9. Pássaros

É o terceiro dia em que acordo às cinco da manhã com o chilrear dos pássaros. Na diagonal, claro. Apesar dos quarenta e cinco centímetros de espessura granítica, parece que estão dentro do quarto. Viro-me de lado e espero que se calem. Mas eles persistem. Soam animados como velhos amigos que se juntam ao almoço de domingo e relatam as suas aventuras.

Ontem deitei-me tarde e a chorar por culpa do filme A Minha Casinha. Foi-me recomendado pela Anabela, diretora executiva da Fundação, que me revelou que várias cenas tinham sido filmadas na casa onde estou a viver. Longe da família, a ver no ecrã as mesmas paredes que me rodeiam, acabei a sentir saudades. Saudades de um passado que ainda não aconteceu — o dia em que eles já não viverem connosco.

Desesperado, levanto-me e abro as portadas da janela (as mesmas que no filme pertencem a Tomás). Achei que ia encontrar os pássaros no beiral da janela a debicar as migalhas de broa que espalhei no meu primeiro dia sozinho. Mas não. Está escuro e não vejo pássaros em parte alguma. Então lembro-me de uma coisa que o meu irmão Pedro me ensinou há muitos anos. Abro a janela e bato uma palma. Nada. Talvez tenha sido mal dada, pelo que repito três vezes. Estes pássaros nunca devem ter ouvido o tiro de uma espingarda e ignoram-me.

Fecho a janela e volto a deitar-me. Até quando é que vai durar este almoço de domingo? Viro-me para o outro lado e tento adormecer, mas não há maneira. Sem saber mais o que fazer, decido incorporar a experiência no meu romance. Não quero ligar a luz para não despertar ainda mais, pelo que escrevo mentalmente.

Acordo com o barulho dos pássaros. Parecem os anormais da minha turma que se sentam sempre na fila de trás da camioneta. É que não se calam.

Soa-me um pouco agressivo, mas caraças, é a terceira vez que sou acordado às cinco da manhã. Estou a pensar em que capítulo vou escrever isto quando, finalmente, adormeço. Volto a acordar e já são sete da manhã, dos pássaros só resta um piar sumido que parece vir lá longe das vinhas.

O Escritório do filme A Minha Casinha

Deixe um comentário