21. Bichos

— O que é que mais vos surpreendeu na história? — pergunto.

— O Morancão ter chorado no fim – diz um dos miúdos.

O Morancão (morango-cão) é um dos bichos mais fortes da nossa narrativa. Foi ele a enfrentar a Alfadela (alface-cadela) para conseguir a água da casota-horta a fim de apagar o incêndio na floresta.

Ele era tão forte! Até lhe desenhámos músculos, imagino o miúdo a dizer para o colega.

Estamos no piso infantil da Biblioteca de Baião. Eu estou sentado num mini puff colorido e à minha frente tenho a turma do 2º ano da escola básica de Campelo. Fui desafiado pela Biblioteca Municipal de Baião a dinamizar uma Aula Aberta e eles surpreendem-me com o seu entusiasmo.

Começamos por falar sobre animais e vegetais. Eles, surpreendidos, descobrem que as árvores também são vegetais.

— Bróculos — grita uma miúda.

— Quem é que gosta de bróculos? — pergunto.

É a minha vez de ficar surpreendido com a quantidade de mãos no ar. Quando era miúdo talvez aparecessem duas ou três mãos.

Separo-os em pares e desafio-os a criarem um bicho estranho que é metade animal e metade vegetal. Eles metem-se ao trabalho e ouvem-se risos pela sala. Desenhos feitos e nomes atribuídos, enfiamos todos os bichos dentro de um saco. Estamos prontos para co-criar uma história.

São eles que decidem que a história se passa numa floresta e que há um incêndio. Sempre que tiramos um bicho do saco eles riem-se e os autores, orgulhosos, contam-nos que bicho é aquele. A aventura vai-se desenrolando e um deles faz a pergunta que todos têm na cabeça:

— Os bichos vão sair todos do saco?

— Vamos descobrir — respondo.

O Torango (gato-morango) lança as sementes do rabo em forma de morango para reflorestar tudo o que tinha sido queimado. A floresta fica tão mais bonita que o gato-alface, o último bicho que resta no saco, salta o muro que separa o deserto e vai viver para a floresta.

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