Assim que entrei com os meus pais no pavilhão João Rocha senti um pico de ansiedade. Será que foi boa ideia trazer a minha mãe de oitenta e um anos para assistir ao jogo? Dentro do pavilhão as emoções estavam bem vivas e agitavam-se com as cores na bancada. Íamos no terceiro dia da final do campeonato nacional de basquetebol sub14 feminino. O Sporting, a equipa da minha filha Sofia, preparava-se para jogar contra o Esgueira. A equipa que vencesse seria a campeã nacional. No ano anterior, tinha vivido um momento parecido com o meu filho Leonardo e estava preparado para o caldeirão de emoções, mas era o primeiro jogo a que a minha mãe ia assistir e logo a final! Não havia nada a fazer. Restava-me acreditar que o coração dela era forte para aguentar o que aí vinha. Pus de parte o medo e permiti-me sentir a alegria de estar ali com os meus pais. Iam ver a neta jogar e sentir o mesmo que eu sinto a cada jogo seu: orgulho.
O apito soou e a bola foi atirada ao ar. A Sofia saltou mais alto que a adversária, desviando a bola para a Catarina. O jogo tinha começado. Dez jovens atletas jogavam em campo pela partida da sua vida. Inúmeras horas de treinos e meia centena de jogos culminavam naquele momento: a possibilidade de se sagrarem campeãs nacionais. É impossível não admirar a força de vontade e a resiliência destas jovens atletas. Não me refiro apenas às do Sporting. Confesso que me vieram as lágrimas aos olhos, ao ver alguma das miúdas das outras equipas chorar por terem perdido um dos jogos daquela final. Apeteceu-me sempre dizer: deixem-nas chorar, mereceram essas lágrimas.
À medida que o relógio foi avançando, o jogo revelou-se equilibrado, tenso, imprevisível. Há uns anos atrás ter-me-ia sentado, bem-comportado a ver o jogo. Mas centenas de horas em pavilhões a ver os meus filhos jogar ensinaram-me a aproveitar para encher os pulmões e deitar cá para fora a emoção em vez de a deixar ruminar dentro da barriga. Levantei-me de fita verde na cabeça, cara pintada e símbolo do leão ao peito. Gritei, bati palmas e cantei os cânticos do Sporting. Continuo a não ser sportinguista, mas já devo ter mais horas a gritar por este clube do que alguns dos seus adeptos. A minha mãe, sentada ao meu lado, ia se rindo. És o animador da bancada, dizia ela. E eu acalmava-me que o sorriso na sua voz era sinal de que estava tudo bem.
À nossa volta estavam as outras famílias, pais, mães, irmãos, tios e avós, muitos dos quais fomos conhecendo ao longo do ano. Partilhávamos o orgulho de ver as nossas miúdas na final, mas também as boleias, as esperas infindáveis, os fins-de-semana e feriados sem poder ir a algum lado. Um grupo de adultos que foi desenvolvendo uma grande cumplicidade. O maior símbolo dessa união foi o ritual que fizemos antes de cada jogo da final começar. Quando as nossas filhas, nos últimos minutos do aquecimento, se juntavam em roda para se auto-motivarem, também nós nos juntávamos para nos mentalizarmos a dar tudo como claque. Era a nossa forma de dizer que estávamos ali, a gritar por elas. É giro como podemos continuar a descobrir novos amigos ao longo da vida e como às vezes são os nossos filhos os catalisadores dessas amizades.
O Sporting chegou ao final da primeira parte a ganhar por 15-12. Poucos pontos. Muito nervosismo. Nada estava garantido. As miúdas saíram de campo e nós pais ficámos a gerir a ansiedade na bancada. Por muito que eu peça, a Sofia não me conta o que acontece no balneário. É um momento dela, ao qual enquanto pai, deixei de ter acesso. A parte de mim pai-galinha adorava saber o que é que o treinador diz, o que é que elas dizem entre elas, como é que ela vive esses momentos. Felizmente, há uma outra parte de mim mais saudável, que tem muito claro que a minha responsabilidade é proporcionar-lhe experiências para que ela se venha a tornar uma adulta independente. Desde essa perspetiva, vejo a adolescência como um laboratório muito importante para que os jovens se descubram a eles próprios. A experiência de ter os seus momentos dos quais eu não faço parte é essencial para o seu processo de individualização. O balneário é, claramente, um desses momentos. Nesse fim-de-semana, dei por mim a dizer, em jeito de brincadeira que estava a viver o sonho através da minha filha. Não estava. Os sonhos dos meus filhos são deles e os meus são meus. É importante manter os limites. Acredito que o melhor exemplo que lhes posso dar é eu continuar a perseguir os meus sonhos enquanto vibro com os deles.
O jogo recomeçou e a dada altura houve pais que comentaram comigo que a Sofia estava fazer um jogaço. Perguntaram-me o que é que nós tínhamos feito, que ela estava incrível. Eu sorri sem saber o que responder. Não tínhamos feito nada. Era tudo ela. Ela e as suas colegas de equipa. Via-se que estavam a dar tudo. Chegara o quarto período e era impressionante como é que ainda corriam depois de cinco jogos em três dias. De repente, a nossa bancada irrompeu a gritar que eramos campeões. O jogo terminava 38-28 e o Sporting ganhava pela primeira vez um título de campeão nacional no basquetebol feminino. A minha mãe tinha aguentado o jogo todo e viu a equipa da neta deixar a sua marca na história do clube. Estava emocionada e feliz.
Ao mesmo tempo que a equipa levantava a taça e o pavilhão explodia de alegria, eu recebi uma mensagem no grupo da família, o Leonardo escrevia que a irmã tinha sido a MVP (Most Valuable Player) do jogo. Perguntei-lhe se era a opinião dele, de irmão orgulhoso. Era mais do que isso, era o que diziam as estatísticas. Ao sair do pavilhão a Sofia ouviu elogios de vários pais que lhe quiseram dar os parabéns pelo jogo. Ela sorria sem saber muito bem o que dizer. Quem é que de nós sabe receber elogios? Acho que ainda não acreditava que tinha sido MVP. Eu só pensava que esta miúda não para de me surpreender.
Esta história teve um final feliz, mas podia ter tido um final triste. Podiam ter perdido o jogo. A Sofia teria ganho na mesma e a decisão de deixar o teatro e investir tudo no basquetebol continuaria a fazer sentido. A vitória foi muito saborosa, mas o mais valioso de tudo foi ela ter descoberto um grupo de amigas improváveis. Unidas, não pelas semelhanças sociais, mas sim por um desporto que as desafia a, em conjunto, se superarem. O Vasco Oliveira, treinador da equipa, disse no final do jogo, em entrevista, que o seu objetivo era criar uma memória positiva que elas levassem para a vida. Quem não conhecer a história da equipa poderá pensar que ele se referia à vitória. Eu acredito que não. No fim-de-semana antes levou-as a todas para uma casa no campo onde estavam proibidas de treinar durante dois dias. O objetivo era conviverem. Conviver em vez de treinar. De todas as aprendizagens que a Sofia tem ganho com esta aventura, acredito que esta é a mais importante: como ser parte de um grupo e lutar por um objetivo comum. Obrigado equipa. Obrigado claque. Obrigado Vasco e Cláudia. Obrigado Sporting. A memória já ninguém lhe a tira.
Aprendi que não há receitas para a arte de ser Pai, mas acredito que a partilha da minha experiência pode ajudar outros pais a lidarem com os sentimentos de culpa, exaustão e raiva que facilmente se inflitram na vida familiar. Por isso escrevi o livro Tornar-me Pai.
Eu e o Ricardo Lapão, num ato de coragem e alguma loucura, decidimos gravar um podcast de sete episódios durante os quais conversamos sobre o significado da vida. É uma partilha despretensiosa, sem filtros, durante a qual abordamos temas como a morte, o prazer, a evolução e a transcendência. Tens curiosidade? Espreita aqui.
