Dia 6 – Boa Vida

Herbón – Santiago de Compostela, 20 km

A vontade de ficar em Herbón leva-nos a atrasar a partida. Estamos a viver o misto de querermos chegar ao fim, mas não querermos que o caminho termine. Olhamos para trás e temos a sensação de que os dias passaram a caminhar, saborosos, cheios de novidade. Quão diferente tem sido esta semana quando comparada com uma semana de trabalho em que as rotinas e as reuniões trucidam os minutos. Tem sido uma semana memorável e não apetece que acabe. Fantasiamos continuar a caminhar mais uns dias, um mês, um ano, para sempre.

Atrasamos a partida até não podermos mais. É o nosso arranque mais tardio, são nove da manhã quando finalmente nos despedimos de Herbón. Juan, o voluntário, dá-me um abraço e segreda-me que Herbón é especial porque é dos poucos lugares onde tanto se enche o copo da experiência como o da sorte. Olho para dentro de mim próprio e sei que ele está a falar a verdade. Sinto-me mais experiente e mais sortudo.

A meio da manhã somos alcançados por Connor, o canadiano. Ele conseguiu sair ainda mais tarde de Herbón. Vem com um ar nostálgico. O Connor está, há um ano, a viajar pelo mundo. Antes de regressar a casa decidiu fazer o Caminho de Santiago. Achou que seria o final perfeito, mas agora que o fim se aproxima está a ser difícil fechar este capítulo da sua vida.

Chegamos os três juntos a Santiago de Compostela às cinco e meia da tarde debaixo de um calor terrível. Ao entrarmos na praça da Catedral pomo-nos aos saltos a gritar, felizes. A praça está cheia de peregrinos. Reencontramos as sul-africanas que nos abraçam e nos desejam buena vida. Durante o próximo dia iremos regressar cinco vezes a esta praça, atraídos pela possibilidade do reencontro. É como um íman que nos puxa a todos. Cada cara conhecida que encontrarmos será um reentrar nos lugares do coração que habitámos durante esta aventura. Ao mesmo tempo, irá habitar-nos uma sensação estranha. A Carla dir-me-á mesmo que se sente confusa. Sente no corpo um impulso para começar a caminhar em direção a algum lado, mas não tem para onde ir.Esse turbilhão de emoções irá tomar conta de nós, mas isso será só nos próximos dias. Agora acabámos de chegar. Sentamo-nos no chão, encostamo-nos às mochilas a fazer de almofadas e ficamos durante muito tempo só a contemplar a catedral. Dou por mim a pensar que a vida assim faz tanto sentido.


“Os ritmos e labirintos, a música, os cheiros e um poeta que corre por dentro das palavras.”

Francisco Rosa sobre o romance Augusta

4 opiniões sobre “Dia 6 – Boa Vida

  1. Bom dia Rodrigo!
    As lágrimas encheram os meus olhos, ao ler a tua partilha do vosso caminho.
    Inevitavelmente as memórias dos caminhos que fiz percorreram todo o meu ser.
    A cada caminho o tamanho do meu medo diminuiu. Caminhei 5 caminhos de Santiago, cada um foi especial.

    Muito grata Rodrigo!

    Partilho contigo o que escrevi no primeiro caminho em 2010.

    A vida são passos…
    A vida são momentos…
    Em que tudo é Belo…
    Depois do Caminho de Santiago sei quem sou…
    Uma peregrina que vibra a cada etapa…
    Que celebra a vida…
    O AMOR…

    Sandra Costa – Caminho Português Junho 2010

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  2. Rodrigo não consegui parar, foi uma assentada só, até ao fim!

    Não sabes como te estou grata por teres partilhado o teu Caminho.

    É uma experiência há muito adiada, mas que tenho uma crescente vontade de fazer – o Caminho … o caminhar: comigo – no Amor e no Medo, com os outros, com a Natureza, com a Vida com a Morte e sentir a Unidade – DEUS (para mim)!

    Amei todas as palavras, arrepiei-me das experiências mas em muito especial a pérola mais preciosa “ a tua mochila é do tamanho do teu medo”….

    Tãooooo BOM!

    OBRIGADA

    Luísa Silva

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  3. Enquanto a minha roupa andava à roda na máquina da lavandaria,

    sentei-me a ler e a escutar a tua partilha e vi-me de novo caminho fora, com o fresco da noite e madrugada e a torreira da tarde, as bolhas nos pés, os encontros e desencontros – com gente da Península, da Europa e do resto do mundo onde o Caminho ecoa em corações de caminhantes -,

    mais as inseguranças, os medos e as lágrimas – as de alegria e as de tristeza -, mais as traduções em cima do joelho de peregrino!… também as fiz, por exemplo de espanhol para inglês numa visita guiada em Roncesvalles e numa homilia algures em Castela em que resumia cada frase do sacerdote.

    Enfim, tantas, tantas histórias.

    Obrigado por te dares ao trabalho de partilhar as tuas! Fiquei enternecido por esse caminho feito a dois. Parabéns por vocês! Abraço grande com saudades!

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  4. Caro Rodrigo, que experiência que juntaste à tua vida. Fiquei agarrado à fantástica descrição que fizeste destes dias. Voltei a encher-me de vontade de fazer o Caminho, projeto que foi interrompido pela pandemia. E veio à cabeça algo de que falaremos em breve. Um abraço

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