— Tens que estar na estação de Aregos às vinte e cinquenta de sexta-feira — disse-me a Carla na segunda-feira passada. — Vão chamar o teu nome para te entregarem uma encomenda.
— És tu a encomenda? — perguntei eu.
Passei a semana toda a tentar descobrir como raio é que eu ia receber uma encomenda em Aregos — a mítica estação onde o Eça desembarcou para subir até Tormes. Estamos a falar de uma estação que sempre que lá fui estava fechada, apesar do comboio que faz Porto – Régua lá parar.
— Só se for o maquinista. Ou o revisor. Não estou a ver mais ninguém a trazer uma encomenda —disseram as minhas companheiras da hora de almoço quando partilhei com elas este mistério. Fui tentanto perceber com os locais como é que era possível receber-se uma encomenda em Aregos, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão.
Entretanto a minha querida irmã aproveitou uma viagem a Sangalhos para dar um pulinho de mais duas horas e veio visitar-me a Tormes. Desafiei-a a irmos jantar antes da hora da encomenda, mas ela preferiu depois. Queria ter tempo para se instalar. Acabou por chegar pelas dezoito horas e por isso sugeri aproveitarmos para antecipar o jantar. Havia tempo e eu não queria atrapalhar a cozinha do Pena Curva onde reservara uma mesa para dois. Mas ela continuou a insistir que preferia depois. Não percebi porquê, mas tudo bem. Não se diz que não à nossa irmã mais velha.
Chegadas as vinte e cinquenta, lá estávamos nós na plataforma dois à espera, que eu aprendi que a plataforma um de Aregos não tem utilidade (por agora…).
Para ajudar com o nervoso miudinho, eram vinte e uma e o comboio ainda não tinha chegado. A sorte é que a malta do Douro é simpática e um senhor informou-nos que o comboio já tinha saído do Marco (entenda-se Marco de Canavezes, que quem é local só diz Marco).
Passados dez minutos vimos o comboio a fazer a curva do Douro e só por isso já valeu a pena estar ali à espera. É cinematográfico. Bem, toda a região é cinematográfica. O comboio parou na plataforma e eu de ouvidos bem abertos, que já estou a ficar surdo, a tentar escutar o meu nome.
A primeira coisa em que reparo é na altura e depois nos inigualáveis caracóis da encomenda — o meu filho Leonardo. Avancei a passos largos e envolvi-o nos meus braços. O segundo grande abraço do dia. Não sabem o quão sôfrego eu estava de toque depois de duas semanas longe do meu mundo.
Este puto tinha decidido meter-se cinco horas num comboio para me vir visitar! Era o chuto de energia que eu precisava a meio desta aventura. Tinha a minha irmã e o meu filho durante dois dias.
Só faltava telefonar para o Pena Curva a avisar que estávamos atrasados e que afinal éramos três.


Que surpresa maravilhosa 🩵🩵🩵
GostarLiked by 1 person
Olá Rodrigo.
Obrigada pela partilha, adoro ler os teus textos e livros.
Aguardo com expectativa o lançamento do te u romance “Deus é imaginação”.
Continuação de muito sucesso na tua escrita e nunca desistas dos teus sonhos!
Beijinhos e muitas felicidades para toda a Família.
Um beijinho especial à Carla, tenho saudades dela.
Conceição Rosa (São), reformada EDP
GostarLiked by 1 person
Muito obrigado pelas tuas palavras, São.
GostarGostar
Obrigada!! Pois…cada vez que escreves para mim…eu sinto uma emoção/melodia …qus dá sentido…às duvidas que me habitam. Abraços da tia Dó
GostarLiked by 1 person