Como alfacinha de gema, havia de um dia escrever um conto para celebrar o nosso Santo António, o padroeiro das coisas perdidas. Aqui está ele. Desfrutem.
Um homem avança pelo corredor interminável de prateleiras. O seu passo tem ritmo, o eco a perder-se na imensidão do espaço. A pouca luz que entra pelas janelas altas ilumina os objetos, revelando uma grossa camada de pó. O Arquivo cheira a papel velho e ferro oxidado. O homem detém-se, abana a cabeça e debruça-se sobre uma etiqueta fora do sítio:
#002532016 – Pastelaria Sul América.
Pertence a um néon em forma de globo de um estabelecimento que já não existe. Repõe a etiqueta com um estalido e continua o seu caminho. Sobe umas escadas que rangem sob os seus pés e entra na receção. É uma sala estreita com um pé-direito baixo; no centro há uma velha mesa de madeira. Em cima do tampo estão três novos objetos. O homem senta-se na cadeira e observa-os. Escolhe o carregador de telemóvel e toca-lhe com a ponta dos dedos. A vibração é leve. Pega na sua caneta de aparo e escreve no catálogo:
#043752025
Carregador de telemóvel
Esquecido no Palácio das Galveias
Desejo: 4/10
Adiciona-lhe uma etiqueta de objeto volátil — o proprietário ainda não se deu ao trabalho de o procurar. Segundo o protocolo, deverá revisitá-lo dentro de um mês e perceber se o desejo se alterou. O segundo objeto é um livro escolar de matemática do nono ano. Folheia-o e observa que está todo rabiscado com gráficos e equações. Não sente qualquer vibração.
#043762025
Livro escolar de matemática 9º ano
Abandonado num banco de jardim junto ao Liceu Camões
Desejo: 0/10
Este objeto irá para o corredor dos inertes. Falta apenas processar o anel. Quando lhe toca, estremece e atira-o involuntariamente para o chão. O anel rodopia e o seu tilintar quebra o silêncio do Arquivo. O homem olha em volta, pisca os olhos e descobre que tem lágrimas no rosto. Levanta-se, põe as mãos atrás das costas e dá uns passos para trás e para a frente sem nunca perder de vista o anel.
Passa-se um minuto. Inspira fundo, ajeita os óculos, limpa as lágrimas e pega no objeto. A vibração é realmente impressionante, mas o mais estranho é haver uma emoção associada. Tristeza? Insatisfação? Não. É saudade. Não sabe porquê, mas o peso que sente no peito é muito claro. Pousa o objeto na mesa e volta a sentar-se. Pega na caneta, escreve #043772025, mas depois hesita. O sino da Sé de Lisboa toca a anunciar as cinco da tarde. O homem tem as mãos a tremer quando pousa a caneta e, pela primeira vez em décadas, não termina o registo. O objeto vai ter que esperar.
Levanta-se, abre uma porta diferente e atravessa a sala dos objetos persistentes. Passa por eles sem lhes dar atenção. Nem se apercebe que o #000472025 subiu para o nível de desejo nove. Entra no átrio, pega no casaco de linho escuro pendurado na parede e veste-o. Como é hábito, detém-se em frente ao grande espelho da entrada. Lembra-se da chegada do objeto, há noventa e dois anos; nunca foi reclamado. A moldura está oxidada e o vidro manchado em várias zonas, deformando a sua face, mas serve o propósito. Compõe a gravata com mãos trémulas; penteia-se e sai para a rua.
O Beco do Arco Escuro está vazio. Os pombos afastam-se enquanto desce os degraus com os seus sapatos gastos. Percorre a rua, entra no Café Milagre e fica de pé junto ao balcão — uma longa pedra de mármore com manchas de café que já não saem. Nas mesas estão sentados alguns clientes habituais.
— Boa tarde, Sr. Bulhões — saúda a Dona Palmira. — O de sempre?
O homem acena que sim. A Dona Palmira enche o manípulo com café acabado de moer e põe a máquina a funcionar. Na parede ao lado, há um retrato sépia do seu pai, uma presença incontornável de uma Alfama que já só existe na memória dos alfacinhas.
— Então, Sr. Bulhões, viu o final da Taça? — pergunta um dos clientes.
— Deixe o homem em paz, Sr. Sousa — diz Dona Palmira ao chegar com uma bica e uma nata. — Não vê que o Sr. Bulhões tem mais com que se preocupar? Diga lá Sr. Bulhões, quem é a felizarda?
— Desculpe? — pergunta o homem, sem perceber a que ela se refere.
— A felizarda a quem vai dar esse bonito anel. Aposto que não é cá do bairro. O senhor tem um ar tão jovem, Sr. Bulhões. Não faz sentido passar o resto da vida sozinho.
Só nesse momento o homem se apercebe de que trouxe consigo o objeto #043772025 e que está a brincar com ele no balcão. Não é suposto levar os objetos consigo para fora do Arquivo. Quando estão prontos para serem devolvidos, os objetos são processados na sala de despacho e eles encontram o caminho até aos seus donos. Pousa o anel no balcão. Dona Palmira relata a sua festa de casamento, a entrada na igreja de Santo António, ali mesmo ao cimo da rua. Quase sem perceber, o homem aproxima o anel do dedo anelar da mão esquerda. Hesita. Não está certo. Os objetos não são seus.
— Havia de ver a cara da minha prima Zulmira. Ela nunca…
— Tenho de ir — diz o homem e coloca uma moeda de dois euros no balcão.
— Então, mas nem tocou na nata.
O homem mete o anel no bolso. Tomou uma decisão e tem de ser já, antes que perca a coragem. Sai do café e sobe até ao largo da Sé. Como é habitual nos dias de Verão, um grupo de turistas escuta um guia que, em espanhol, explica a história de Santo António. Noutro dia talvez os tivesse cumprimentado, como se fosse uma personagem da narrativa, mas hoje segue sem parar e envereda pela Rua Augusto Rosa. Desvia-se de uma família e é brindado com o som estridente do elétrico 28 que vem a subir carregado de pessoas. Ao passar pelo Miradouro de Santa Luzia, o Tejo aparece com todo o seu esplendor, mas o homem nem olha. Foge da confusão, e quando avista a Igreja de São Vicente de Fora, vira em direção ao Largo da Graça.
O portão da Villa Souza está aberto e ele atravessa o túnel que desemboca num grande pátio interior. Há várias pessoas à janela e o homem dirige-se a uma mulher de avental que está a pôr roupa a secar, no primeiro andar do prédio indicado.
— Boa tarde, minha senhora. Procuro a Dona Isabel.
— Ó Isabel, assim vestido, deve ser cobrador do fraque! — grita uma vizinha.
— Venho da parte do Arquivo para devolver um objeto perdido — explica o homem.
— Entra, entra, eu abro-te a porta.
O trinco salta com um estalido seco e ele entra no prédio. Para na entrada, endireita o nó da gravata e respira fundo. Quando foi a última vez que entregou um objeto pessoalmente? Talvez, depois da implantação da República. Mas já não sabe ao certo — os dias misturam-se, como se fossem sempre o mesmo. Sobe as escadas e à porta está a mulher da varanda.
— Para trás, Tremoço — diz ela, empurrando um gato laranja para dentro de casa.
O seu cabelo é grisalho, apanhado num coque, com uma madeixa colada na testa pelo suor. Em torno dos seus olhos castanhos, tem rugas finas.
— És dos Correios? — pergunta ela. — A tua cara não me é estranha.
— Sou do Arquivo, Dona Isabel. Venho devolver o objeto que perdeu no autocarro.
— Queres uma limonada? Com este calor, deves estar a morrer dentro desse fato.
O homem surpreende-se ao dar por si a entrar sem pensar. Vasos de plástico com plantas alinham-se no chão e sobre os móveis. Na parede da sala, diferentes pratos pendurados formam um arranjo desigual. Uma prateleira está a abarrotar de molduras com fotografias de pessoas. O gato aproxima-se e roça-se nas calças do homem.
— Esse gato sabe muito — diz Isabel, regressando do corredor. — Aqui tens uma limonada fresquinha.
— Obrigado, Dona Isabel, mas não tenho sede.
— Deixa lá o dona. Trata-me só por Isabel. Ainda não cheguei aos setenta.
— Vim devolver-lhe o seu anel — diz o homem e apresenta-lhe o objeto #043772025.
— Pois, sabes… perdi-o a caminho da casa de penhores. Liguei para a Carris, sim, mas depois não fui. Deus sabe que não estava certo, vendê-lo.
— Confirma, portanto, que é seu?
Isabel, estende as mãos, mas em vez de pegar no anel, agarra a mão do homem e ele estremece. Isabel tem um toque quente e firme. Olha-o nos olhos e fecha-lhe a mão sobre o anel.
— Esse anel foi oferecido há muitos anos, à minha mãezinha, que Deus a tenha no Céu, durante um arraial de Santo António. O seu único amor verdadeiro, dizia ela às escondidas. Recorda-me o que faltou no casamento dos meus pais. Leva-o, por favor… Eu não o quero de volta.
— Mas…
— Tens a certeza de que eu não te conheço? Como é que te chamas?
— Fernando de Bulhões.
— Que giro, tens o mesmo nome do Santo António. Se calhar fui tua professora?
A vibração do anel continua forte. Não há dúvida sobre a saudade. Inquieto, o homem insiste:
— Está segura de que não quer o anel?
— Sim, tenho a certeza. Deixemos o anel seguir o seu caminho.
Resignado, sem saber o que dizer, pousa o copo de limonada num dos móveis, passa a mão pelo lombo do gato e murmura um agradecimento enquanto sai. Na rua, o homem segura o anel e observa-o. Como pôde enganar-se tanto? Sente, novamente, o irresistível apelo e acaba por ceder. O anel desliza pelo seu dedo, encaixando na perfeição. A vibração do objeto acalma até desaparecer por completo. Fernando respira fundo — escuta um acordeão ao longe, repara nas cores vibrantes dos enfeites e apercebe-se do cheiro a carvão a ser aceso. É como se tivesse aberto uma cortina e destapado Lisboa.
Lembra-se de um arraial em que, num impulso, oferecera o seu anel a uma mulher por quem estava apaixonado — a mãe de Isabel. No dia seguinte, assustara-se e refugiara-se nas rotinas do Arquivo. Ele próprio se tornara num objeto inerte, a acumular pó. É assim que, com o anel no dedo, Fernando de Bulhões, arquivista das coisas perdidas, se recorda, pela primeira vez em muito tempo, do que é sentir-se desejado.

Rodrigo, um bela história repleta de labirintos.
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Que bom que gostaste :)
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