Dia 3 – O Caminho são as pessoas

Pontesampaio – Pontevedra, 11km

É o nosso terceiro dia e temos uma etapa fácil pela frente. Como fizemos um trajeto mais longo ontem, hoje só temos onze quilómetros para percorrer. Começamos a andar às sete e meia da manhã, mais uma vez sem pequeno-almoço por não encontrarmos nenhuma cafetaria aberta. Felizmente temos connosco frutos secos, bananas e, claro, chocolate que Carla Barros não funciona sem o seu chocolate negro de setenta por cento para cima.

Normalmente andamos a quatro quilómetros por hora. Hoje iremos baixar para uma média perto dos três. Vamos ser ultrapassados por toda a gente. Passam por nós, dizem-nos Buen Camino, trocamos umas palavras e seguem até desaparecer da nossa vista. Todos menos a Vinya com quem alinhamos o passo e com quem chegaremos a Pontevedra.

Nessa noite, sentados na Taberna Zentola com o grupo de portugueses da força aérea, o nosso Gandalf Luís Cadete irá dizer em tom solene: o Caminho são as pessoas. Já teremos quilómetros suficientes nas pernas para compreender a frase.

Quando caminhamos não há muito mais a fazer do que pôr um pé à frente do outro e contemplar a paisagem. Essa simplicidade traz-nos liberdade. De repente, temos a escolha de nos relacionarmos com as pessoas à nossa volta. Há tempo para isso. A Vinya é uma das pessoas com quem escolhemos caminhar e conversar. Eu: Were are you from? Vinya: Germany. Where in Germany? Cologne. I was in the Osho Institute in Cologne. Are you kidding? A Vinya tem quase setenta anos e conheceu pessoalmente o Osho, ou Baghwan como ela o chama. Conheceu-o em Puna quando ele ainda falava e depois voltou a estar com ele em Oregon onde viveu as cenas maradas descritas pelo documentário Wild Wild Country. Claro que passo duas horas de caminho fascinado a conversar com ela. A conversa que começou banal transforma-se rapidamente num diálogo profundo sobre propósito, existência e morte.

Eu e a Carla em cima de uma pequena ponte romana no meio de um bosque.

A Vinya está a fazer o caminho sozinha pela enésima vez. O marido não veio com ela. O Caminho de Santiago é uma coisa dela. Não é a primeira, nem a última pessoa que nos conta que vive em casal, mas está a fazer o caminho sozinha. Olho para a Carla que vais mais um pouco à frente e sinto-me um sortudo. Estou feliz por estar a partilhar a experiência com ela. Quando deixarmos a Vinya no albergue de Pontevedra iremos conversar sobre como é estarmos ali juntos e como seria estarmos sozinhos. É bom descobrir que mesmo ao fim de dezanove anos a caminhar ao seu lado, ainda há muitas cerejas dentro da cesta das boas conversas.

Depois de três noites a dormir muito mal, decidimos que Pontevedra é o nosso pit stop. Ficamos a dormir num apartamento só para nós e damo-nos ao luxo de chamar um massagista para uma masaje del peregrino. Deitamo-nos de corpo dorido da massagem, mas de alma leve. Vamos a meio do caminho e o melhor ainda está para acontecer.


“É uma história que convida a olhar para dentro com curiosidade e que lembra o poder das relações de afinidade.”

Virgínia Rodrigues sobre o romance Augusta

Deixe um comentário