Em maio comem-se as cerejas ao borralho, ensina-me a Rosa enquanto planta pés de flores no terreno da Fundação. E assim tem sido. As cerejas colho-as de uma cerejeira nas traseiras da minha casa. O borralho, no meu caso, são os aquecedores que tenho acesos no quarto e no escritório para quebrar este frio que me surpreendeu – o frio e a chuva.
Sentado no primeiro piso da Biblioteca Municipal António Mota, encostado a um janelão por onde entra a luz do vale do Douro, escrevo:
As primeiras pingas começam a cair, assim que chego a um caminho de terra batida. Sem saber para que lado virar, opto por aquele que desce. Só me apetece deitar no chão e rebolar. A chuva começa a cair como balas de uma metralhadora. Não é suposto ser Verão! Visto o casaco amarelo por cima da mochila e continuo a avançar. Juro que me atiro para a frente do primeiro carro que aparecer.
E não é que, nesse momento, começa a chover torrencialmente em Baião! Quando relato esta coincidência no escritório da Fundação, pedem-me para que escreva sobre a chegada do calor. Rio-me, e é o riso inseguro do Duarte que não acredita na magia, mas ainda quer acreditar.
Acordo cedo, alongo, bebo água e sento-me a escrever. Vou acabar o dia de hoje com 1.723 palavras. Entre elas escrevo:
Acordo com o Sol bem alto no céu. Estou sozinho. Até o Ímpar se deve ter fartado de dormir. Sento-me na cama e quando me começo a vestir sinto uma cãibra a formar-se no gémeo direito. Atiro-me para trás e estico a perna. Merda, isto dói demais. Só quando a cãibra passa é que me volto a levantar, com cuidado. A casa está silenciosa. Abro a janela do meu cubículo e deixo o ar entrar. Parou de chover e voltaram os passarinhos.
E não é que o Sol me visita e almoça comigo e com os meus limoeiros. A ficção a tornar-se realidade. Não irá durar muito. Depois de uma excelente visita guiada com o Miguel ao Mosteiro de Ansede e antes de me ir refastelar com a melhor francesinha vegetariana de sempre no Pena Curva, fui apanhado desprevenido por uma carga de água enquanto passeava pelos passadiços do Ovil.
Bem, ao menos já há cerejas para se comer.

