São sete da manhã e já estou a escrever.
As primeiras palavras são sempre lixo,
as engrenagens da prosa demoram a aquecer,
mas eu avanço.
Sei que nesta fase o importante é avançar,
levar a história até ao fim e
por isso evito andar para trás
e editar.
Avanço.
A cada hora, paro e vou passear.
Apanho cerejas do meu quintal,
mais um limão no quintal de um vizinho e
umas folhas de couve de uma horta que ainda não percebi se pertence ou não
a esta casa que fiz minha.
Releio o que escrevi hoje e gosto deste parágrafo:
O meu pai adorava o seu casaco amarelo de pescador de alto mar. Dizia que era à prova de tudo. Parece que tinha razão. Pego no casaco e dou um puxão firme. O fecho desliza, fazendo saltar pequenos pedaços de lama. Sou atingido por uma bofetada de mofo. O interior está manchado de preto e verde. Dou por mim a enfiar um braço numa manga e depois na outra. O casaco já não roça no chão. Uma lágrima rebola pela minha bochecha. Engulo o nó na garganta. O meu pai esteve aqui.
Depois de atingir o objetivo em palavras do dia, opto por voltar à leitura de O Louco de Deus no Fim do Mundo do Javier Cercas. Recosto-me num cadeirão e bebo um chá enquanto leio as últimas páginas. Sou surpreendido por lágrimas que me começam a cair dos olhos. Eu, que, tal como o autor, sou ateu e anticlerical, comovo-me com a narrativa íntima e humanista do seu encontro com o Papa Francisco.
Saio de casa em busca de espaço para processar o que estou a sentir. O medo de não existir a espreitar pelas fissuras da minha racionalidade. A certeza de que não há nada depois da morte, será a certeza de um tolo que se agarra à lógica como ferramenta para viver corretamente. Uma ferramenta de que nada serve perante o escândalo que é a morte.

