Caldas de Rei – Herbón, 21 km
Esta vai ser a manhã mais difícil de todas. Estamos determinados a passar a noite em Herbón e o receio de não conseguirmos ter vaga vai impor-nos um stress que ainda não tínhamos sentido. Várias pessoas contaram-nos que Herbón é um lugar especial, onde se vive o melhor do Caminho, mas que só tem trinta vagas que se ocupam por ordem de chegada. Há muitos peregrinos nestes dias e a nossa imaginação é fértil. Imaginamo-nos a fazer o desvio até ao Mosteiro só para descobrirmos que é tarde demais. Conversamos entre nós que se assim for, não há problema, que seguimos caminho. Estamos tão receosos de não conseguir lugar que fazemos um plano B e reservamos cama num albergue em Padrón. A verdade é que queremos mesmo ter esta experiência e por isso, num ato de loucura, acordamos antes das seis da manhã e forçamos a marcha para chegarmos o mais cedo possível.
A primeira hora é sempre a subir através do negrume de uma floresta. A Carla comenta que nunca na vida se aventuraria por uma floresta escura, a pé, a meio da noite. E, ainda assim, aqui estamos nós. Eu aceno, concordando em silêncio. A pouca energia que me anima está totalmente dedicada a não parar. Sinto-me tonto, assolado por um cansaço que me enjoa. A Carla percebe e tenta-me animar. Devemos esta quase a chegar a uma cafetaria e vais poder beber um dos teus cola-caos com café, diz ela.



Começa a chuviscar e a cafetaria aparece, finalmente. Estou desesperado para parar. São sete horas, mas apesar de ser essa a hora de abertura o estabelecimento continua fechado. Demoram dez minutos a abrir e apercebo-me que estou impaciente, como ainda não tinha estado. Atrás de nós, entra um canadiano com cerca de setenta anos que vem a fazer o caminho desde Lisboa. Conta-nos que os primeiros dias até chegar a Tomar foram horríveis. Foi abalroado por um carro porque o caminho passava numa via rápida e não havia espaço. Estou demasiado enfiado no meu pequeno drama e não lhe dou a devida atenção. Alguns quilómetros mais à frente seremos ultrapassados por ele que vem a contar a mesma história a dois rapazes do Porto. Ok, a história não era só por nós sermos de Lisboa. Ele ainda está mesmo zangado com o que lhe aconteceu e a precisar de ventilar.
Por volta das nove da manhã, paramos num bar em Valga chamado Buen Camino. Ao descobrir que têm sopa de lentilhas, o meu corpo reage com a certeza de que é exatamente o que eu preciso. Sorvo a sopa até à última gota e pela primeira vez, desde que me levantei, sinto-me bem, tenho os pés na terra e estou centrado no meu eixo. Faço questão de ir agradecer à dona do bar pela sua inesperada decisão de oferecer sopa de lentilhas logo pela manhã. Foi uma das muitas dádivas que recebi do caminho. A maior parte delas tão simples como uma sopa de lentilhas.

Voltamos a arrancar e sinto-me com outro ânimo. A minha fraqueza desapareceu. A Carla vai bem disposta, mas ela sempre foi a mais forte dos dois. A dada altura deixamos de seguir as setas amarelas e optamos pelas setas roxas que nos desviam para a direita. São três quilómetros sempre a subir, mas vamos alegres. De certeza que iremos ter lugar. Imagino algumas mochilas enfileiradas à porta do Mosteiro e peregrinos sentados à sombra a descansar. Mas não podem ter chegado trinta pessoas. Pois não? Chegamos a Herbón às onze da manhã e estranhamos não vemos ninguém. Na porta encontramos um sinal que diz “Completo”. Não podemos acreditar! Como é que pode estar completo? Nós fizemos um esforço tão grande. Quase ninguém nos ultrapassou. O desânimo só dura um minuto. O voluntário que está a receber os peregrinos aparece à porta e remove o sinal pedindo desculpa. Explica que é relativo a ontem, que se tinha esquecido de o tirar. Afinal fomos os primeiros.
A estadia em Herbón vai revelar-se realmente especial. Enquanto os peregrinos vão chegando, o padre José de setenta e seis anos, o franciscano mais novo de entre os três que ainda vivem no mosteiro, leva-nos a apanhar caquis, ou seja diospiros. Encho o meu chapéu e distribuo a fruta pelos peregrinos que estão sentados à espera que se abram as portas, o que só acontecerá pelas três da tarde. É na espera que começamos a criar os laços que se irão fortalecer ao longo desse dia e da manhã seguinte.



As portas abrem-se e somos distribuídos pelas antigas celas dos alunos que estudavam no mosteiro. São pequenos cubículos onde cabem beliches para duas pessoas. Há pessoas que não conseguem lugar e isso cria alguma tensão no voluntário que nos está a receber. Percebo que ele está a precisar de falar e junto-me a ele a beber uma cerveja preta 1906 na cozinha. Chama-se Juan e está ali durante quinze dias como voluntário. É ele que prepara as camas, que recebe as pessoas, que faz o jantar e o pequeno-almoço. Faz tudo sozinho. Diz que quer dar aos peregrinos tanto como recebeu dos muitos caminhos que fez. Em tom confidente, explica-me que todos começamos a vida com dois copos, um vazio de experiência e outro cheio de sorte. O segredo é ser capaz de encher o copo da experiência, sem esvaziar o da sorte.
Depois de instalados, assistimos a uma missa celebrada pelos três franciscanos. A cerimónia termina com uma oração que é lida em todas as línguas presentes: espanhol, português, alemão, inglês, francês, italiano, dinamarquês, polaco e eslovaco. A oração diz: sê feliz e faz os outros felizes. Olho em volta e vejo-nos todos a sorrir. Aqui abrir o coração ao outro é tão fácil.
Segue-se uma visita guiada pelo mosteiro com um guia que só fala espanhol. A Carla sempre voluntariosa oferece-se para traduzir para inglês e rapidamente passa-me a batata quente. É uma tarefa hercúlea. Estou há demasiadas horas acordado para conseguir fazer tradução simultânea de espanhol para inglês e atrapalho-me todo. Os outros peregrinos sorriem com empatia e fazem-me sinais de força. Eu aproveito e traduzo San Antonio de Padua para Santo António de Lisboa. O que dá direito a uma discussão saudável com o guia. Pelo meio descobrimos que o guia é um antigo aluno do mosteiro e é fascinante ouvi-lo contar como era viver ali. Imagino-o criança, a deslocar-se pelo mosteiro numa fila ordenada por alturas. A visita termina numa roda de mãos dadas e cada um de nós diz numa palavra o que é para si o Caminho.

O jantar é novamente sopa de lentilhas, mas eu não me queixo. Está maravilhoso e a companhia é perfeita. É só um jantar, mas parece que nos conhecemos há muito tempo. Tornamo-nos amigos de um argentino, com quem irei jantar em Barcelona três semanas mais tarde, de um canadiano com quem faremos o último dia juntos e a quem ainda estaremos a enviar mensagens semanas mais tarde e de um alemão que faz parte dos Clown Without Borders.
Apesar de nos termos levantado antes das seis da manhã, comigo a cair para o lado de cansaço, somos os últimos a ir deitar-nos. Não apetece nada que o dia acabe.

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“Augusta é uma história de auto-descoberta e superação que o Rodrigo de forma hábil e corajosa nos convida a desvendar.”
Diogo Girão sobre o romance Augusta
