Dia 2 – A tua mochila é do tamanho do teu medo

O Porriño – Pontesampaio, 23km

A segunda noite consegue ser pior do que a primeira. Como se tornou habitual, eu fico na cama de cima do beliche. Estamos mesmo ao lado da porta de entrada. Resultado: acordamos sempre que alguém entra e sai da camarata e eu levo com a luz de presença a um metro dos meus olhos. A meio da noite dou por mim a viajar até aos meus tempos nas camaratas do Colégio Militar, onde aprendi a dormir no meio de muita gente, com movimento, conversas, ressonares e luzes. Já se passaram vinte e cinco anos. Estou destreinado.

São seis da manhã quando batemos à porta da cafetaria, onde supostamente vamos tomar o pequeno-almoço. Ainda ali estamos dez minutos à espera até aparecer alguém e explicar que só irão abrir às dez, que é feriado em O Porriño. Está explicada a festa na noite anterior. Não há nada a fazer pelo que começamos a caminhar de estômago vazio.

Hoje, as conversas já fluem mais facilmente. A voz liberta-se ao ritmo da passada que vai mais solta, mais segura. Ninguém acredita que estamos a fazer o caminho apenas com as nossas pequenas mochilas. Perguntam-nos se contratámos um serviço de transporte de malas. É com um prazer disfarçado que explico que não, que cada um de nós leva apenas quatro quilos às costas, já incluindo água e comida. É assim que ouvimos uma das sabedorias do Caminho: a tua mochila é do tamanho do teu medo. Irei refletir sobre essa frase durante muito tempo.

Normalmente, eu sou o planeador e desta vez não foi diferente. Meses antes, comecei a estudar os caminhos, a definir as etapas, a marcar as caminhadas de treino. A dada altura, dei por mim ansioso. Estava preocupado com a nossa condição física. Tinha medo que não conseguíssemos carregar as mochilas durante tantos quilómetros. Comecei a contactar serviços de transporte de malas, o que implicava decidir as povoações e os albergues onde iríamos ficar. Estava a ser difícil tomar decisões pois havia demasiadas opções. Cheguei mesmo a estudar a hipótese de contratar uma empresa que tratasse de tudo: transporte, alojamento e refeições.

Felizmente não estava sozinho nesta aventura. Quando entro nestes picos de ansiedade tenho a tendência em descarregar na Carla. E desta vez isso resultou numa exigência para que ela se envolvesse mais. Eu precisava que ela também estudasse as opções para me ajudar a tomar decisões. O peso de fazer as escolhas certas não podia estar só em cima de mim. A Carla, com muita paciência, sentou-se comigo, acalmou-me e juntos tomámos umas das melhores decisões desta viagem. Em vez de planearmos, iríamos deixar-nos levar pelo que fizesse sentido durante o caminho. Para isso iríamos levar as mochilas mais pequenas possíveis. Não iríamos ficar em albergues públicos para não termos de levar saco-cama e se não encontrássemos onde dormir ficaríamos num hotel (o que nunca chegou a ser necessário). Combinámos ainda entre nós os dois que ela me avisaria se eu começasse a tentar otimizar demasiado durante a viagem. Deixar cair o planeamento tirou-me um enorme peso de cima e isso deu espaço para a excitação da aventura. O meu medo, que me leva a querer planear muito, tinha-se reduzido substancialmente porque estava com a Carla e assim a minha mochila reduziu-se para o tamanho do meu medo. Quatro quilos.

Passamos Redondela, o destino do meu plano original, e continuamos alegres e fortes para Pontesampaio. São oito quilómetros com a pior descida do caminho. Mais tarde vamos conhecer um espanhol que há um ano atrás deu cabo de um joelho nessa mesma descida e que agora está a continuar desde o ponto onde parou para que possa fechar esse percurso.

Ao chegarmos a Pontesampaio somos brindados com um rio maravilhoso que está mesmo a pedir um mergulho. Deixamos as nossas coisas no albergue O Mesón e vamos comer vieiras no restaurante Veiramar com vista para o rio. É a melhor refeição do caminho. No dia seguinte, quando pararmos para carimbar a nossa credencial com um selo espetacular de uma vendedora de bugigangas, ela vai meter-se connosco a dizer que os peregrinos não param para almoçar em marisqueiras. Não faz mal, é o nosso almoço de bispos. Sabe-nos pela vida. Satisfeitos descemos até ao rio onde conhecemos três amigas de Mallorca. Vamos passar a tarde toda com elas à conversa numa esplanada junto a uma pequena praia fluvial. As três deixaram os maridos em casa e decidiram pôr se a caminho para celebrar a sua amizade. Há anos que o queriam fazer.

Ao jantar comemos o que tinha sobrado do almoço na cozinha do albergue. Ao nosso lado estão três alemãs que nos oferecem um copo de vinho. Elas praticamente não falam inglês e são bastante reservadas. Nós não falamos alemão e estamos bastante cansados, pelo que quase não há interação entre nós. Curiosamente iremos encontrar-nos com elas em todos os dias, nos mesmos albergues até chegarmos a Santiago. Parece magia. Nunca haveremos de ter uma conversa propriamente dita, mas a cumplicidade dos nossos olhares torna-se confortável, divertida.


“Augusta é uma história de auto-descoberta e superação que o Rodrigo de forma hábil e corajosa nos convida a desvendar..”

Diogo Girão sobre o romance Augusta

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