5. Generosidade

Fecho o portátil e saio em busca de hortelã. Hoje vou cozinhar um arroz de favas. Fiquei com ganas depois de ouvir a descrição da refeição que foi servida ao Eça de Queiroz quando chegou pela primeira vez a Tormes. A carta a avisar que vinha conhecer a quinta que a sua esposa tinha acabado de herdar extraviou-se e tiveram que lhe servir o que havia. E ora o que é que havia? Favas.

As favas tenho-as porque me ofereceu a Sra. Graça. Cultivou-as ali, na sua horta e descascou-as com o sobrinho, um catraio de quatro anos que gosta de transportar água e terra no seu camião de brincar. Se um dia tiver netos também lhes vou oferecer um camião e havemos de o carregar com pedras do nosso marouço no Pico para as levarmos até onde bem lhes apetecer.

O arroz também o tenho. Trouxe-o comigo. É cem por cento português (ai que orgulho, Mana). Tenho a cebola, o alho, umas folhas de couve galega que apanhei na horta, umas castanhas de Trás-os-Montes congeladas que comprei na Portela do Gouve. Mas falta-me a hortelã. E não se fazem favas sem hortelã. Eu, pelo menos, não faço.

Enquanto caminho, sou interpelado pela Sra. Benvinda e pelo seu marido que depois de uns dedos de conversa me dizem: “O Senhor que continue a subir que já o apanhamos lá em cima e damos-lhe a hortelã”. A generosidade é tanta que me oferecem um ramo gigante de hortelã, uma mão cheia de salsa, meia dúzia de ovos e um saco cheio de ervilhas tortas (que eu adoro e nunca encontro em Lisboa).

Enquanto cozinho no meu fogão de dois bicos, penso na generosidade desta gente que mal me conhece e me oferece o que cultivaram com tanto esforço e paciência. É paradoxal como a vida rodeada de tanta gente pode ser tão só, e a vida rodeada de tanta natureza pode ser tão comunitária.

Sento-me a comer e a ouvir um episódio de E o Resto é História sobre o 25 de novembro. Penso no meu pai que participou nesse momento histórico e tenho pena de não poder partilhar com ele o meu arroz de favas (vais ter que imaginar o sabor pela fotografia, Papá). Até porque não sei cozinhar só para mim e fiz uma dose familiar. Vou andar a comer arroz de favas o resto da semana. Não é que esteja mau, está bom, bem bom. Tenho a certeza que não tem nada que ver com o que ofereceram ao Eça, mas que ninguém diga que não é de Tormes.

Arroz de favas com castanhas e couve galega

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