Papá, tu és um hacker noob!

Papá, tu és um hacker noob!”, disse o Leonardo depois de me ter visto na rua agarrado a um telemóvel, sem me aperceber que ele e a sua turma estavam a passar à minha frente de camioneta. Ele e um amigo estavam a dar alcunhas aos adultos por quem passavam. A maioria foi apelidada de empresário, mas eu, porque estava agarrado ao telemóvel e não os vi passar, ganhei este nome: hacker noob. Eles inventaram-no, mas aparentemente o termo existe mesmo.

Ironicamente ganhei esta alcunha dias depois de ter escrito um artigo onde partilho que dar um telemóvel a uma criança é como dar uma feijoada a um bebé. É irónico, porque ando para aqui a refletir sobre o impacto da tecnologia no comportamento dos meus filhos, quando não sou capaz de ter uma relação saudável com o raio da máquina.

Talvez estes sejam os maiores medos que eu tenho em relação aos meus filhos. Que eles não venham a tornar-se uma melhor versão de mim, que fiquem presos nas armadilhas das quais eu não consigo escapar. Neste caso, que eles, tal como eu, fiquem viciados no telemóvel.

Ecrãs que nos seduzem

A minha preocupação com este tema começou há muitos anos. Lembro-me de ver o Leonardo dirigir-se às vitrines digitais plantadas no meio dos centros comerciais e com a sua pequenina mão mexer no vidro à espera que algo interativo acontecesse. Parte de mim maravilhava-se com a sua capacidade de imaginar o futuro, a outra parte assustava-se com a atração dos ecrãs.

Do receio que os ecrãs roubassem espaço ao resto da vida cá em casa nasceu a regra que durante a semana as crianças não têm acesso a eles (televisão, Ipad, computador, etc…). Esta regra já é tão antiga que não é discutida. Acredito que lhes trouxe espaço para os livros, jogos de tabuleiro e simples brincadeiras de imaginação entre eles.

E agora o hacker noob vê-se perante um novo desafio. Chegou a hora de o Leonardo ter, pela primeira vez, um ecrã pessoal e suficientemente pequeno para estar no seu bolso, sempre consigo.

E se simplesmente não lhe déssemos o telemóvel?

A taxa de penetração de telemóveis em Portugal entre os 15 e os 44 anos ronda os 100%. Atualmente não há adolescência sem telemóvel. Um adolescente sem capacidade de se encontrar e comunicar com os amigos no mundo digital, está out. Eu não quero isso para o Leonardo. Apesar de todas as considerações que eu possa ter, nós vivemos nesta sociedade e é importante que ele se sinta incluído.

Quero também que ele seja cada vez mais autónomo e que possa ir e vir sozinho da escola. O telemóvel permite que nos informe se tudo correu bem, sem que passemos o resto do dia angustiados com os riscos desse percurso. O coração agradece.

Então se ele vai mesmo ter um telemóvel há que ver isso como uma oportunidade.

Uma oportunidade para toda a família

O psiquiatra Daniel Sampaio diz que o telemóvel deve ser dado por volta dos dez anos, com parcimónia e regras desde o princípio. Eu concordo e acrescento que essas regras se deveriam manter por toda a vida. Eu beneficiaria muito delas.

Há uns anos, já eu tinha começado a fazer psicoterapia, a Carla comentou que eu levava todos os dias um amante para a cama – o meu telemóvel. Comecei por refilar que não era verdade… mas era. Sem dar por isso eu deitava-me agarrado à máquina e ao acordar a primeira coisa que fazia era espreitar a ver se havia mensagens.

Para combater esta dependência defini a regra de que o meu telemóvel não entra no nosso quarto. A vantagem da regra é que não dou por mim a negociar comigo mesmo se é ou não importante estender o braço para ver se recebi uma mensagem. Simplesmente, não tenho o telemóvel comigo quando me vou deitar e quando acordo.

Claro que como não há nenhum adulto a supervisionar-me, de vez em quando eu baldo-me e infrinjo a regra. Nada de grave bom aluno bonzinho (isto sou eu a falar comigo próprio).

Pequenas regras como esta ajudam a criar limites saudáveis à tecnologia. Temos conversado sobre essas regras e queremos implementar a de não se utilizarem telemóveis à mesa, por mais oportuno ou urgente que possa parecer. Será uma forma de defender o antigo e sábio ritual português do convívio à refeição. Até nos imagino a ter uma taça na sala, com quatro cabos usb, onde todos deixamos os telemóveis para reduzir a tentação.

Quando publiquei o primeiro artigo sobre este tema, recebi vários comentários no blog e por email. Essa partilha levou-me a ampliar a minha reflexão e a encontrar os pensamentos do Daniel Sampaio. Diz ele sobre a negociação entre pais e filhos adolescentes:

É importante que os pais percebam que este é um diálogo e uma negociação em que não podem perder o pé, e que assenta num “amor firme”.

Daniel Sampaio

Aceitação

Eu concordo com esta ideia do “amor firme”. Escrevi sobre ela no artigo “Aprender a ser pai” onde defendo que a parentalidade é um campo organizador onde deve existir Limites e Amor. Mas agora que estou à beira de entrar na adolescência dos meus filhos, gostava de acrescentar a palavra Aceitação.

Estamos cada vez mais próximos da encruzilhada em que eles seguirão o seu caminho. Perante o desconhecido e a impossibilidade de controlar tudo, há que confiar que fizemos e estamos a fazer o melhor que sabemos. Mas, acima de tudo, há que aceitar que a vida é deles e que as escolhas serão suas. Talvez essa seja a coisa mais importante que temos todos de aprender, pais e adolescentes.

Obrigado por todos os comentários e emails que me enviaram sobre este tema. É exatamente para estabelecer este diálogo que eu escrevo artigos partilhando a minha realidade interna e externa.

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9 opiniões sobre “Papá, tu és um hacker noob!

  1. Bom dia caro Rodrigo,
    Efetivamente a técnologia é algo que nos satisfaz a todos em determinados pontos, mas com a mesma facilidade nos assusta (sendo pais está claro 🙂 ).
    Tenho uma filha de 11 anos (12 em Agosto) e acabámos por lhe dar um telemóvel quando fez os 11 anos. Claro está que andei durante 2 meses a ver e testar aplicações de controlo parental a fim de tentar controlar os conteúdos/tentações que lhe pudessem ser apresentadas, considerando que era o seu primeiro telemovel. Verdade que também serviu para que (inconsientemente ou não) pudesse ter acesso ás aplicações que ela instalava, controlar os numeros com os quais ela possa receber ou efetuar contactos, e ainda (caso necessário) colocar um controlo em termos de quando (horas) o mesmo estaria disponivel para ser utilizado por ela.
    Creio que esta preocupação passará pela cabeça de todos os papás e mamãs, mas será que é saudável para nós?
    Para os nossos filhos (no meu caso para a minha filha), ela sabe que o pai controla para quem ela pode ou não ligar/enviar SMS’s, sendo que quando ela tem um novo amigo pede-me para adicionar o referido numero á aplicação de controlo parental, sabe ainda que também se controla as aplicações que pode aceder ou não e ainda que algumas aplicações não aparecem para ela instalar devido á sua idade. Ela vive bem com isso (pelo menos o meu subconsciente quer acreditar que sim), mas os seus amigos estão sempre a dizer-lhe que “…o teu pai não te deixa fazer isto ou aquilo no teu telemovel? …”
    Serei um pai com cautela/medos a mais? Serei um pai galinha? Será que a minha preocupação é saudável ou doentia?
    Na minha opinião creio apenas tratar-se de uma preocupação de PAI para com os seus filhos e de os querer proteger o melhor possivel. Mas será que com isto os estou a preparar para o futuro em que o pai não os vai proteger da mesma forma? Em que o pai não vai estar presente da mesma maneira, até porque eles vão crescer e ter a sua vida própria?

    Preocupações de um PAI, simplesmente pai que ama os seus filhos 🙂

    Muito obrigado pelas suas partilhas.

    Abraço.
    Atenciosamente,
    Nuno Graça

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    1. Olá Nuno.

      Obrigado pela partilha autêntica. Não acredito que exista uma forma certa de fazer as coisas em relação aos nossos filhos. Os filhos são todos diferentes e os pais também. Se o que te move é quereres o melhor para a tua filha, isso para mim já é um bom princípio.

      O tema do controlo parental é realmente delicado. Onde é que estão os limites? A tua filha estar de acordo com as limitações que colocaste é bom sinal. Sugiro que vás negociando com ela e removendo o controlo. Podes assim dar-lhe uma experiência gradual de responsabilidade/liberdade.

      A verdade é que há-de chegar o dia em que os nossos filhos terão toda a liberdade para fazerem o que quiserem com o telemóvel. Terem a oportunidade de ir ganhando essa liberdade com parcimónia também é uma possibilidade válida.

      E não te preocupes com o que os outros miúdos lhe dizem. Isso faz parte da pressão de grupo na adolescência. Mais importante é estar atento a como é que ela lida com essa pressão.

      Abraço
      Rodrigo

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  2. Realmente é preocupante esta questão que levantas se atendermos a que o Daniel Sampaio além de dizer que o Tm é uma extensão do corpo, diz mais, que é uma extensão do cérebro! Logo tem de haver algumas regras, que são as que enunciaste. Não há Tm no quarto nem à mesa. De resto deixemos funcionar a educação em geral que transmitimos, sobretudo mais pelo exemplo do que pela conversa. Não se passa o mesmo em relação à droga e ao álcool? Confiemos, pois!
    Abraço,
    JG

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  3. Bom texto, como sempre. Mas não concordo com os argumentos de dar telemovel aos 10 anos porque todos têm e porque um dia vai ter.

    Acho que não há pressa … têm acesso a todo o tipo de tecnología sem ter o proprio telemovel. Quando tiver maturidade ou precisar porque anda sozinho para a escola sao boas alturas para dar esse presente.

    Continua a escrever! Obg!

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    1. Obrigado pelo comentário Ricardo. É uma boa inquietação que colocas. Dar algo a um filho só porque todos têm, realmente é um mau princípio. Há que estar atento. Se ele se sentir excluído por não ter, é importante cuidar disso. Uma dose de frustração é saudável, demasiada não é.
      Abraço

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  4. Meu caro Rodrigo o assunto foi trabalhado há pouco tempo sendo favorável à oferta de telemóvel pelos 10/11 anos, ou seja, na entrada do quinto ano de escolaridade. Quanto ao controlo da utilização também considero que se deve fazer não só nos jovens ainda muito jovens como é o caso do Leonardo, mas de todos nós de 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80 e mais anos. Em termos académicos fiz uma comunicação sobre o assunto em 2017 (Universidade de Aveiro) e este ano submeti uma proposta (485 palavras) para participar no VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo a realizar em 22 e 23 de novembro na Universidade do Porto (Faculdade de Letras) que tem a ver com o assunto de que estamos a falar. A comunicação intitula-se “CONVIVER COM O CIBERJORNALISMO ASSUMINDO NOVA LITERACIA MEDIÁTICA” e vai no sentido das palavras chave “comunicação; imediatismo; notícias falsas; algoritmos”. O resultado da avaliação é conhecido até 30 de julho, no caso de ser aceite entro em contacto com o Rodrigo sobre a conveniência em adaptar uma parte aos jovens de 10/11/12 anos. Naturalmente, como o Rodrigo vai conhecendo, para mim o controlo da utilização daqueles meios passa pelo domínio de outra literacia mediática, que me parece vital para compreender e ultrapassar os enviesamentos por disponibilidade de informação e por enquadramento praticados nos órgãos de comunicação social e por consumidores e comentadores através de e-mails, mensagens celulares, blogues e outros sistemas eletrónicos onde divulgam experiências pessoais e opiniões.
    Enfim… vamos trabalhando o assunto, mas considero que no caso do Rodrigo, para enfrentar o crescimento dos filhos a ritmo de certo modo controlado com inspiração (embora sujeita a adaptação) da educação do Colégio Militar tens mesmo de dar o exemplo assumindo o seu próprio controlo por forma a nunca poder ser comparado a ser humano “hacker noob”. Um abraço da maior consideração.

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