(Segunda versão do capítulo 1 de Deus é Imaginação, em revisão)
Quarta-feira
Estou sentado no lugar do morto. Tenho as mãos debaixo das pernas. O cinto de segurança apertado. Pronto para voltar para casa. Não fico aqui, nem que me paguem. A janela está entreaberta, menos que um dedo dos meus. O suficiente para ouvir a conversa, mas garantindo que não entram bichos e essas coisas.
— António, se o Gabriel estivesse vivo, eu não estaria aqui — diz a minha mãe. — Um mês. É tudo o que peço.
O velho não responde. A camisa de flanela aos quadrados pende-lhe dos ombros, desapertada, revelando uma camisola interior manchada de suor e terra. Ele não quer saber. É evidente.
— Não larga o raio do jogo do Gabriel e chumbou por faltas. Eu tenho que trabalhar… É o seu neto, porra!
Tiro uma das mãos debaixo das pernas e volto a verificar. O telemóvel continua sem dados. Isto é mesmo o fim do mundo.
— Duarte Carvalho, sai do carro, imediatamente. Vem falar ao teu avô.
Fecho a janela. Salto para o lugar do condutor, ligo o motor e arranco de volta para Lisboa, onde a minha gaming station me aguarda.
O barulho da minha mãe a bater no vidro atinge-me o tímpano e eu estremeço. Lança-me o seu olhar de professora do segundo ciclo. Anos de prática a calar putos de onze anos. Copio o ar de indiferença do velho e tranco a porta. Querias… Ela tem o comando do carro. A porta abre-se e o dedo espetado em frente aos meus olhos é como uma arma apontada à cabeça.
Ponho um pé fora do carro e é como se depositassem uma bigorna no meu peito. Falta-me o ar. As árvores à volta da casa sabem que sou um puto da cidade tenrinho. Vão mastigar-me e depois cuspir-me para uma gruta onde nunca mais serei encontrado. Procuro o olhar do velho em busca de segurança, mas arrependo-me de imediato. Tem os lábios cerrados num não sorriso. Dali, nem um pingo de compreensão.
— Mãe, porque é que estás a fazer-me isto? — pergunto entre dentes.
— Um mês longe do computador vai fazer-te bem, Duarte. Confia em mim.
Ela diz um mês como se fosse um dia. Trezentos mil anos de evolução para o Homo Sapiens desenvolver a inteligência artificial e a minha mãe acha que desterrar-me para um lugar sem net é uma boa ideia. Abro a boca para lhe explicar o retrocesso, mas o olhar dela seca-me as cordas vocais e o som não sai. Tento limpar o suor das mãos nas minhas calças de fato de treino. Volto a encarar o velho, agarro na mala, penduro a mochila num ombro e aceno com a cabeça. Ele acena de volta. Tenho menos um palmo de altura do que ele, mas mais dois palmos de largura.
— Tem a certeza que cabem duas pessoas nesta casa? — pergunto-lhe.
— Não cabem — responde, com uma voz rouca e grave. — Mas aqui estamos.
Volto a olhar para o telemóvel. Continua sem dados. Como é que vou passar tanto tempo longe de Animoria? Dou um pontapé numa pedra e ela voa até bater numa das paredes da casa.
— Não ligue António. Isto já lhe passa. Bem, deixo-vos para que se conheçam.
— Espero que não tenhas fome — diz o velho. — Não estava à espera de visitas.
Lembro-me que foi militar: coronel, ou general; já não sei. Bem, se está à espera que eu seja um dos seus soldadinhos bem pode esperar sentado.
— Passámos por Braga e eu comprei frigideiras que sei que o António adora — diz a minha mãe, estendendo um saco que ele agarra a contragosto. Suspiramos os dois em simultâneo. A minha mãe tenta abraçar-me, mas eu esquivo-me e nem olho para trás. Talvez ela se sinta culpada e desista desta estúpida ideia.
A casa do velho é a única construção que consigo ver naquele mar de árvores. Veem-se os contornos de cada pedra de granito e tem áreas cobertas de folhas de heras que escalam até um telhado cheio de musgo. Tem a chaminé mais larga que eu já vi na vida. As paredes formam um L e ambas têm uma porta que se esqueceram de pintar. Avanço para a entrada mais próxima, mas o velho para-me com a mão.
— Tu não entras por aí — diz ele e empurra-me na direção da outra porta.
— O que é que fica ali? — pergunto.
— O meu quarto.
A outra porta está protegida por um telheiro. Por baixo há uma cadeira e uma pequena mesa redonda de madeira escura. Imagino o velho ali sentado a passar os dias a olhar para nenhures. A seca!
— A porta está sempre aberta, basta empurrar — explica ele.
E assim que entro, percebo porquê. Quem é que ia roubar um monte de velharias?
— Onde é que fica uma tomada? — pergunto. — Estou quase sem bateria no telemóvel.
— Aqui não há eletricidade.
Demoro um segundo a processar as suas palavras, até que me atingem e qualquer coisa quebra dentro de mim.
— C-Como assim não há eletricidade?
Em resposta, ouço o carro da minha mãe a abandonar-me. Depois, nada. Só o som das cigarras.
