Todos estamos a travar uma batalha

Quantas mais pessoas conheço, quantos mais países visito, quantas mais histórias ouço, mais se torna claro que todos estamos a travar uma batalha interna. Todos. Às vezes conscientes da nossa, mesmo que não a compreendamos. Quase sempre sem noção das batalhas dos outros.

Todos somos humanos. O Papa, o Dalai Lama e eu.

Como te atreves a colocar-te ao lado de dois dos seres mais iluminados da nossa época?

Com algum medo, mas com a necessidade de me lembrar que todos nós somos tão brilhantes quanto estúpidos. Tão capazes de orar como de fornicar, que temos tanto de luz como de escuro e que todos estamos a travar uma batalha, que ninguém vê.

Ninguém está só nesta epopeia que é viver.

A minha batalha

É difícil descrever a minha batalha. Tenho medo de que a aches ridícula, desinteressante, insignificante. Ainda por cima com tanta desgraça propagandeada, a minha batalha parece uma escaramuça, uma briga, ou até mesmo uma birra. Só que ela está aqui, presente, eu sinto-a, é minha e não me parece que se vá embora tão cedo. Merece ser reconhecida. Acho que essa é uma das propriedades das batalhas que se passam dentro das pessoas, não podem nem devem ser comparadas. O sofrimento é subjetivo e não é quantificável.

A minha batalha é existencial. É um sentimento de dívida. Como se eu tivesse que fazer alguma coisa para merecer existir. O seu clamor seria: Se fores especial, então podes viver.

Desde que me lembro que esta crença está lá, impregnando as minhas escolhas, moldando a minha vida como uma força subtil. Uma corrente oceânica que, com o passar do tempo, vai moldando um continente.

Já me trouxe muita ansiedade, como antes de subir ao palco para tocar pandeireta com a TUIST. Eu nem conseguia comer! Ficava inundado com o medo de errar um passo, estragar a coreografia, ser um desastre e todos descobrirem que eu afinal não era nada de especial. Um pouco dramático, eu sei. Felizmente o palco hoje já não me assusta tanto. Talvez porque tenha descoberto que, para lá do medo, também sinto prazer em me sentir visto. Hoje consigo sentir o medo e desfrutar do prazer. Um pouco louco, mas muito mais saudável.

Esta ansiedade às vezes surge com coisas bem ridículas. Por exemplo, quando me ponho a fazer scroll down no Facebook. É um desfiar de momentos significativos: celebrações, poderosos testemunhos de vida, lutos comoventes, opiniões inteligentes, serendipidades, histórias de sucesso, histórias enternecedoras, frases inspiradores… Tipicamente perco-me e esqueço-me da razão por que fui ao Facebook. Quando dou por mim, estou inundado porque perante tal enormidade de partilhas eu sinto-me mesmo muito pouco especial.

E essa é a minha batalha, por mais ridícula, desinteressante ou insignificante que eu próprio a considere.

As vítimas

Quando há uma batalha, há sempre vítimas inocentes. No meu caso, as maiores vítimas serão os meus filhos. Não é fácil ter um pai que necessita de se sentir especial para existir. Eu tendo a tratar os meus filhos como uma extensão de mim. Eu sei, totalmente errado, antiético e próprio de um tirano. Mas, neste caso, não é propriamente uma escolha. É uma tendência inconsciente que eu apenas percebo, porque sinto que o que eles fazem tem implicações em quem eu sou. (Isto parece-me uma loucura, nada saudável, quando penso nisso enquanto filho dos meus pais). Esta tendência leva-me a exigir certos comportamentos, à mesa, na relação com os outros, na escola e por aí adiante. É uma bagagem de exigência, stress e rigidez. Tudo para que eu me possa sentir especial. Bem, se calhar “tudo” é um exagero, mas serve o propósito ilustrativo.

Felizmente os meus filhos não se deixaram ficar impávidos e serenos a sofrer a pressão paterna. Especialmente a minha filha. Ela enfrentou a minha batalha com tudo o que tinha: as lágrimas abundantes, a voz reivindicativa, os braços esbracejantes e os pés ruidosos. Para mim foi uma benção, ainda que não o conseguisse ver na altura. Foi um despertar.

Imagina que vives num castelo

É um lugar seguro, até confortável. Gostas especialmente do salão, a luz quente vinda de uns candelabros suspensos, uma mesa gigante onde família e amigos se juntam para conviver e, junto à lareira, o teu cantinho, onde te podes recostar num cadeirão e ler. Há uma ou outra teia de aranha, mas o salão está bastante limpo para os padrões dos castelos. Sim, por vezes há um clamor e os candelabros balouçam ameaçadoramente. Mas isso é normal. Sempre foi assim, pensas.

Até que um dia, uma das pessoas à mesa se assusta de morte com o barulho. Teme que o candelabro lhe caia em cima. Num gesto defensivo empurra a mesa, a terrina vira-se e a sopa espalha-se por todo o lado. A normalidade foi posta em causa.

Nesse momento tens duas hipóteses:

  1. Enfureces-te e expulsas a pessoa que se assustou. Limpas a toalha. E continuas a viver no teu salão protegido pelas paredes do castelo, como se tudo fosse normal.
  2. Pedes desculpa. Enches-te de coragem e finalmente sais do salão para descobrir de onde vem o tal clamor que até as paredes abana.

Parar de travar a batalha

Como seria parar de travar a batalha? Tirar o travão, não a prender, não a impedir. Ir ao seu encontro, para lá do clamor que me assusta, olhar para ela, assumi-la e partilhá-la. Rainer Maria Rilke escreveu umas palavras deliciosas sobre esta possibilidade:

“Talvez todos os dragões nas nossas vidas são princesas que estão apenas à espera de nos ver agir, apenas uma vez, com beleza e coragem. Talvez tudo aquilo que nos assusta seja, na sua essência mais profunda, algo desamparado que quer o nosso amor”

Rainer Maria Rilke

Para lá do ruído, para lá das armaduras e das espadas afiadas, para lá do medo de não existir, talvez encontre a possibilidade de me render à vida, onde não tenho de ser especial. Onde posso ser apenas eu. E isso era tão bom.

* Um agradecimento especial ao Leonardo Varella-cid que inspirou o título deste artigo e ao José Faia por me dar a conhecer as palavras de Rilke

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8 opiniões sobre “Todos estamos a travar uma batalha

  1. Parabéns!
    Pelo teu aniversário e pela clareza com que foste capaz de expressar uma ideia tão poderosa.
    Subscrevo totalmente as tuas palavras. Gostava de ter capacidade para o dizer de forma tão clara. Agora já consigo.
    Todos estamos a travar uma batalha. Uns dias ganhamos umas guerras, muitas vezes perdemo-las.
    Forte abraço!

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  2. Não querendo diminuir a tua batalha ( até porque a percebo muito bem) deixa-me dizer-te que és das pessoas mais especiais que conheço. Um abraço.

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  3. Parabéns Rodriguinho. Pela data de hoje e pelas tuas palavras. Levo comigo os dragões e as princesas, a luz e a sombra e a delícia que é de colocares as tuas batalhas desse jeito tão teu ! És muito inspirador. Um beijinho e um dia feliz e iluminado, como tu!

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  4. “A minha batalha é existencial. É um sentimento de dívida. Como se eu tivesse que fazer alguma coisa para merecer existir. O seu clamor seria: Se fores especial, então podes viver.”
    Meu Deus!!! Aos 37 anos!!! O tempo decorre e tens de aproveitar, nada de dívidas a pagar para teres vida tranquila. Este nosso convívio no “Pulsar” foi acompanhado com troca de impressões num almoço, junto ao mar, aqui em Paço de Arcos. Nessa conversa foi fácil confirmar o que já me parecia, o Rodrigo é portador de largo conjunto de competências e tem potenciais diversificados pelo que é e será sempre um ser humano especial que aqui, desculpa, transformo em normal por existir em muitas vivências entre os trinta e os quarenta anos que conheço.
    Referes o Papa Francisco o melhor é dele te servir de orientação as duas frases que sensibilizaram Dominique Wolton quando o entrevistou para fazer o livro “Politique et Société, “Não tenho medo de nada” e “Não é fácil, ñão é fácil…”
    Um abraço, apertado, da maior consideração.

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  5. Bom dia Rodrigo,
    E que tenhas passado ontem um dia feliz.
    Agora imagina tu que século e meio lá para trás, toda aquela trupe de existencialistas e todo aquele conjunto de modernistas, que não tinham internet e não viviam bombardeados por informação, ainda assim viviam atormentados pelos mesmos motivos idênticos aos que te (nos) afectam hoje a ti.: a angústia de existir, o mito de ser melhor entre os melhores e pelo meio o recurso a Deus. O silêncio de Deus atormentou sempre a Humanidade. Nietzsche propôs uma solução: declarou a sua morte: Deus Morreu! E quando era espectável que tivesse assim resolvido um dos nossos grandes problemas, descambou e entrou pelos todos os niilismos, a negação de tudo: da moral, do Estado, da verdade e de qualquer realidade substancial. Camus aceitou a morte de Deus, mas prudente avisou: mas não vale tudo, é preciso haver regras. Ou seja, íamos caminhando novamente para perto de Deus. Por outro lado, os modernistas, que se libertaram das regras rígidas da poesia e da literatura, quando se esperava que enfim fossem felizes, continuaram a viver angustiados. A minha conclusão é esta, e não estou seguro dela, porque de nada estou seguro: enquanto quisermos ser melhores ou excelentes sempre viveremos angustiados, seja porque nos falta Deus, seja porque nos falta o amor, seja por outra coisa qualquer que inventaremos quando estas não chegarem. Olha, os portugueses inventaram o mito do 5º Império e, desde Vieira, passando por Camões, Bandarra, Pessoa, até hoje, andaram entretidos com esta ilusão. O último livro que li, acabado de sair quase só falava dos do 5º império! Imagino que assim atenuarão as eternas agruras filosóficas do Homem.
    Abraço.

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  6. Obrigada Pandas, o momento em que me apareceu por acaso ao fazer scroll down no fb a dizer “lê-me” pareceu envolto em magia!
    Gosto sempre dos teus artigos mas este foi sem dúvida especial 🙂

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