Experimentar a adolescência no próprio cabelo

eu e os caracóis

Trinta e seis anos depois a minha família descobriu que eu tenho caracóis. Eu sabia que o meu cabelo não era liso – passei a vida a rapar o cabelo endemoninhado que tanto atrapalhava a manutenção de um ar socialmente apresentável. O que eu não sabia é que ao deixar crescer o cabelo se formariam cachos de caracóis. Ter realizado esta descoberta aos trinta e seis anos não fazia parte de nenhum plano, houve simplesmente um dia em que, em vez de me dirigir ao meu querido barbeiro de bairro, pensei:

e se eu deixasse crescer o cabelo?

Voltar a ser adolescente

Estarás a pensar que é pensamento de adolescente, e é. Só que eu nunca tinha permitido essa possibilidade. Em parte porque frequentei o Colégio Militar e em parte porque tenho este impulso de agradar os outros. Na minha família e círculo de amigos, cabelo comprido não é propriamente um indicador de sucesso. Pelo contrário. A verdade é que não tenho praticamente nenhuma referência de homens de cabelo comprido. Enquanto adolescente só tive um amigo de cabelo comprido que depois cresceu… Parece-me que no meu mundo existe mesmo a crença de que um homem de cabelo comprido é menos Homem (com h grande, que é como os homens de h grande se descrevem). As crenças têm a terrível mania de se imiscuírem no meu sistema nervoso e eu, inconscientemente, dou por mim a acreditar nelas. Por isso, sim, provavelmente esta decisão de deixar crescer o cabelo é um ato adolescente tardio. É uma das vantagens de ser adulto independente, posso ser adolescente se quiser. É que quando era adolescente e dependente não me deixavam ser infantil.

Enquanto estou a escrever há uma voz dentro de mim que me diz que deixar crescer o cabelo não é um tema que mereça um artigo num blog. Talvez… (eu gosto de dizer talvez a esta voz, assim ela não se sente contrariada e acalma-se). Talvez este artigo nasça da inquietação subjacente ao conflito natureza versus sociedade que o mero ato de deixar o cabelo crescer consegue suscitar. Numa visão grandiosa e épica do tema, os meus caracóis enfrentam as crenças sociais lutando pela possibilidade de eu ganhar clareza sobre o que em mim é inato e o que é adquirido. Talvez assim eu já me sinta um pouco mais confortável em partilhar contigo a loucura dos meus pensamentos sobre cabelos.

Marco Paulo

Voltando aos atos da adolescência. Ao deixar crescer o cabelo não sou só eu que expresso o adolescente que há em mim. Nestes meses de caracóis a pender-me da cabeça, quem está mais à vontade comigo tem-me chamado um pouco de tudo: Marco Paulo, Cotonete, Jesus Cristo, Urso … Quem está pouco à vontade não verbaliza, mas diz com o olhar. A minha mudança visual suscita nalgumas pessoas uma exigência de fidelidade a uma identidade de grupo, como se ainda estivéssemos num recreio e o grupo dos miúdos dominante se dedicasse a colocar alcunhas que definem uma linha: és dos nossos, não és dos nossos. Às vezes, quando estou mais sensível, esta exigência transporta-me para memórias dolorosas de quando me chamavam saloio e eu me sentia entre a espada de me querer integrar e a parede de querer respeitar a minha individualidade. Essas são as vezes em que sinto o impulso de ir rapar o cabelo e acabar com o sofrimento.

Felizmente o sofrimento associado a esta situação é muito reduzido (fazer psicoterapia há mais de três anos também ajuda) e eu consigo resistir ao impulso. Assim a experiência continua.

O conflito com a tribo

Um dos efeitos secundários do cabelo comprido é olhar-me ao espelho. Dou por mim a espreitar-me em todos os vidros espelhados dos prédios que há por Lisboa. Sinto uma necessidade enorme de garantir que os caracóis estão nos sítios certos. Sítios esses que não existem, dado o emaranhado selvagem com que crescem. É um impulso neurótico de tentar encontrar uma forma adequada para aquilo que naturalmente está a surgir no topo da minha cabeça. O meu cabelo tornou-se numa metáfora sobre a minha própria vida, e por isso é que é tão interessante para mim. Eu sempre tive uma necessidade de me sentir especial, ao mesmo tempo que tive a necessidade de agradar os outros. É um conflito entre necessidades que aprendi a resolver de forma subtil e diplomática. Com o cabelo passa-se o mesmo. Ao deixar surgir os caracóis estou a permitir aquilo que é natural em mim, e isso faz-me sentir único. Mas depois utilizo um amaciador de côco que me define os caracóis e me deixa o cabelo a cheirar bem, na esperança de que a tribo não me rejeite. Rudyard Kipling, o autor do Livro da Selva, disse numa entrevista em 1967:

“The individual has always had to struggle to keep from being overwhelmed by the tribe. To be your own man is hard business. If you try it, you will be lonely often, and sometimes frightened. But no price is too high to pay for the privilege of owning yourself.”

Rudyard Kipling

A afirmação de Kipling é inspiradora e, na linha da visão grandiosa e épica dos meus caracóis, o adolescente que há em mim pensa em deitar fora o amaciador de côco. Desde que eu seja eu próprio, não interessa se fico só! O problema é que se eu fico só não serei eu próprio, pois só me encontro na relação com o outro. Eu preciso da tribo para descobrir quem eu sou. Preciso do conflito com a tribo para criar o meu sentido de Eu. Mas também preciso do acolhimento da tribo para curar as minhas feridas. A tribo também tem uma responsabilidade nesta possibilidade que é cada um de nós ser ele próprio.

A tribo cá de casa

Há uma probabilidade de neste momento estares a revirar os olhos e a pensar:

Vá Rodrigo não sejas mariquinhas. Se queres ter o cabelo comprido, tem. Não precisas de escrever um artigo cheio de moralidade.

Eu sei. Só que eu faço parte dos que tendem a normalizar o outro. E os meus filhos estão-se a aproximar da adolescência. Cabummm! Mistura explosiva. Por isso, esta reflexão é para mim e para os tempos que se avizinham cá em casa.

A adolescência é uma aventura em busca de uma identidade. É um caminho tortuoso cheio de erupções, crises e angústias. E eu sei que vou ter de respirar muito. Esta minha experiência tem me dado uma referência interna de como eu gostaria que cuidassem da minha necessidade de me conhecer melhor. Acredito que essa referência me irá ajudar a contribuir para que a tribo cá de casa seja um campo organizador em vez de um campo opressor. Não há nada como experimentar na própria pele, ou no próprio cabelo.

30 opiniões sobre “Experimentar a adolescência no próprio cabelo

  1. Meu caro Rodrigo sobre este assunto estou um pouco embaraçado em termos de envio de comentário. “Esta minha experiência tem me dado uma referência interna de como eu gostaria que cuidassem da minha necessidade de me conhecer melhor.” Nesta frase está a base da minha meditação inicial sobre o assunto, como posso avaliar sem conhecer o Rodrigo? Até agora nestas nossas ligações, apenas por esta via, não se tem passado de feedback mínimo, talvez melhor, por agradecimento de normal simpatia, por isso temos de conseguir disponibilidade para conversar um pouco por aqui, Paço de Arcos, ou onde o Rodrigo achar melhor. A questão, ” (…) como eu gostaria que cuidassem da minha necessidade de me conhecer melhor.” ocorre a muitos seres humanos com vivências do género das do Rodrigo. Acredite que também me ocorre aos 81 anos com três filhos e cinco netos, um (o quarto mais velho) completa hoje 21 anos (já o parabenizei pelo likedin, bem gostar (e precisar) de me conhecer melhor para conseguir cumprir com sucesso na função e pessoal de cuidador informal permanente em tempo integral da minha mulher (DP/acinésia). A vida tem muito de bom estando a precisar de cada vez mais especialistas em Neurologia (área onde de certo modo o Rodrigo está a envolver-se) considerando que vivemos mais anos, portanto o que desejo ao Rodrigo é que deite fora o mais depressa possível o “amaciador de côco.” Um abraço, apertado, da maior consideração, António Pena.

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    1. Olá António.

      Confesso que gosto do cheiro do amaciador. Não sei se não o vou continuar a usar, mesmo depois de um dia cortar o cabelo.
      Aceito o desafio de nos encontrarmos. Acho que seria muito interessante passarmos a uma conversa mais real, sem o teclado a intrometer-se pelo meio. Falamos pelo email para combinar.

      Um abraço
      Rodrigo

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  2. Já não te via há algum tempo (nem à Tribo lá de casa) e como tantos outros que descreves também eu quando te vi fiquei surpreso com os teus caracois. Acontece que foi uma surpresa das boas e que nos faz sentir bem! Comentavamos na Tribo lá de casa o quanto gostamos de te encontrar e o bem que te ficam os caracois. Um abraço!

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  3. Há uns anos atrás, depois de uma vida inteira de cabelos compridos, resolvi no dia da criança (por acaso ou não) cortar o cabelo curto “à rapazinho”. É só cabelo – só que não (como dizem os adolescentes agora). Fiquei mesmo gira, o rosto teve espaço para se mostrar, os olhos cresceram mais e mais do que isso, senti-me diferente e especial e com uma pinta do caraças. Mas ouvi de tudo. Comentários elogiosos, que me envaideceram, comentários favoráveis mas claramente pouco sinceros – que me fizeram pôr em causa o que tinha feito, gente que disse: “pareces uma francesa” ou “pareces uma lésbica” ou a conjugação das duas anteriores. A verdade é que estava super vaidosa e orgulhosa do meu ato de rebeldia (achei-me bué rebelde) e honestamente acho que me ficava mesmo bem. Mas a verdade é que passei a maquilhar-me mais, como se a falta de cabelo me destituísse de uma identidade feminina e porque não queria parecer “um rapazinho”. Estava para o eyeliner como tu estás para o amaciador de côco 🙂 A família torceu um pouco o nariz (tirando o meu querido avô, que verdadeiramente adorou), as amigas…acho que senti uns mixed feelings…
    Obrigada pela partilha, identifiquei-me muito 🙂

    Beijinhos

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    1. Um dia também quero ser um desses avôs que vê mais longe e que gosta dos netos incondicionalmente.

      Obrigado por partilhares a tua história. É bom saber que não estamos sozinhos.

      Beijinhos
      Rodrigo

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  4. Olá, há partes no teu texto que parecem escritas ou pelo menos pensadas por mim. Parabéns e obrigada.
    Já me tinha esquecido de como é bom ter esta sensação, ouvir ou ler algo que descreve ao pormenor aquilo que pensamos ou vivemos mas sermos nós os autores.
    Já agora, em relação aos cabelos, se quiseres um belo cabelo liso, caído e sem graça, podemos sempre trocar.
    (desculpa o tratamento pouco formal, mas sem te conhecer sinto que já te conheço)
    Flávia

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  5. Gostei desta outra forma de questionar a nossa ousadia! E saber, depois de todos estes textos, que compartilhámos uma única cor de farda (já que fui do IO)… Como mulher não posso opinar muito sobre a questão de deixar o cabelo crescer mas vejo-o da mesma forma que nós, mulheres, quando cortamos o nosso numa atitude de ousadia….umas vezes corre bem, outras nem por isso e o arrependimento surge assim que cai a primeira mecha de cabelos….

    Até ao próximo abraço, Cat

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  6. Rodrigo,
    esbarrei numa das páginas de Facebook e passei a seguir os teus artigos por aqui. a questão do cabelo é-me muito querida. Desde pequena que luto com uma selva de caracóis e “jeitos” e com a vontade de ter uma farta cabeleira, qual princesa “Brave”, ou o impulso – normalmente após levantar-me – de cortar o cabelo bem curtinho só para não dar trabalho.
    Tive já dois ou três momentos em que o cortei e senti-me poderosa, irreverente, não tanto pela atitude em si (mas também, claro), mas pelo gozo que me dava responder aos tais comentários menos simpáticos de narizes torcidos e espanto – quase todos de mulheres, note-se.
    A tentativa de deixar crescer o cabelo para quem tem caracóis é dura (“I feel you, brother!”), pois nem sempre eles colaboram, alinhando-se de forma harmoniosa, naquele jeito despenteado/giro que ansiamos; é mais habitual presentearem-nos com acordares de susto e de “O que é que eu faço ao cabelo hoje?!”, enquanto listamos mentalmente todos os produtos de tratamento e definição de caracóis que possuímos no armário (sobrelotado) da casa de banho.

    Obrigada por este texto e por todos os outros e… CORAGEM!

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  7. Claramente adolescência. Bem me lembro nos meus 14/16 anos a olhar para todos os reflexos….
    Mas acho que isso é inerente a qualquer mudança visual mais disruptiva, não querendo tirar qualquer valor à tua farta e reluzente cabeleira.
    abraço

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  8. Gostei muito do texto 😊 a verdade é que somos seres sociais e precisamos de nos relacionar. É engraçado que tendo em conta a tua idade, que é a mesma de um dos meus irmãos, ele e os amigos tinham todos cabelo comprido na adolescência. Era moda e ele também tinha uns belos cachos 😊 beijinhos

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  9. Olá Rodrigo,
    Vê lá como são as coisas. Tu a quereres deixar crescer o cabelo e eu a querer cortar quase raso. Mas não me deixam nem os mais velhos nem os mais novos: que fico pior sem cabelo do que com o pouco que já tenho. Ou seja não sou livre de fazer a experiência. Sê tu livre e vai em frente. Mas acautela-te, tens de comprar litros de champô, passares meia hora a secar e, pior de tudo, deixar de ser conhecido no barbeiro. Não vai ser fácil, mas tu és forte.
    Abraço,
    JG

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    1. Ahahahah. Isso de deixar de ser conhecido no barbeiro só não é verdade porque o meu filho continua a cortar o dele. Vou é ficar ainda mais conhecido, porque o barbeiro vai andar doido para me rapar o cabelo. Obrigado pelo comentário. Abraço Jorge.

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  10. Este texto lembrou-me quando eu tinha 12 anos e resolvi(sem avisar ninguém) cortar o cabelo á Punk rapado de um lado e aos quadrados do outro…Claro que a minha Mãe ia tendo um ataque cardíaco 😁 É sempre melhor deixarmos estas decisões para quando somos adultos, responsáveis, livres e independentes…Gostei do cabelo!!!! E do artigo! Abraços na alma.

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  11. Olá Rodrigo! Que texto engraçado, leve e profundo ao mesmo tempo, que toca em assuntos com que todos lidamos, mais ou menos conscientes dos mesmos. Gosto muito da tua escrita 🙂 revi-me em imensa coisa! Também eu por volta dessa idade descobri (pela minha querida namorada) que os meus cabelos são ondulados e não lisos.. Toda a minha vida tinha usado champôs para cabelos lisos!! Para mim o desafio é mais rapar o cabelo, quem sabe um dia.. 🙂 um abraço e muito obrigado por estas partilhas que nos fazem sentir pessoas mais ‘normais’.. Ou não 😉

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  12. Olá, Rodrigo também eu tenho andado tão ocupada que só hoje tive tempo para Te ler. E como já não é novidade Adorei! Consegues sempre surpreender-me. Daquilo que parece simples, tiras sempre uma lição de Vida e essa capacidade é Fantástica. Quanto ao cabelo que usas, para mim que gosto tanto de ti é-me indiferente, mas acredito que para ti, seja um grande desafio que te levará sem sombra de dúvida, a um Caminho cheio de novas descobertas e a um conhecimento maior da tua própria essência. Beijinho

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  13. A reflexão sobre o homem e a tribo é gira e é um tema importante na filosofia. Gostei da tua análise disso.
    No Verão em que saí do Colégio pensei “Agora vou deixar crescer o cabelo, porque me apetece”. Mas a ideia não durou mais que 3 meses. Em Outubro cortei-o novamente e não voltei a ter tendências para isso. A razão principal foi o achar que esteticamente era muito pior 😉 E os meus comentários aos teus caracóis são só nesses sentido: se te sentes bem com eles, ou é algo que te apetece fazer, boa! Ainda bem. Mas o cabelo curto fica-te melhor, ò Marco Paulo 😉

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