Compromisso de pai

Eu e a Carla sempre quisemos que os nossos filhos tivessem padrinhos e madrinhas. A ideia de convidar outros adultos para acompanhar de perto a vida dos nossos filhos parece-nos inteligente e cuidadora. Permite que haja um ponto de vista externo que não tem nenhum conflito de interesses com o resultado do desenvolvimento das crianças. Como não somos católicos, decidimos fazer uma festa para cada um dos nossos filhos e convidámos os padrinhos para discursar. Durante a festa do nosso filho mais velho, o padrinho disse uma frase que me despertou o coração para um desafio gigante que eu tenho pela frente. Passados sete anos, as suas palavras ainda surgem como as de um sábio de barbas brancas que me aconselha nos momentos de educação mais difíceis.

Nesse dia, tínhamos reunido quase uma centena de amigos e família para celebrarem connosco o apadrinhamento do Leonardo. Estávamos todos sentados no exterior da casa a ouvir os padrinhos discursarem. O nosso filho, que tinha um ano, brincava despreocupadamente com os primos. A nossa filha descansava dentro da barriga da mãe. Viria a nascer vinte dias depois. Eu, como de costume, estava em stress, preocupado com que tudo corresse bem. Foi então que, no meio do seu discurso, o padrinho disse algo que atravessou toda a minha preocupação e me atingiu diretamente o coração:

“Leonardo, eu comprometo-me a contribuir para que sejas tudo aquilo que sintas que para ti faz sentido.”

Ele não estava a desejar que o Leonardo viesse a ser bem sucedido, ou feliz, ou saudável. Estava a despojar-se de toda as suas expectativas e a comprometer-se em estar ali para aquela pessoa, fosse qual fosse o seu sentir.

Naquele momento houve alguma coisa que se moveu dentro de mim. Como se eu tivesse encontrado a peça que me permitia resolver o puzzle das infinitas peças. O puzzle do ser independente que é o “meu” filho.

Tabuletas e um muro

Resolver este puzzle interno em que consigo sentir e aceitar a total independência dos meus filhos é um dos grandes desafios que tenho vivido nos últimos anos. Neste texto quero partilhar contigo como é que esse puzzle infinito pode gerar diferentes cenários. Para simplificar o texto, refiro-me apenas ao meu filho, mas tudo o que escrevo é igualmente válido para a minha filha.

No primeiro cenário gerado pelo puzzle existem dois territórios separados por uma fronteira. Num dos lados vive o ser livre do meu filho, no outro vive o meu. A fronteira que no início era um simples risco no chão, vai ganhando consistência e altura ao longo do tempo. Eu passeio inquieto do meu lado, espreitando constantemente por cima da fronteira. Vejo o território dele a expandir-se e não consigo perceber com clareza tudo o que está a crescer por lá. Há lugares à sombra, onde não sei o que cresce, e há vegetação que não percebo se é relva ou se é erva daninha. Sem conseguir acalmar a minha inquietação começo a espetar uma série de tabuletas cada vez maiores, viradas para o território dele, onde escrevo frases que quero que se entranhem no seu pensamento:

“Tu és a pessoa mais importante na tua vida.”

“Nunca te esqueças como se chora.”

“A melhor coisa que existe no mundo são os amigos.”

“Usa o guardanapo para limpar as mãos.”

“A tua irmã é a tua maior aliada.”

Às vezes não consigo sustentar a minha inquietação, salto a fronteira e invado o território dele às escondidas para espetar umas tabuletas do lado de lá. Muitas vezes é por coisas pouco importantes, como os clubes de futebol.

Eu não tenho clube de futebol e tenho uma teoria arrogante de que isso é inteligente. Por vezes não resisto ao desejo de querer que o meu filho seja “inteligente” como eu. Então começo a utilizar subterfúgios para o convencer de que não ter clube é melhor do que ter. Claro, que não tenho sorte nenhuma. Esta coisa do clube não é racional, é emocional, e para ele, ter um clube, traz-lhe um sentimento de pertença importante entre os amigos e os primos. Ele é benfiquista.

Quando me apercebo que estou no território dele a tentar espetar estacas que não são suas, sinto vergonha e regresso ao meu lado. Descubro então que a fronteira ganhou uns centímetros de altura e tornou-se ligeiramente mais opaca.

Entretanto o território dele vai crescendo e começa a ser tão grande que eu tenho a certeza de que a partir de certas zonas ele já não vê as minhas tabuletas. Ansioso, dou por mim a gritar para atrair a sua atenção. Ele ignora os meus gritos. A fronteira vai-se transformando num muro alto e eu deixo de conseguir espreitar para o outro lado. Nasce em mim uma desilusão profunda. Destruo as tabuletas a pontapé e sento-me encostado ao muro a olhar para a selva que entretanto nasceu no meu território descurado. Ele fica profundamente zangado. Detesta aquele muro que ajudei a erigir e sente-se magoado por eu estar desiludido.

Uma árvore de diospiros

Esta é apenas uma forma de resolver o puzzle da independência dos meus filhos. Uma forma, demasiado frequente, que me entristece. Felizmente, eu encontrei a peça mágica! Com ela tenho estado a tentar desenvolver um outro cenário. Um que nasce da compreensão de que os filhos não existem para satisfazer necessidades, nem para cumprir expetativas dos pais.

No segundo cenário eu ainda espeto tabuletas, mas são mais pequeninas e escritas com lápis coloridos. Em vez de estar constantemente a espreitar para o outro lado, ando a cuidar do meu território e das minhas ervas daninhas. Comecei a fazer psicoterapia há três anos atrás por ter compreendido que sou eu que tenho de cuidar das minhas necessidades e das minhas expetativas, não são os meus filhos. Agora já consigo sustentar a inquietação e aguardo por um convite para entrar no seu território. Muitas vezes o convite chega à noitinha, quando ele já está deitado. Ele pega-me na mão e leva-me a conhecer as zonas escondidas na sombra, mostra-me as flores que nascem nas ervas daninhas e pergunta-me coisas sobre o seu território. Nesses momentos preciosos, sinto-me o pai mais sortudo do mundo.

Eu gosto muito deste segundo cenário, mas nem sempre consigo permanecer nele. Às vezes dou por mim de tabuleta em riste e a gritar sem paciência. Provavelmente o tema da independência dos meus filhos será um desafio até ao final da minha vida. Ainda assim, continuo a cuidar do meu território. Talvez um dia, quando ele já não for criança, possa vir visitar os meus espaços à sombra e juntos plantemos uma árvore de frutos. De diospiros, que ambos adoramos.

É por isso a minha vez de o dizer publicamente:

Leonardo, eu comprometo-me a contribuir para que sejas tudo aquilo que sintas que para ti faz sentido.

37 opiniões sobre “Compromisso de pai

  1. Adorei o artigo! É realmente interessante a maneira como descreves no fundo a tua ” relação” com o teu filho! A analogia que é feita com os dois territórios separados por uma fronteira que é para nós, pais , tão difícil de não transpor! Bem, tenho que o ler de novo para reter algumas ideias importantes e interessantes a pôr em prática!

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  2. Obrigado pela partilha. Quando as minhas filhas eram mais novas, e mesmo agora que já são adultas, sinto-me a passar o “muro”.Recuo mas, com vontade de o saltar. Certo que será até ao FIM. Penso que é natural pois gostamos que os nossos filhos estejam bem.Só assim,também estaremos. Não é egoísmo, certamente

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  3. eu ainda nao consegui perceber se é a nossa atitude activa, relativamente à vida da outra pessoa, ou a atitude passiva que faz com que esses muros se ergam. E depois, a partir daqui iria escrever um conjunto de coisas encadeadas, mas isso fica para outro dia.

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  4. Pois, esses muros estão sempre lá, e em todas as idades. Por vezes saltei-os, sabendo que não o devia fazer.
    Hoje levo a filha e as netas a almoçar. Pateta, faço por isso!
    Abr.
    JG

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  5. Gostei muito do teu texto Rodrigo. Os teus filhos têm mesmo muita sorte de ter um Pai tão consciente.
    Acho que a frase maravilhosa que referes: “____ eu comprometo-me a contribuir para que sejas tudo aquilo que sintas que para ti faz sentido.” deve estar gravada em nós para ser sempre aplicada connosco mesmos. O espaço em branco deve ter sempre o nosso nome, para além de todos os outros nomes. Abraço

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    1. Não tinha pensado nisso e é verdade . Esse compromisso deve começar comigo próprio. Senão em vez de ser o que fizer sentido para mim, vou ser o que eu acho que faz sentido para os outros. Obrigado Filipe

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  6. Pateta, sou! Sou mãe:) Gostei do texto. Acho que devemos ser pais atentos, a preocupação é inerente ao ” cargo”, mas não devemos dramatizar, complicamos por vezes a simplicidade deles.

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  7. O nosso amor, as nossas preocupações, os nossos cuidados… devem ser, serão, são… indefectíveis!!
    Mas isso não quer dizer que sejam “extremados”! – Os extremos não são bons conselheiros.- a largura do caminho deve ser grande, muito grande!… mas… as baias devem ser firmes, muito firmes!…e absolutamente verticais!! Abraço!

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    1. Olá Olímpio. Baias muito firmes e verticais têm tendência a conter tudo até a inundação ser demais. Prefiro baias flexíveis que acolhem a possibilidade de explorar o que está para lá delas.
      Abraço

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      1. São, precisamente, as baias firmes e verticais que evitam a inundação, e orientam a corrente! 🙂
        Abraço!

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  8. Linhas e muros já eu tinha metido no meu léxico de mãe há 35 anos mas desenvolver assim não saberia
    Já sou avó e é igual só com mais vantagens

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  9. O texto está profundo gostei muito.
    Como anteontem se começou a comemorar em Portugal o “Dia dos Irmãos” (31 de maio), destaco do muito que o Rodrigo me deu a conhecer,”“A tua irmã é a tua maior aliada.”. O “Dia dos Irmãos” foi criado com inspiração na referência cristã. “Dia da Visitação” que se comemora a 31 de maio.
    Continua.
    Um abraço apertado da maior consideração.

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  10. Olá Rodrigo!
    Bem hajas por me ajudares a traduzir por palavras sentidas o que muitas vezes sinto/faço à minha querida filha (…)
    Vou roubar-te (vos) a frase ” comprometo-me a contribuir para que sejas tudo aquilo que sintas que para ti faz sentido” e também a ideia de “juntos plantemos uma árvore de frutos”.
    Recebe um enorme abraço, de coração,
    Helena Maria

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  11. Olá Brocas!

    Hesitei em escrever-te, por aqui, estas linhas singelas, mas cá vai.
    Devo antes de mais dizer-te que esta manhã, ao ler este artigo no comboio, me emocionei ao pensar nos meus filhos e no meu papel como pai. Ser pai torna-nos um pouco mais lamechas.
    De facto projectamos muito de nós nos nossos filhos. Queremos ver neles aquilo que arrogantemente pensamos serem as nossas melhores qualidades e não queremos ver neles os nossos defeitos.
    No final apenas queremos que eles sejam melhores que nós. Que tenham mais sucesso que nós, claro, mas acima de tudo que sejam melhores que nós como pessoas, como Humanos.
    Ao fim de contas “apenas” queremos o melhor para eles.
    Queremos que eles não caiam nos mesmos erros que nós, apesar de alguns desses erros moldarem moldarem muito daquilo que somos nesse grande processo de aprendizagem que é a vida. Não queremos que sofram o mesmo que nós sofremos por sabermos que pode ser doloroso.
    Queremos. Somos egoístas.
    Sempre foste alguém com que gostei de falar, apesar de nem sempre termos falado muito. Devíamos ter conversado mais, sobre tudo. Ao longo da minha vida arrependo-me de pouca coisa, mas ao ler alguns dos teus textos admito que tenho feito alguma introspeção sobre algumas decisões e sobre a minha maneira de ser e estar.
    Parabéns por este excelente texto.
    Vemo-nos por aí.

    Um abraço mosqueteiro.

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    1. Olá Ares. Tornar-me pai tem sido a maior aprendizagem da minha vida. Tem posto em causa todas as minhas crenças. Perante a verdade desta relação só o que é autêntico é que sobrevive. Quando olho para trás vejo que fiz muita asneira com os meus filhos. Continuo a fazer. Essas asneiras também têm valor enquanto eu for capaz de as reconhecer e aprender com elas. Muito obrigado pela tua partilha. Também me deixou a refletir. Abraço mosqueteiro.

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  12. Olá Rodrigo!

    Tem sido fantástica a experiência de ler os teus artigos, e poder reflectir sobre o que realmente tem valor, nesta nossa vida.

    Ser mãe, é sem dúvida a melhor coisa que me aconteceu. Insuperável.
    É tão bom, quanto assustador e difícil.

    Desde que o Tiago nasceu, a única coisa que tenho por certa, na nossa relação de mãe e filho, é a de que o amo, e de que o consigo transmitir. Lido com ele com ternura e tranquilidade, e assumo o meu amor. Todos os dias lhe digo: “Adoro-te”. Quero que ele saiba sempre, aconteça o que acontecer, desta verdade eterna.

    Tudo o resto na nossa relação e na minha vivência de mãe, é um mar de dúvidas, e a minha maior questão é:
    Como é que eu posso contribuir para que o Tiago seja feliz?

    Obtive uma primeira resposta graças a este conceito que partilhaste, sábio e sensato :

    Posso contribuir para a felicidade do Tiago, se conseguir perceber e aceitar o que para ele fizer sentido.

    Não, não será fácil. Mas é possível.

    Obrigada pela partilha.

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  13. Adorei Rodrigo! E também me marcou a frase : “Leonardo, eu comprometo-me a contribuir para que sejas tudo aquilo que sintas que para ti faz sentido.” Fico sempre mais rica quando te Leio. Vejo-te daqui a uns dias amigo. Parabéns pelo teu blogue!

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  14. Bom dia, é incrível como ler um só texto do Rodrigo me fez pensar, enquanto mulher e mãe, que só conhecendo os nossos limites e é que descobrimos que não podemos limitar ninguém, muito menos os nossos filhos! Mas é tão difícil dia-a-dia lidar com eles como seres autónomos, independentes de nós e por outro lado não há nada melhor no mundo.
    obrigada

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    1. Olá Ana. Parece-me importante distinguir limitar os nossos filhos de colocar-lhes limites. E se não os podemos limitar, é importante que lhes coloquemos limites. É nesse jogo de aprender o que são os limites de cada um e do mundo (incluindo dos nossos pais) que aprendemos o jogo da Autonomia. É mesmo importante conhecer os meus limites, mas também tenho compreendido que é importante cuidar das minhas necessidades para que possa lidar com as necessidades deles. Obrigado pelo teu comentário. Obrigou-me a refletir. Abraço Rodrigo.

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