Dia 1 – Buen Camino

Fui muito feliz durante o Caminho de Santiago. Lembro-me de estar sentado numa esplanada em O Porriño a beber uma 1906, no final da nossa primeira etapa, e comentar com a Carla que estava a adorar e ainda estávamos no primeiro dia. Disse-o com o sorriso inocente de uma criança entusiasmada que acabou de entrar num parque de diversões e sabe que ainda tem o dia todo pela frente. Quando, no final, chegámos ao nosso quarto em Santiago de Compostela tínhamos à nossa espera uma mensagem que dizia assim:

Se suele decir que el camino se vive tres veces, cuando se sueña, cuando se hace y especialmente cuando se recuerda.

Este artigo é a expressão desta terceira vivência, a da memória. Os cento e vinte e cinco quilómetros transformaram-se em cinco mil palavras para serem lidas ao longo de seis etapas, as mesmas que percorremos durante o caminho. Decidi dividir o texto em seis artigos dando-te a possibilidade de os saboreares como se estivesses a acompanhar-nos ao longo dos nossos seis dias de viagem. Tal como cada peregrino faz o Caminho ao seu ritmo, também esta partilha é para ser desfrutada no tempo que te apetecer. Se leres cada etapa até ao fim, deixa-me um comentário. É sempre bom quando abrimos o nosso coração e o outro abre o seu em resposta. Essa foi uma das dádivas de fazer o caminho. Espero que a encontres também aqui. Buen Camino!


Valença – O Porriño, 21 km

Acordo com o intenso cheiro a bacon que se intrometeu no meu sono. Não se faz isso a um vegetariano. Ainda assim, não consigo reunir a força de vontade para descer do beliche e ir até à zona comum pedir aos italianos para fazerem silêncio. Viro-me para o lado e volto a adormecer. Combinámos acordar às seis da manhã e eu preciso de dormir as minhas oito horas para ficar bem. Acordo com o alarme da Carla, mas ainda são cinco da manhã. O telemóvel dela decidiu passar para o outro lado da fronteira antes de nós e assumir-se espanhol. Tocou uma hora mais cedo. Que se lixe. Carla, vamos? Vamos. Tomamos o pequeno-almoço e começamos a andar. É pelo melhor. Essa hora antecipada vai valer ouro quando mais tarde o calor apertar. Mas isso é mais tarde, ao sairmos do hostel, o frio infiltra-se e as mãos gelam com a neblina.

Atravessamos a ponte sobre o rio Minho e não consigo parar de sorrir. Estamos a fazer o Caminho! Há meses que sonhava com este momento. Excitados com a aventura, entramos em Espanha e procuramos pelas setas amarelas que nos guiam. À medida que o dia amanhece começamos a cruzar-nos com mais peregrinos. Buen camino, dizem-nos. E essa torna-se a frase mais ouvida destes dias. Duas palavras onde cabem todas as línguas do mundo. Dizem buen camino e eu ouço: Força, estamos juntos! Sinto-me parte de uma tribo que tem em comum estar a caminho. Nessa noite, haverá uma amiga que nos perguntará porque é que fomos fazer o Caminho de Santiago. É uma boa pergunta que os peregrinos gostam de colocar uns aos outros. A nossa resposta é clara. Estamos ali para celebrar dezanove anos a caminhar lado a lado. O Caminho é a metáfora perfeita. Há espaço para tudo, para conversas profundas, para conversas superficiais e para o silêncio, para a distância e para a proximidade. No Caminho cada passo é um sim à vida. A pergunta é boa, porque as razões para fazer o Caminho são tantas quantos peregrinos.

Dizem que o Caminho são as pessoas, mas durante a nossa primeira manhã ainda me sinto tímido. Há um grupo de quatro raparigas que passam por nós e percebo que se conheceram ali. Sinto vontade de experienciar o encontro com pessoas desconhecidas, mas ainda não encontrei o espaço interno para meter conversa. Já é de dia e a fome volta a dar sinais, pelo que decidimos parar na primeira cafetaria que encontramos. Infelizmente está a abarrotar de peregrinos. Controlamos o desejo de uma bebida quente e andamos mais um pouco até encontrarmos um lugar vazio. Não vai estar vazio durante muito tempo, atrás de nós vem um rio que já transbordou a primeira cafetaria e prepara-se para transbordar esta.

Enquanto bebemos um americano lançamo-nos um desafio: conhecer novas pessoas durante a próxima parte do dia. Umas centenas de metros mais tarde, ultrapassamos a timidez e fazemos os nossos primeiros amigos do Caminho. Um grupo de cinco portugueses com quem, num verdadeiro clássico português, descobrimos que temos um amigo em comum. Três dias mais tarde haveremos de jantar juntos em Pontevedra e o clássico adensar-se-à ao descobrirmos que a madrinha de casamento da Carla é também madrinha de casamento da Rute, uma das pessoas do grupo. Ninguém quererá acreditar na coincidência. O Luís Cadete, um veterano dos caminhos, irá revelar-se-à o nosso Gandalf oferecendo-nos pérolas de sabedoria à medida que nos cruzamos. É assim que iremos descobrir Herbón, a sombra do Peregrino em Santiago e veremos a Catedral de pernas para baixo.

É uma da tarde quando chegamos ao nosso destino: O Porriño. Percorremos vinte e um quilómetros e estamos bem. Fazemos check-in no albergue Sendasur e vamos em busca de um bar de tapas para almoçar. A cidade está em alvoroço. Há uma procissão a acontecer e a rua central está cheia de gente. Esse primeiro almoço no caminho não é digno de memória. Ao levantarmo-nos sentimos o cansaço das pernas. Parece que me ataram pesos e o corpo tem dificuldade em lutar contra a gravidade. Em Espanha sê espanhol. São quatro da tarde e as ruas, entretanto, ficaram desertas, percebemos a dica e decidimos juntar-nos à sesta que parece que toda a cidade decidiu fazer.

Antes de nos deitarmos, aproveitamos para tomar banho e lavar a roupa. Faço-o entrando vestido no duche. Só trouxemos um sabonete. Serve para esfregar a t-shirt e as cuecas e depois o corpo e o cabelo. Pomos a roupa a secar tentando aproveitar o sol tórrido que entretanto se pôs. Iremos precisar daquela roupa para o dia seguinte. Deitamo-nos no beliche e eu durmo uma hora. A Carla por mais que tente não vai nunca conseguir dormir a sesta. O barulho e a luz não a deixam.

Quando voltamos à rua para tentar jantar qualquer coisa parece que O Porriño está a apresentar um truque de ilusionismo. Há vários camiões a fazer manobras impossíveis nas ruas do centro histórico. Quando regressarmos do jantar iremos descobrir que são palcos e que a festa se irá prolongar pela noite fora. Em menos de uma hora transformarão a cidade numa grande feira popular. Nós não iremos aproveitar nada disso. Queremos deitar-nos cedo para nos pormos a caminho às seis da manhã. Hoje, ao falarmos com outras pessoas, decidimos mudar os nossos planos originais e em vez de dormirmos em Redondela, vamos fazer mais oito quilómetros e parar em Pontesampaio. Dizem que as vieiras, ali, valem mesmo a pena.


“Os ritmos e labirintos, a música, os cheiros e um poeta que corre por dentro das palavras.”

Francisco Rosa sobre o romance Augusta

2 opiniões sobre “Dia 1 – Buen Camino

  1. Porque se faz o caminho de Santiago? Respondo como os alpinistas sobre a montanha: -porque está lá! Mas num caso e noutro há que juntar algo de espiritual, ou os deuses das alturas, ou o santo que veio de barca, de muito longe, para mitificar em Santiago. Já subi uma serra, em grupo, e penso que percebo as emoções destes desafios. Um objectivo assumido em grupo alimenta o espírito e o corpo.

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  2. Eu fiz o caminho há muitos anos e na primavera a natureza era uma maravilha! O que eu mais gostei foi de que é um regresso a naturalidade do tempo vamos andando vamos cada um ao seu ritmo esperamos por uns encontramos outros e é tudo divido com uma com uma naturalidade do tempo que é o mais basilar de nós! Fui num grupo com alguns motivos espirituais algumas pausas para isso mas parece-me que um caminho a dois também será fantástico!

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