Veloso

“Sou imortal até prova em contrário”, afirmaste.
Os teus olhos negros sorriam como quem sabe um segredo.
“Como assim? Não é essa a única certeza na vida, de que um dia todos morreremos?”
“Estou-te a dizer, sou imortal até prova em contrário.”
Sorri de volta como se fosse uma piada entre cúmplices que eu não estava a atingir. Num desejo pueril, também eu queria ser imortal. Mas não era isso, pois não?

Eu tenho medo de morrer. Sei que tu também tinhas. Todos temos. Não acredito em quem diz o contrário. Mas a maior parte de nós também tem medo de viver. Tu não. Sorrias como se a vida fosse uma grande aventura.

Lembro-me do dia em que descobri que tinhas um aneurisma. Admirei a tua calma. Provavelmente tinhas o coração acelerado, os pulmões apertados, a barriga em polvorosa e o corpo cansado de dormires mal. Se assim era, não o mostravas. Contaste-me tudo com a expressão de quem aceitou a realidade e foi capaz de seguir em frente. Admirei-te profundamente nesse momento.

Não foi um caso único. Admiro o tempo que dedicavas aos teus filhos. Quis copiar os teus dias de filhos únicos, mas nunca cheguei a fazê-lo. Admiro as tuas manhãs de supermercado a ouvir os podcasts que me recomendavas. Ainda hoje ouço o News Briefing do Financial Times. Admiro a quantidade de livros que lias. Admiro o teu empreendedorismo e a forma como te reinventaste, uma e outra vez. Admiro-te.

Ainda não fui capaz de apagar o teu número. Noutro dia agarrei no telefone para te ligar. Queria a tua opinião. Demorei meio segundo a lembrar-me que já aqui não estás.

Lembras-te da avó Chiquinha? A do romance que eu escrevi e sobre o qual me deste a tua opinião sincera, com propriedade e sem paninhos quentes. Honestidade com respeito, um presente tão difícil de obter, mas que tu oferecias com generosidade. Pois bem, a velhota dizia: antes de nascermos existimos nos sonhos de quem nos quer, depois de morrermos continuamos a existir nas memórias de quem em vida nos quis. Pois aqui continuas, amigo. Na memória deste ser humano que gostava de privar, aprender e rir contigo.

Tenho saudades tuas.

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