20. Rotina

  • Abrir a janela de madeira e admirar o Douro a amanhecer.
  • Alongar no meu colchão de ginástica.
  • Sentar-me na minha cadeira.
  • Ver as letras a surgir no meu ecrã de vinte e sete polegadas.
  • Comer cereais com leite de aveia na caneca de alumínio.
  • Estender a mão e comer cerejas.
  • Dizer bom dia à Rosinha, à Carla e à Anabela.
  • Tentar aproximar-me da gata preta e não conseguir.
  • Correr pela vinha.
  • Ouvir o chinfrim da bomba que puxa água para o esquentador.
  • Almoçar na cozinha da fundação.
  • Escutar os espíritos da Casa de Tormes.
  • Dormir a sesta na diagonal.
  • Ver mais letras a surgir no ecrã de vinte e sete polegadas.
  • Fazer rope flow no pátio da casa que não é minha.
  • Cruzar-me com a Graça e com o Maurício.
  • Cuidar dos limoeiros.
  • Ir buscar uma couve ao jardim.
  • Cozinhar num fogão de dois bicos.
  • Deitar-me num quarto com paredes de pedra.
  • Dormir na diagonal.

Dois dias fora de Tormes e senti saudades de tudo isto. Só não senti saudades dos melros a festejar as cerejas às cinco e meia da manhã. Para compensar tinha uma igreja a dez metros que tocava o sino de meia em meia hora das sete da manhã às dez da noite.

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