Hoje visitei o Pinhão e ao regressar recordei-me de um dos maiores disparates da minha adolescência.
Saí de casa pelas sete e meia da manhã e meti-me no Caminho de Jacinto. São 3,4km até à Estação de Aregos. Começava bem o dia. À medida que o comboio ia subindo o Douro, a paisagem foi se tornando mais aprimorada, as curvas mais apertadas, os socalcos a definir a paisagem. Depois de um copo de Avessos, avançava para um cálice de Porto.
Fiz o que se faz no Pinhão durante uma manhã. Passeei num barco Rabelo e almocei numa esplanada com vista para o Douro. O dono do restaurante, depois de me contar a história da sua vida, sentou-me ao lado do escritor australiano, Ian Burnet, que está por cá a escrever sobre a história marítima portuguesa na Indonésia. Ambos sozinhos, passámos o almoço a conversar.
Uma manhã perfeita. Apanhei o comboio de regresso às duas da tarde. Não dava para estar fora da uma sombra. Trinta e cinco graus Celsius! Escolhi um lugar interior, longe da janela e dos raios de sol. As janelas abertas das carruagens permitiam que o vento entrasse para combater o calor.
Ao passarmos a estação da Ermida, levantei-me — Aregos era já a seguir — e deparei-me com a porta escancarada, mesmo com o comboio em movimento.
Talvez porque tenho estado o mês todo a escrever sobre um adolescente, veio-me logo à memória o dia em que ao chegar a Caíde de Rei decidi saltar do comboio em andamento. Estava sozinho, mochila às costas e de calções. Ia a caminho de duas semanas de Verão na Casa de Ronfe. Teria dezassete anos.
Eu que tinha tido vinte valores no exame nacional de Física, não parei um segundo para pensar na primeira Lei de Newton e fui empurrado pela inércia contra o atrito que me passou uma rasteira. Acabei no chão, pernas esfoladas, ombro magoado. Levantei-me envergonhado e segui o meu caminho.
Desta vez, apesar da porta aberta, esperei que o comboio parasse. Mas como os disparates são como às cerejas e se puxam uns aos outros. Assim que saí do comboio enveredei pelos 3,4 km do Caminho de Jacinto a pé. Que disparate!
Valeram-me as duas casas que pelo caminho me encheram o cantil. Se não, com este calor, não chegava a Tormes.


Viver uma vida plena de bom vivenciar. Abração
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