Dia 4 – Zero bolhas

Pontevedra – Caldas de Reis, 23 km

Começamos a caminhar às sete da manhã e ainda está escuro. Já nos habituámos a arrancar de noite. Sabe bem. Está mais fresco, há silêncio e podemos deliciar-nos com o nascer do Sol. Estamos recuperados, a noite no apartamento mais a massagem fizeram milagres. Ainda assim, os meus joelhos sentem falta de uns walking sticks. Cheguei a Pontevedra já com algumas dores no joelho direito, pelo que prometo a mim próprio que não saio de Caldas de Reis sem comprar uns.

As boas conversas vão se multiplicando ao longo da manhã. Para além de várias pessoas, conhecemos Vilem, o unicórnio. É um peluche que uma rapariga da República Checa tem preso à mochila e que usa para iniciar conversas. Claro que caímos no engodo. Acompanhamo-la ao longo de alguns quilómetros e descobrimos que o Vilem até tem conta de Instagram.

Estamos todos mais perto de Santiago e sente-se esse entusiasmo. Algumas pessoas têm os pés desfeitos com bolhas, desistiram por completo das suas botas de caminhar e vão em sandálias que compraram ou tinham trazido para tomar banho nos albergues. Duas mulheres da África do Sul metem conversa connosco, estão espantadas com as nossas sandálias Birkenstock clássicas, sem meias. Querem saber se estamos a fazer o caminho só de sandálias, ou se despachámos o outro calçado. Não são as primeiras pessoas a fazerem-nos esta pergunta. As Birkenstock são o nosso unicórnio cor-de-rosa. Suscitam curiosidade, inveja ou reprovação. Antes de partirmos, quando contávamos aos nossos amigos que íamos fazer o caminho só de Birkenstock, eles chamava-nos malucos ou numa versão mais agressiva diziam-nos que a nossa ideia era uma estupidez. Depois de mais de setenta quilómetros, não podíamos estar mais contentes com a nossa decisão. Os dias têm estado muito quentes e os nossos pés vão arejados, secos e felizes. Como um espanhol da Andaluzia nos fez questão de explicar, as bolhas aparecem por causa do suor. Ele já fez o caminho quinze vezes (há muitos viciados no caminho), já tentou todas as técnicas e teve sempre bolhas. Diz, a rir, que da próxima vez vai fazer como nós.

A verdade é que acabamos por ter sorte com o tempo. Só irá chover durante a manhã de amanhã e não será o suficiente para encharcar a base de cortiça das sandálias. Não sei como teria sido se tivéssemos apanhado chuva a sério. Assim, como foi, chegaremos a Santiago sem termos feito uma única bolha e o que a Carla vai divertida a criar no Instagram, terá sido superado.

A sete quilómetros de Caldas de Reis paramos num bar de estrada chamado Furancho A Seca. Está cheio de peregrinos, tal como todos ao longo do caminho. Ali perto ficam as Fervenzas do Barosa, umas cascatas que pelas fotos nas paredes no bar parecem apelativas. Dentro do bar discute-se se vale a pena fazer o desvio de dois quilómetros. Há quem decida continuar, mas nós sentimo-nos bem e optamos pelas cascatas. Juntamo-nos às sul-africanas que também querem fazer o desvio. A decisão é recompensada por um mergulhar de pés em água fria. A sensação é espetacular. De repente uma das sul-africanas não encontra o telemóvel. É giro como todos os peregrinos presentes se põe a procurar preocupados e solidários. Eu uso o serviço find your phone da Google e encontramos o aparelho dentro da sua mochila. Seja qual for a parte do mundo de onde somos, acontecem-nos a todos as mesmas coisas.

Ao chegarmos ao albergue Albor somos brindados com o selo mais bonito de todo o caminho. A dona do albergue apresenta uma dedicação a colocar o selo na credencial de peregrino só proporcional à quantidade de asneiras que diz por minuto. Quando nos mostra a camarata descobre que ainda não deu a ninguém o quarto do amor, uma pequena divisão com um beliche e alguma privacidade. Então olha para nós e diz-nos: é vosso.


“Quase que hibernei para ler este livro. Transportou-me para sítios e memórias bonitas, comoveu-me e fez-me sorrir.”

Ana Almeida sobre o romance Augusta

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