O Marionetista

Lembro-me de o ver sentado. A parede caiada de um armazém servia-lhe de encosto. Vestia de negro. Sempre de negro. Olhava para o fim da sombra que o cobria. Naquele muro imposto à planície ele era único. Alguns cabelos rebelavam-se contra o homem e assumiam a cor da parede. Olhou-me, os músculos da cara revolveram-se, as pálpebras subiram, as rugas remexeram-se, a boca aumentou. Entregava-me um sorriso. Essa foi a primeira vez. Uns minutos partilhados numa presença silenciosa.

Voltei e ele voltava a estar sentado. Voltava a entregar-me um sorriso. Eu sentia vontade de voltar e voltar. Aquele recanto da Terra insuflava-me o espírito. Olhava-o com espanto. Sentia o peso da vida erguido a esforço naquele sorriso. Intrigava-me o fato negro naquele ambiente de secura. Ele explicou-me. Em tempos tinha sido marionetista. Mas agora já não era. Fingi-me esclarecido. Sentia-me ignorante, enfiado dentro do meu fato enfeitado com uma gravata às riscas.

Atravessei aquela planície de novo. Já não vinha por negócio. Já não queria o interior do armazém. Queria apenas aquela parede branca que todo o dia produzia sombra. Queria o sorriso do marionetista. Recebi em troca um aceno de cabeça para me sentar. As suas mãos bailavam com um garfo e uma faca. Dois pares que se deslocavam com graciosidade pelo ar. Desfaziam com arte e precisão uma porção de migas de espargos selvagens que repousava orgulhosamente num prato de barro vermelho. Tentei explicar que não me queria demorar. Queria apenas retribuir aquele sorriso seu. O som do garfo a regressar ao bailado foi a minha única resposta. Deixei uma caixa embrulhada a seu lado.

Afastei-me por uns tempos. Pensava que a prenda seria calmante suficiente para o meu espírito, ávido de sorver da vida daquele homem. A minha intenção foi atraiçoada pela minha curiosidade. Regressei ansioso por saber o que acontecera com a caixa. Quando parei o carro junto ao sobreiro, não discerni nenhum vulto. O medo invadiu-me. Teria escolhido outra parede para contemplação. Ao aproximar-me percebi que a sombra me enganara. Ele lá estava encostado à parede, contemplando para lá do sobreiro. A seu lado repousava a caixa embrulhada em papel azul. A fita-cola tão mal colocada continuava ilesa. Largou o infinito e pegou-me nos olhos. Sentei-me a seu lado e fitei-o curioso. Ele pegou na caixa, arrancou a fita-cola e desmanchou o embrulho. Explicou-me que não tinha querido abrir a prenda sem ser à minha frente. Pôs a caixa sobre as pernas, colocou a tampa sentada a seu lado e com as duas mãos abraçou o boneco escondido. Levantou-o no ar e fitou-o. Ficou assim muito tempo e eu fui-me embora.

Reencontrara o boneco poucos dias depois de ter conhecido o marionetista. Procurava um documento antigo na despensa do vão das escadas quando me deparei com ele. Via-o muitas vezes, mas só naquele momento o encontrei. Pendurado num prego em pose de abandono. Os membros descaídos sem vida que o animasse. Apenas o sorriso se mantinha. Um sorriso antigo, resistente ao tempo e ao pó daquele cubículo. Existia desde o tempo em que as mãos mágicas do meu tio criador de histórias o inventara. Lembro-me como o meu tio sorria e como nos fazia abrir a boca deleitados. O boneco, de madeira mais leve que o ar, voava até ao candeeiro para descobrir de onde vinha a luz. Como não encontrava o Sol coçava a careca, dava uma cabeçada na lâmpada e caía até ao chão desamparado. Depois olhava-nos amnésico, mas contente. Era a minha história preferida e um dia o meu tio presenteou-me o boneco. Voámos juntos muitas vezes, até ao dia em que o esqueci pendurado num prego.

Regressei à planície numa tarde de angústia. As dúvidas sobrevoavam os meus actos. Enquanto avançava galgando quilómetros o meu ser vivia uma dualidade criada pela existência daquela sombra onde o homem se escondia. Sentia-me ameaçado pela sabedoria daquela tranquilidade. Tinha esperanças que o meu boneco tivesse remexido com a intimidade do homem e perturbasse a sua contemplação. Mas também necessitava da sua calma e esperava poder sentar-me a seu lado e deixar o meu espírito repousar até que todas as dúvidas se desvanecessem. Obtive uma melhor resposta, muito para além da minha imaginação. Quando alcancei o limite da sombra vi-o sorrir na minha direcção. Dirigi-me para o outro banco ali pousado, mas o boneco ocupava-o. Lá estava ele, com a sua careca encostada à parede e sorrindo em direcção ao sobreiro. O homem explicou-me que se estavam a conhecer. Disse-me que o seu novo amigo estava muito satisfeito por ter trocado o cubículo por aquela planície e aquele encosto. Fiquei algum tempo a olhá-los, mas como não consegui captar uma única palavra da conversa fui-me embora.

No último dia da primavera decidi verificar como ia a amizade entre ex-marionetista e boneco. Enquanto me aproximava apercebi-me que o homem estava sozinho na penumbra. Temi que algo tivesse acontecido. Quando o saudei ele levantou-se. Era mais alto que eu. Espantei-me tanto que ele deixou fugir o som do riso. Pediu-me que o acompanhasse até à outra parede. Vi-o pela primeira vez com luz. O fato negro brilhava. Indicou-me o banco afastado da parede. Quando me sentei apercebi-me que olhava para um palco. A parede branca era um cenário iluminado pelo Sol. O marionetista tirou um par de luvas negras de um bolso. Levantou um outro banco e colocou o famigerado boneco deitado. Olhou para o sobreiro lá longe e antes de eu ouvir o anúncio, o espectáculo tinha começado.

As mãos brancas encantavam-me lentamente à medida que dançavam de encontro ao boneco sorridente. Pegaram nele e dançaram juntos. O boneco voava deleitado, depois sentava-se pensativo, falava então com as mãos negras e voltava a voar. O espaço dilatava e o vôo era longo. Ia muito para lá do alcance do braço do marionetista e então voltava. Rodopiava perante o olhar terno das mãos negras. O bailado acabou abruptamente como um sonho. Estremunhado o boneco bocejou e voltou a dormir descansado. O espectáculo terminou. Eu sorria como dantes quando era miúdo e sonhava que podia voar. Levantei-me e aplaudi até me doerem as mãos. Nesse dia voltei para casa entusiasmado.

Decidi levar um amigo do emprego a conhecer o marionetista. Enquanto nos dirigíamos para o sobreiro tentava encantá-lo com a descrição do espectáculo que tinha tido o privilégio de assistir. Esperava que o marionetista podesse repetir aquele momento. Quando chegámos a parede estava abandonada, nem os bancos existiam. Pedi-lhe para esperar um pouco e fui dar a volta ao armazém. Talvez ele tivesse escolhido uma parede diferente para contemplação. Voltei à sombra que antes o encobria sem o ter descoberto. O meu amigo que fora espreitar a entrada do armazém comentou algo que não me lembro de ouvir. Sentado no chão encostado à parede eu contemplava o sobreiro lá longe.

Escrito no Natal de 1999, inspirado pela arte do meu tio Né

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