E se nesta parte fizéssemos um rap? pergunta-me o meu querido amigo Leonardo, e eu rio-me porque já sei o que aí vem. Estamos na sua sala a ensaiar um monólogo para a Gala dos 35 anos da Candeia. Espera-nos um palco com uma audiência de seiscentas pessoas, mas é como se estivéssemos a preparar uma novela para um campo de férias da Candeia. Ou seja, com uma enorme disponibilidade para sermos ridículos.
Como assim um rap? pergunto eu. Ele responde-me com a guitarra. O meu corpo reage, dobro os pulsos para dentro, baixo o meu centro de gravidade, inclino-me para um lado e começo a acompanhar o ritmo. Mas só sei rappar (e mal) com o corpo, a cantar não me safo. O Leonardo vem ao meu socorro. Pegamos nas palavras do Gaspar, o narrador da nossa história, e em poucos minutos temos um rap miserável, mas que num campo de férias com faíscas (participantes da Candeia dos 6 aos 9 anos) faria maravilhas.

A primeira vez que eu e o Leonardo contámos uma história, em que eu era o narrador e ele a banda sonora, foi em 2004 num campo de férias na Várzea da Ovelha. Todas as noites contávamos a aventura do Tô Viúvo, um fugitivo que andava pela Europa fora em busca do assassino da sua mulher. O enredo era improvisado e cada episódio era mais mirabolante que o anterior. Foi uma das primeiras vezes, na minha vida adulta, em que me deixei levar pela imaginação, em frente a um público, sem medo do ridículo.
Quando a Leonor Felgar me convidou a escrever e interpretar um monólogo na Gala, fiquei muito entusiasmado. A ideia era escrever um texto que se relacionasse com os Pinhas, os mais pequeninos da Candeia. A parte de mim que se leva a sério, cheia de vontade de ser admirada, ainda sugeriu: e se fosse um discurso emocional inspirado nos primeiros campos da Candeia e na experiência de ser pai. Felizmente, as outras partes já têm espaço e propuseram algo muito mais fixe: e se eu escrevesse algo que pudesse ser contado numa roda de um campo de férias?
Foi assim que nasceu um conto infantil com um rap ridículo. O Leonardo trouxe a sua magia musical e o palco transformou-se numa floresta, os Pinhas transformaram-se numa pinha caída num buraco feito por um javali e os animadores transformaram-se… Bem, não te vou contar para não estragar a experiência de leres o conto. Aqui tens A pinha
Diverte-te.
