A Estrela de Natal

Começou por ser apenas uma receita tirada de uma revista de culinária. Uma lista de ingredientes, farinha, açúcar, manteiga, nozes… Um conjunto de instruções, amassar, dispôr em camadas, levar ao forno… Um bolo saboroso, mas só isso, um bolo saboroso. A Romi transformou-o em muito, muito mais.

A primeira vez que provei a Estrela de Natal fiquei louco. A combinação entre o crocante das camadas e a suavidade gulosa do recheio inundou-me as papilas. Era bom demais e eu roubei espaço no meu pequeno prato de sobremesa para repetir antes que acabasse. Qual aletria, quais sonhos, quais rabanadas ou tigelada, a Estrela de Natal chegava para destronar todos os doces de natal. De onde viera aquela sublime tentação? Foi a minha mãe que o fez, explicou-me o Bruno. E enviou-nos um bolo inteiro para o Natal? Pensei, enquanto mastigava de boca cheia uma longa garfada do melhor doce de natal que comi até hoje. Então posicionei-me de forma estratégica: se sobrar, eu gostava de levar para casa.

Oh, não é nada demais, explicar-me-ia a Romi durante uma das nossas ceias de Natal. É só uma receita de uma revista de culinária. Nem sequer era uma estrela, essa foi só a forma que eu lhe dei. Aquele “só” soou-me à sua habitual humildade. Havia ali mais qualquer coisa.

Os jantares de Natal foram chegando e eu confesso que comecei a fazer uma gestão cuidada da quantidade que comia nas entradas e no prato principal para garantir que tinha barriga para a Estrela de Natal. Quando passei um ano sem comer açúcar adicionado, garanti que ficava com uma fatia para comer depois do ano novo. É esse o meu nível de gulodice quando falamos da Estrela de Natal.

Mas qual era o segredo? Dêem aquela lista de ingredientes e o conjunto de instruções a um Chef e ele não terá como recriar a Estrela de Natal. O segredo não estava na receita ou na experiência de cozinha. O segredo estava na ternura com que a Romi preparava a massa, na generosidade com que garantia que nunca nos faltava a Estrela de Natal (mesmo que não pudesse estar presente) e na sua humildade em dizer que era “só” quando na verdade era tanto.

A Romi partiu hoje depois de um longo desafio com muito sofrimento. Estou muito triste. Tenho saudades delas e do sorriso com que sempre me brindou, mesmo nas alturas em que estava mais frágil. Hoje recordo o que um dia escrevi algures:

“Morrer não é tão diferente de nascer. Antes de nascer existimos nos sonhos de quem nos quer, depois de morrer continuamos a existir nas memórias de quem nos quis.”

Nunca me esquecerei da Romi, será sempre uma das Estrelas a iluminar o meu Natal.

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