No Domingo, levanto-me às seis e meia da manhã, faço os meus alongamentos, dou um beijo nos caracóis do meu filho e arranco para o Gerês. Duas horas a conduzir, acompanhado pela voz do historiador Rui Ramos que me conta o que se passou depois do 25 de abril. O meu objetivo: chegar às nove horas, a tempo da missa na Igreja de Chamoim.
É a primeira vez em muitos anos que me preparo para ir à missa apenas por motivações pessoais. Não me espera nenhum batizado. Nenhum casamento. Nenhum funeral. Apenas uma missa na igreja de Chamoim.
Está fechada. Não quero acreditar. Abordo um homem que sai de uma porta lateral. A missa aqui em Chamoim é às oito da manhã, explica-me. Damn, como diriam os meus filhos. Podia ter ficado a tomar o pequeno-almoço com a família em Tormes. Mas como tenho aprendido à medida que vou crescendo: há que aceitar.
A próxima missa é na terça-feira às sete e meia da manhã, acrescenta o homem. E assim nasce um novo plano com duas grandes vantagens. A casa onde estou fica a cinco metros da igreja. E o sino da igreja começa a tocar às sete da manhã, de meia em meia hora, e só se cala às dez da noite. Eu e, imagino que mais cinco pessoas contando com o padre, lá estaremos na missa de terça-feira.
Meto o saco das compras que faz de mala dentro de casa, agarro na mochila e saio. Piso as pedras dos velhos trilhos que vão dar ao Rio Homem. Ouço histórias de quem depois da reforma voltou para a sua terra. Cheiro a hortelã que nasce selvagem nas margens dos riachos. Escuto o som das cigarras que desaparece, abafado pelo murmúrio do rio, à medida que me aproximo da água.

Ouço falar do Bom Jesus das Mós e decido ir conhecer. Ao chegar, dou por mim a imaginar o Duarte e o avô ali juntos:
O meu avô entra pela porta da torre e eu sigo-o. O vento assobia por entre as pedras. Paro no patamar intermédio para recuperar o fôlego, mas ele continua, os passos a ecoar no interior. As paredes têm riscos como se o passar do tempo as tivesse arranhado. Quando chego ao topo olho para a estátua. É uma espécie de Cristo Rei da margem sul, mas em vez de abrir os braços abre um buraco no peito e mostra-me um morango.
— Olha para esta vista, Duarte — diz o meu avô, apoiado no parapeito de pedra. Vira-se para mim e faz sinal para que me aproxime. À nossa frente o vale parece estender-se até ao infinito. — Como é que se pode não acreditar em Deus?
Termino o dia a jantar na antiga escola de Vilar, onde a junta de freguesia abriu um bar para angariação de fundos para a festa. O Paulo, presidente da junta, convidou-me e junta-se a mim, sentado no muro, enquanto conversamos sobre a região e o que vim cá fazer.
