Abrir a janela de madeira e admirar o Douro a amanhecer.
Alongar no meu colchão de ginástica.
Sentar-me na minha cadeira.
Ver as letras surgir no meu ecrã de vinte e sete polegadas.
Comer cereais com leite de aveia na caneca de alumínio.
Estender a mão e comer cerejas.
Dizer bom dia à Rosinha, à Carla e à Anabela.
Tentar aproximar-me da gata preta e não conseguir.
Correr pela vinha.
Ouvir o chinfrim da bomba que puxa água para o esquentador.
Almoçar na cozinha da fundação.
Escutar os espíritos da Casa de Tormes.
Dormir a sesta na diagonal.
Ver mais letras surgir no meu ecrã de vinte e sete polegadas.
Fazer Rope Flow no pátio da casa do Lúcio.
Cruzar-me com a Graça e com o Maurício.
Cuidar dos limoeiros.
Ir buscar uma couve ao jardim.
Cozinhar num fogão de dois bicos.
Deitar-me num quarto com paredes de pedra.
Dormir na diagonal.
Dois dias fora de Tormes e senti saudades de tudo isto. Só não senti saudades dos melros a festejar as cerejas às cinco e meia da manhã.

