Chegado e instalado, a aventura começou.
Antes de me sentar no meu cantinho a escrever, onde estou rodeado de paredes com quarenta e cinco centímetros de espessura granítica (medidos com uma régua de plástico com a inscrição em letras verdes “com quitoso… …era uma vez um piolho”), fui levar a minha amada ao comboio, ou não fosse esta uma aventura literária.
Ainda não eram nove da manhã quando iniciámos a descida a pé pelo Caminho de Jacinto, o célebre percurso que Eça terá percorrido para chegar a Tormes e que é descrito na sua última obra A Cidade e as Serras (que, como bom residente literário, comprei na loja da Fundação Eça de Queiroz para ler durante a minha estadia).
Foi uma hora de caminhada. Nada, para quem se habituou a fazer todos os anos o Caminho de Santiago. Tudo, para quem se deslumbra com os tons da vinha e com o reflexo perfeito da margem sul do Douro, ocasionalmente perturbada por barcos com turistas. Imagino o Eça a apreciar a paisagem enquanto subia o Douro de comboio e os barcos rabelos cheios de pipas desciam da Régua a caminho de Vila Nova de Gaia.

No caminho, colhemos funcho, algumas cerejas e um limão que mais parece uma granada. Das cerejas só ficaram os caroços, mas o funcho e o limão ainda hão de dar sabor a um prato que cozinharei só para mim (e digo isto com alguma tristeza, que gosto de cozinhar para os outros).
Chegámos à estação de Aregos uma hora antes do horário de partida. Ou melhor, uma hora e um quarto antes, que não estamos na Suíça e o comboio que vai para o Porto tem que esperar que o que vem da Régua passe (explicou-nos o Sr. António Costa, o taxista). Porque é que isso é um argumento para o comboio chegar atrasado quinze minutos, é algo que eu não entendo (mas talvez o Sr. António Costa que já foi primeiro-ministro conseguisse explicar).
A despedida não é como imaginei: dois amados abraçados, a sorver todos os segundos que têm juntos antes dela partir para a guerra (Lisboa, neste caso); o comboio a apitar e ela a entrar quando, de repente, o seu chapéu se solta e vai parar às mãos dele, que fica no cais a acenar com as lágrimas nos olhos e nós a pensar se o chapéu se soltou sem querer ou de propósito. Não. A última carruagem passa por nós e beijamo-nos de forma trapalhona, enquanto a Carla corre para conseguir entrar no comboio antes que ele parta. Não há chapéu, nem último acenar, que os outros passageiros também tiveram que correr e formam uma fila atrás dela para entrar.
Regresso a casa com o Sr. António Costa, taxista, que me recomenda o restaurante com a melhor chanfana. Eu, calado, sem lhe explicar que sou vegetariano, não vá ele parar o carro e deixar-me ali no meio de nenhures.
Chego a casa e espera-me um dia de escrita. Hoje irei escrever mil e trezentas e vinte e nove palavras. O meu plano é escrever, pelo menos, mil e quinhentas por dia, exceto aos Sábados, que é dia de revisão e aos Domingos, que é dia de descanso. Ups!
Entro na casa de banho e descubro que não há chapéu, mas há uma escova de dentes que a Carla deixou para trás. Fez o mesmo, há vinte e dois anos, quando esteve pela primeira vez na minha casa em Lisboa. Eu sorrio. Não foi uma despedida cinematográfica, mas continua a ser a história de um grande amor.
Sim, porque a Carla acredita no Amor.
Como prometido só enviarei um email por semana. Se quiseres ler o que fui cochichando nos dias anteriores, espreita aqui: https://apulsar.pt/cochichos-de-tormes/ .
