Chegar a casa. Abraçar a família. Dormir na sua cama. Coisas simples, mas tão distantes para Ulisses.
Assim começa o texto em que trabalhei durante o último ano, a convite da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. O desafio parecia simples: Rodrigo, inspira-te na coleção de moedas comemorativas da mitologia da INCM e escreve um texto para a coleção infantojuvenil ilustrada.
Imaginas a minha primeira reação? Um nervoso miudinho… O convite parecia-me distante da minha realidade. Como é que vou escrever para a Imprensa Nacional-Casa da Moeda!? Felizmente, quem me convidou não se deixou abalar perante a minha síndrome de impostor e eu acabei por ter uma conversa comigo próprio: «Deixa-te de tretas, Rodrigo. Tu adoras escrever e adoras mitologia. Diz sim à vida!»
E foi assim que comecei esta odisseia 🙂
O desafio tinha especificidades, e isso jogou a meu favor. É muito mais fácil escrever dentro de limites do que ter uma folha em branco. O livro era dedicado a três figuras mitológicas: o Unicórnio, Ulisses e a Fénix. Havia um limite de 40 000 caracteres, e eu tinha cerca de quatro meses para fechar uma versão completa do texto. Tomei duas decisões: inspirar-me no estilo dos grandes mitos gregos e ter presentes as preferências literárias dos meus filhos quando tinham doze anos. Havia que construir uma aventura com propósito e um toque de comédia.
Quando comecei a escrever as primeiras ideias, por coincidência, os meus filhos andavam viciados a ouvir os álbuns Epic: The Musical, uma adaptação da Odisseia de Homero para musical. Isso abriu espaço para passarmos os jantares a falar sobre o meu desafio. Como é que estas três figuras poderiam coexistir numa história? Decidi reler a Odisseia e apercebi-me que Ulisses (Odisseu) e os seus companheiros passam um ano inteiro na ilha de Circe a recuperar forças. Durante esse ano não acontece quase nada. Era o hiato perfeito para eu encaixar uma aventura. Mas se assim fosse porque é que Ulisses tinha contado todas as suas peripécias, exceto essa, aos Feácios? A busca de uma resposta plausível a essa pergunta acabou por tornar-se na força motriz de todo o enredo e deu origem ao subtítulo do livro: A história que Ulisses não contou.
Já tinha a localização temporal; faltava-me a geográfica. Sendo eu alfacinha, dei por mim a imaginar uma versão diferente da lenda que conta a fundação de Olissipo por Ulisses. Numa tentativa de desenvolver uma solução lógica e histórica para a vinda de Ulisses até Ofiússa (a região de Lisboa em 1200 a.C.), acabei por encontrar uma peça que resolvia o puzzle com elegância: Atégina, uma deusa da mitologia lusitana. Com todos estes ingredientes no caldeirão da minha imaginação, fechei-me rodeado por árvores no jardim da Gulbenkian e nos jardins da Bombarda e comecei a escrever a prosa que deu origem ao livro: A Fénix e o Unicórnio.
Ao contrário de Ulisses, comecei a minha odisseia sozinho, e os meus companheiros foram-se juntando ao longo do caminho até chegarmos a Ítaca todos juntos. De todas as pessoas envolvidas na conceção e produção deste livro, houve duas que tiveram um papel essencial na minha viagem.
A primeira foi a Ana Sá, editora da INCM. Confesso que só relaxei da síndrome de impostor quando ela me deu feedback de que o texto inicial estava bastante bem. Graças ao seu trabalho de curadora e cuidadora, acredito que o texto se tornou melhor do que “bastante bem”, e estou muito contente com o resultado final.
A segunda foi o Bernardo P. Carvalho, o outro autor deste livro, responsável pelas maravilhosas ilustrações que dão vida ao texto. O Bernardo é de outro Planeta chamado Tangerina, onde as ideias ganham vida em traços e cores. Tive a sorte de visitar o seu Planeta, e conhecer os seus generosos habitantes. Vim de lá deslumbrado. O Bernardo tinha começado a desenhar as primeiras imagens do nosso livro e eu apaixonei-me pelo que ele estava a criar. Foi nesse momento que percebi o privilégio que estava a viver: poder privar e aprender com um mestre.
Juntos fomos navegando, trocando ideias, palavras e bonecos, até que chegou o dia 15 de junho. Eu vinha coxo do Caminho de Santiago, sentei-me na Praça Vermelha da Feira do Livro de Lisboa, perante uma audiência de familiares, amigos e desconhecidos, e tive o privilégio de contar esta odisseia. Foi um momento feliz que me encheu a alma.
Têm me perguntado para que idade é o livro. Eu acho que é para qualquer idade. Por ser uma aventura mitológica ilustrada acaba por ter muitas camadas que funcionam para diferentes maturidades. Ainda assim, descobri que é especialmente indicado para miúdos que estão, ou acabaram há pouco tempo, o sexto ano, dado que tiveram de ler uma adaptação da Odisseia.
Se o quiseres comprar, podes encontrá-lo em qualquer uma das seguintes livrarias online: INCM, Wook, Almedina, FNAC, Bertrand, ou então numa das lojas físicas da INCM. Talvez esteja numa outra livraria perto de ti, mas não tenho forma de saber. Se o leres, adorava que me enviasses o teu feedback.
Boas aventuras.
(a ilustração que acompanha este artigo é da autoria do Bernardo P. Carvalho e é uma versão anterior à que acabou por ser utilizada no livro)
