar com maior consciência.

Grounding

Experimentem pesquisar no google por “danças clássicas3 e depois por “danças africanas4. Há uma diferença notória. Nas danças clássicas há um movimento para longe do chão, como se nos elevássemos da nossa condição humana. Nas danças africanas há um movimento na direção do chão, um movimento de humildade. Os tambores e o bater dos pés no chão trazem uma experiência muito primária, muito crua. Quando danço ao sabor destes sons sou inundado por uma sensação muito velha em que as minhas emoções perdem toda a sua sofisticação e tornam-se muito brutas, muito presentes. O contacto com o solo torna-se numa fonte de carga energética. As vibrações que nascem dos pés provocam uma excitação geral do meu corpo. Estou a criar uma ligação com o solo e essa ligação permite-me sentir o meu pulsar.

A expressão grounding utilizada pela psicoterapia corporal fala-nos desta relação com os solos da nossa vida. Não é só o chão debaixo dos nossos pés que nos suporta. É a ligação pelo cordão umbilical durante a gestação. É o seio da nossa mãe que nos nutre. É a mão do nosso pai que nos apoia as costas. É a amizade dos nossos amigos. É o olhar dos desconhecidos. Cada um destes solos pode ou não acolher-nos. Cada um destes solos pode ser rico ou pobre em nutrientes. Mas todos eles influenciam a nossa segurança interna – a nossa capacidade de pulsar.

Experiências à parte

Esta experiência do pulsar da vida em mim não acontece apenas quando estou grounded pela música. Uma vez, numa conferência com mais de 100 pessoas, foi-nos pedido que todos juntos construíssemos uma figura humana e que cada um se colocasse na zona do corpo com a qual mais se identificava. Eu inicialmente coloquei-me nas vísceras, mas não me senti adequado. Depois de uns segundos de indecisão, mudei-me para o cérebro. Estranhamente, quando lá cheguei a minha cabeça começou a pulsar. Ela literalmente começou a latejar e eu percebi que estava no sítio certo. Esse pulsar só desapareceu quando desfizemos a figura humana. De alguma forma, o grupo acolheu-me e serviu de suporte para que fosse possível eu entrar em contacto com a sabedoria do pulsar do meu corpo.

Como pai da Sofia, sei que também eu sou um dos solos onde ela está a construir essa capacidade de pulsar que lhe permitirá dançar com a vida. Espero estar à altura do solo onde ela teve a segurança para dar os seus primeiros passos.

34 opiniões sobre “O chão que me suporta

  1. Obrigado pela partilha @rodrigo. Por vezes sinto que tenho me focado mais na mente e muito menos no corpo. Sempre com vontade de fazer, submeter, acelerar, (push, push, push), e… quando o corpo fala comigo, não lhe dou ouvidos. Fala comigo porque sinto-me cansado, tonto e com dores de cabeça.
    Neste momento estou a ler o livro e ele menciona que uma grande parte dos seres humanos tem um vício, pensar. Eu com esse pensamento, inconscientemente descobri que padeço do mesmo vício, e em detrimento disso faço o corpo sofrer. Tenho percebido que se quiser sentir melhor uma emoção, tenho de a sentir com o corpo e não só com o pensamento e a mente. Têm sido uma jornada interessante para melhorar nesse sentido, e difícil. Mas também acredito, se não fosse difícil também não valeria a pena…

    p.s. Gostei muito deste pensamento: “Talvez tivesse medo de se esquecer que já sabia andar. Quem sabe?”
    Espero pelo próximo.
    Um abraço

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    1. A nossa capacidade de pensar é maravilhosa e é, talvez, a ferramenta mais poderosa que temos. No entanto é fácil deixarmo-nos fascinar. A saúde estará no equilíbrio entre o pensar, o sentir e o agir. Um dia escreverei sobre esta harmonia. Obrigado por partilhares. Abraço.

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  2. Rodrigo, parabéns pelo teu novo blog e por partilhares um pouco mais de ti de uma forma tão sensível e humana. Bem hajas. Abraço e vou seguir o teu blog. M

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  3. O ser humano é a melhor invenção que existe.
    Ser pai é a melhor profissão, sensação, responsabilidade, forma de partilhar a vida, de crescer e viver. Para conseguirmos ser melhores seres humanos e melhores pais também temos de ter os pés no chão e conhecermos melhor o nosso corpo e a nossa mente….
    Adorei o teu texto.
    Não pares.
    Abraço

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  4. Mega estreia! Quero mais :-p a tua referência às danças africanas fez-me lembrar os momentos de aplausos e música na roda. Todos tão suportados por aquele chão a sujar-nos a todos do mesmo pó…

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  5. Muitos Parabéns meu querido amigo! Sinto-me grato e orgulhoso por fazeres parte da minha vida de forma tão presente. Admiro a tua coragem de te partilhares de forma tão despida e sensível. Também és parte do chão que me suporta.

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  6. É um prazer ler-te. A tua escrita tem chão e que bom é “partilhares-te” de forma tão sensível e criativa!
    Vou acompanhar de perto as tuas reflexões.
    Parabéns pelo blog e parabéns a ti, sim a ti (na hora certa)!

    Abraço-te!

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  7. Muitos parabéns, primo. Obrigada por me transporte por estes 5 minutos para perto de ti. Foi um prazer. Aguardo por mais momentos tão ternos. Beijinhos para os 4

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  8. Muitos parabéns Rodrigo. Gostei da tua forma de escrever, super honesta, sensível e muito pessoal.
    Confesso que estava curioso para ver o que ia sair deste teu blog, não vou embora desapontado.
    Venham mais, 1 artigo destes por semana!

    Abraço!

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  9. Adorei! Também eu tenho uma hérnia (a minha na cervical) que optei por não operar. Também senti que precisava de cuidar mais do meu corpo, recorri à osteopatia numa crise que tive, fiz fisioterapia e regressei ao yoga. Mas a minha hérnia não me inspirou a tanto como a ti, Parabéns. Bji

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  10. Rodrigo, obrigada pela partilha do teu blog.
    Este teu post fez-me reflectir sobre coisas que normalmente não penso. Por norma, o “chão que nos suporta” é um dado adquirido e nem pensamos muito sobre a sorte que temos de, todos o dias, termos um chão onde podemos pisar e fazer dele o que bem quisermos.
    Fico a aguardar pelo novo post, mas olha que agora as expetativas estão muito elevadas! 🙂

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  11. Boa Noite Rodrigo, Muito Grata _/\_ pelo “A Pulsar”…tua És Um Mago…que continues na tua linda alquimia. Abraço-te com muita Alegria por Seres*

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  12. Meu querido… queria tanto ter-te ligado no teu dia de anos mas deixei para a noite e o Gabriel, que se constipou nesse dia, não me deixou (acordou “fanhoso” depois da sesta da tarde). :S
    Os dias seguem a uma velocidade voraz e… enfim, entretanto fiquei com vergonha de te ligar.

    Dizer-te, no entanto, que gostei muito de te ler. São reflexões profundas acerca de transformações muito estruturantes. É bom quando a vida nos deixa assim… em estado de sítio connosco. 🙂

    Tenho só uma curiosidade… se não te conhecesse diria que terias apenas um filho… uma filha, a Sofia. Tem a ver com a experiência de aprender andar ser mais recente nela ou com o Leonardo ainda não tinhas vivido a transformação?

    Um grande beijinho, obrigada por partilhares este pedacinho de ti comigo.

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    1. Olá Marina. O momento da Sofia começar a andar foi muito marcante para nós. Ela começou muito mais tarde que o irmão e os primos e nós estávamos ansiosos. Por ter demorado, esta relação com a segurança que o chão lhe oferecia tornou-se mais evidente.
      Mas, não te preocupes há muitas histórias do Leonardo que irei aproveitar para futuros artigos.

      Beijinho.

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  13. Boa Rodrigo!!! Este blog está com engenho e arte. Vai ser inspirador acompanhar esta tua viagem-da-cabeça-aos-pés, passando pela lombar. Pelos vistos, a hérnia acertou-no no centro da gravidade…da questão…e fez-te aterrar. Obrigou-te a caminhar, porque estar sentado muito tempo dá cabo das costas. Como sempre, usaste a cabeça – como essa cabeça pulsa! – e atiraste-te ao chão. É preciso ter coragem! Obrigado por isto. Um abraço. Francisco

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  14. Olá grande Rodrigo!!! É com grande carinho que leio as tuas inteligentes e sensíveis palavras, quero acompanhar os teus desvanecidos!!! “Trago te no coração “

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  15. Escreves muito bem. Já me tinha esquecido que escrevias tão bem, ou seja, tinha saudades de te ler.
    Só hoje é que me apercebi que tinhas criado este blog, vou seguir os teus passos com carinho.
    E os meus Parabéns de aniversário atrasados 😛 Como a Raquel, tb te trago no coração!

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  16. Este texto partilha importantes “suportes” do meu percurso de vida e como tal revi-me nele. “O chão que me suporta” está admiravelmente bem escrito Rodrigo! Fala “aqui” alguém que depois de um acidente ficou com as pernas imobilizadas durante uma semana e após esse incidente foi recuperando lentamente os movimentos mas demorou pelo menos seis meses até voltar a andar normalmente(há 17 anos atrás); As danças Africanas são mesmo como o Rodrigo descreveu…eu trago isso do Útero pois nasci em Moçambique e apesar de não me lembrar de nada, o som e o movimento Africanos pulsam-me nas veias; Que todos os “solos das nossas vidas” sejam ricos em nutrientes! Abraços na alma.

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      1. Nestas situações a força de vontade nasce naturalmente, é o instinto de sobrevivência! Grata também.

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  17. Muito bom
    Achei curiosa a diferença entre dança clássica e dança africana. Nunca tinha pensado nisso. De facto sou mais dança africana, mais terra, mais grounding e estou a aprender com o tempo a importância de honrar as minhas raizes

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