Um ano sem açúcar

um hiato no açúcar

Há um ano atrás, a meio do jantar da passagem de ano, dei por mim a declarar uma ideia ousada que andava a congeminar dentro de mim há algum tempo. Iria passar um ano sem comer açúcar adicionado. Entenda-se, não iria comer nada no qual tivesse sido adicionado açúcar, fosse de cana, de coco, fossem adoçantes, etc… O mel era ok. Acho que os meus amigos sentados à mesa ouviram esta resolução desconfiados – um ano é muito tempo e tudo tem açúcar. Habituados às minhas ideias peregrinas, brincaram comigo tentando me empanturrar nas poucas horas que faltavam para a meia noite com todo o açúcar que não iria comer, durante o ano que se avizinhava. Ao chegar à meia-noite deixei de comer doces e assim foi durante um ano.

Os curiosos e os céticos

Ao longo deste ano, sempre que alguém descobria que eu não comia açúcar as perguntas multiplicavam-se e tipicamente pertenciam a uma de duas categorias. Ou a pessoa estava curiosa para perceber o efeito em mim, ou a pessoa estava desconfiada de que sequer fosse possível. Os curiosos queriam saber se eu me sentia com mais energia, se eu tinha perdido peso, se estava a ser difícil. Os céticos queriam demonstrar-me que eu nunca poderia ter passado um ano sem comer açúcar, eu não controlava a comida dos restaurantes, certamente não teria lido todos os rótulos.

A todos os céticos que me estejam a ler quero já descansar-vos que, apesar de ter ganhado o hábito de ler todos os rótulos, apesar de ter chateado imensos empregados de restaurantes, eu comi açúcar adicionado durante este ano. Uma das vezes descobri que o estava a fazer depois de dois goles de um sumo de laranja natural. Apesar da argumentação dos restantes convivas de que as laranjas eram certamente muito doces, o empregado revelou-me que tinham adicionado açúcar – as pessoas gostam muito do sumo docinho.

A maratona

É realmente muito difícil não comer um único grama de açúcar adicionado, mas a minha resolução não era esse tudo ou nada. Eu sempre fui muito guloso. Houve tempos em que abria pacotes de açúcar e os despejava goela abaixo. A minha resolução era reduzir abruptamente os meus níveis de gulodice. Acreditava que a radicalidade temporal em me comprometer com um ano me iria ajudar a não ceder a tentações e assim foi. Um ano é muito tempo e essa noção contribuiu para entrar em modo maratona. Um passo de cada vez, com um ritmo sustentado, a pensar no longo prazo.

Acho que durante as primeiras semanas compreendi finalmente a dificuldade que os fumadores sentem em deixar de fumar. A minha mente conspirava com o meu corpo e eu sentia as garras da dependência a tentarem tomar conta do leme, roubando-o à minha vontade. É só uma bolacha! Nesses momentos, eu contra-atacava enganando a privação com frutos secos ou fruta docinha. E assim se passaram muitas noites, comigo a tragar mãos-cheias de nozes.

Depois, a sensação de privação foi desaparecendo até só ficar presente a saudade de pequenos prazeres, como os croissants do Choupana, os gelados da Davvero ou um bom gin tónico. Sim, a água tónica tem açúcar! E começou a surgir uma sensibilidade a tudo o que tivesse açúcar: molhos, pão, sumos, etc… De tanto escrutinar os ingredientes, descobri um pão honesto maravilhoso mesmo ao lado de casa, daqueles que ainda são feitos só com água, farinha, fermento e sal. É o pão de Rio Maior vendido no Lidl.

Ao chegar à reta final comecei novamente a sentir a ânsia de comer coisas doces. A proximidade da meta despertou em mim vontades adormecidas. Alguém me explicou que é como quando se está no elevador a chegar a casa e a cada andar que passa a vontade de urinar aumenta. Cinco minutos depois de bater a meia-noite de 2018 deliciei-me com uma taça de crumble feito por uma amiga especialista. Passei o resto da noite enjoado.

Essa é a maior diferença que sinto, uma tolerância muito baixa ao açúcar. Os cereais que comia antes do ano-sem-açúcar não me caem bem, os m&ms são demasiado doces e ainda não me atrevi a comer um croissant. Para quem está curioso com as diferenças da experiência, lamento partilhar que não me sinto, nem senti, ao longo do ano, com mais energia. Perdi algum peso, mas nada de especial, à volta de dois quilos. Em termos de saúde não foi uma experiência particularmente reveladora. Em termos sociais foi muito interessante.

Os deixa-te-de-merdas

Não vais provar a sobremesa? Come lá um bocadinho. Era mais fácil ser alérgico. Como nunca soube mentir lá tentava explicar que estava a fazer um ano sem açúcar. E imediatamente surgiam os curiosos, os céticos e às vezes os “deixa-te-de-merdas”, aqueles que não querem saber dessas modernices e ignoram a minha vontade e o meu aborrecimento. Confesso que gosto bastante dos curiosos e dos céticos e adoro céticos curiosos, mas irritam-me os “deixa-te-de-merdas”. A sua aparente preocupação com o meu bem-estar é uma fachada para a dificuldade com que lidam com as minhas escolhas não convencionais. Tratam o que é importante para mim como “merdas”, como se as minhas escolhas fossem meros caprichos. Irrita-me particularmente quando terminam a sua interação com um julgamento de superioridade dizendo: isso passa-te. Bem, neste caso não passou.

Efeitos colaterais

A maior conquista deste ano-sem-açúcar terá sido a minha capacidade de respeitar a minha resolução e de a ter levado até ao fim. Não me acho fantástico por isso, acho-me acima de tudo parvo, mas estou feliz. Talvez seja mesmo parecido com correr uma maratona – quarenta e dois quilómetros sofridos, com a certeza de um corpo dorido no dia seguinte, porquê? Pela superação das minhas limitações? Pela sensação de poder interno que acompanha a vitória da vontade sobre os desejos do corpo?

Ao refletir nestas questões surgiu-me Nietzsche no pensamento, na sua proposta de que não há realização sem se abraçar o sofrimento e a dor. Invocar Nietzsche por causa do ano-sem-açúcar desperta-me algum constrangimento, mas ainda assim pus-me à procura de uma citação bonita que dissesse aquilo que é tão difícil de pôr por palavras. Depois de encontrar várias desisti de as transcrever. Na verdade não me apetece adoçar esta partilha. Talvez seja um efeito colateral.

12 opiniões sobre “Um ano sem açúcar

  1. Gosto de tanto de te ler… 🙂
    A mim também me chateia muito os “deixa-te-de-merdas”. Exactamente pela desconsideração que têm pelas nossas escolhas como se houvesse uma hierarquia para o que é mais válido e, claro está, a nossa opção está no fim da lista e a deles no topo. O “isso passa-te” deixa-me louca. Ou aquelas premonições sobre o futuro sobre “vais ver daqui a uns tempos não vais/vais fazer assim”, qual fatalidade de termos todos um mesmo caminho e/ou destino, portanto é uma questão de tempo até ele se impregnar. Eu não gosto nem preconizo da palavra “impossível”. Para mim é tudo uma questão de fazer sentido, de trazer mais paz… à tua maratona eu chamo “consistência”. Não sou muito consistente com evitar o açúcar, mas gostava. Contento-me por saber que estou a caminho e que não estou só nesta maratona da vida.

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  2. Obrigado pela partilha.
    Tenho uma opinião sobre os céticos que tentam descobrir falhas nesse tipo de processo. Acho que a sua abordagem se deve a incapacidade de se controlarem e definirem os seus limites. Isso faz tentar “destruir” essa capacidade nos outros.

    Fica a ideia e gostava de saber a tua opinião.

    Grande abraço

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    1. Olá Duarte.

      Percebo a tua opinião. Penso que há muitas motivações para o nosso ceticismo, essa que descreves talvez seja uma delas. Na tua descrição não fica claro porque é que se um cético não consegue definir os seus limites isso o impeliria a destruir a capacidade dos outros de colocarem limites. Normalmente eu tenho necessidade de “destruir” a capacidade do outro quando essa me ameaça, ou seja se eu tiver dificuldades em colocar limites às vezes o caminho mais fácil é destruir o outro para que ele não me “invada”. É aquela máxima de o ataque é a melhor defesa. No entanto a minha experiência é que muitas vezes quem é cético não quer destruir nada, quer sim a “verdade”, por necessidade de segurança e isso leva-o a por em causa tudo o que sai fora da sua base de crenças. Porque todos temos uma base de crenças, mesmo os mais céticos. Ou seja talvez o objetivo não seja destruir a capacidade dos outros, mas sim garantir que a sua própria capacidade não é abalada.

      Obrigado pelo teu comentário. Gosto destas perguntas que me fazem pensar.

      Grande abraço

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  3. “Há quase seis meses que não publicava nada no blog. O tempo corre e não há quem o pare! Entrámos no novo ano e fiquei cheio de vontade de me voltar a partilhar por este canal e assim nasceu um novo artigo :)”. Muito bem meu caro Rodrigo, li devagar, absorvi e só demorei, 5′ 47” e 67 centésimos! O assunto é interessante e não me parece assim tão difícil de cumprir. O que sobre ele me apetece dizer é que não vale a pena, não deve ter interesse de maior para além de cumprir um desejo por quem gosta e faz trabalhos/lazeres/obrigações, frequentemente, como inovadores desafios. Ao Rodrigo o que me apetece dizer é que não há justificação para nos ter deixado seis meses sem publicar textos de seis a dez minutos, agora, quando cada vez é mais difícil comunicar. Sobre este propósito estou a ultimar a segunda e última intervenção académica do ano letivo 2018/2019, intitulada “Probabilidade de Comunicação. Mais Epistemologia e outro Modelo de Mediação”, que vou apresentar na sessão temáticas EPISTEMOLOGIAS (16h30 de 24 de janeiro) no “VI Congresso Internacional de Comunicação, Jornalismo e Espaço Público – MEDIA: Poder, Representação e Epistemologias”, que se realiza na FL/UC em 24/25jan2019. Meu caro Rodrigo, trabalha (prepara uma pensão de reforma confortável tendo presente que eu em breve faço 83 anos e fui obrigado a deixar o meu trabalho normal (militar, coronel técnico do Exército) aos 60 anos, que vais viver até aos 100 e que os teus filhos chegam aos 120); continua a estudar com registo (mestrado/doutoramento) encarado como lazer; continua a passear/divertir e a viver um ambiente familiar invejável por muitos de nós que temos o gosto de ler e escutar o Rodrigo, mas escreve para ti e para nós todos os meses do ano. Um abraço da maior consideração.

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  4. Bom Ano Novo Rodrigo,
    Até a escreveres sobre um assunto algo prosaico faze-lo como se o tema fosse suficientemente apelativo para com ele regressares à comunicação com o grupo. Estava a ler-te e a confrontar esta tua experiência com a minha de deixar de fumar. Entre as duas experiências há apenas um ponto de contacto: em ambas prevaleceu a vontade de cumprir uma decisão pessoal. É isso que vejo na tua: assim quiseste e assim foi, mesmo que nenhuma vantagem daí te adviesse. No meu caso a vantagem era óbvia. Mas também houve desvantagens: fui menos feliz! E tu, Rodrigo?
    Abraço amigo,
    JG

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    1. Obrigado Jorge. Houve momentos em que também fui menos feliz e outros em que fui muito feliz, mas acho que nã dependia diretamente do açúcar mas sim do que a vida me ia trazendo. Tinha era perdido esse pequeno conforto, o embalo adocicado, que me permitia lidar melhor com as amarguras da vida.

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  5. Ah, esqueci-me de te dizer que também já tinha descoberto esse honesto pãozinho de Rio Maior. E agora também já fazem carcaças.
    E é a soma destas pequenas coisas da vida (há um deus para elas!) que nos vão trazendo alguma felicidade.
    JG

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