31. Fim

Um jovem chegou a uma aldeia e proclamou:

— Vinde admirar o coração mais bonito do mundo.

O jovem sorria orgulhoso da sua perfeição. Aos poucos juntou-se uma multidão. Um velho teso chegou-se à frente e desafiou-o:

— Nunca trocaria o meu coração pelo teu.

— Que disparate dizes, velho — respondeu o jovem, com uma gargalhada sonora. — O teu coração é uma manta de retalhos com cicatrizes e buracos.

— Esta cicatriz que aqui vês é de uma grande amizade que foi reparada — explicou o velho. — O buraco maior é de um grande amor que não foi retribuído. Estas saliências são partes dos meus irmãos que muito me amaram. Estes retalhos são de lugares onde vivi, ali deixei parte de mim e trouxe parte deles. O meu coração pode não ser perfeito, mas é vivido.


Ao chegar ao fim da minha residência literária recordo-me deste conto da tradição oral. Sei que deixo em Tormes um bocado do meu coração. Levo comigo uma pilha de tesouros que ainda estou a tentar acomodar no buraco.

Como bom ser humano que sou, parto com um misto de sentimentos.

Saudade. Dos pratos de sopa servidos pela Rosinha até transbordar. De estender a mão e comer cerejas. De ouvir os pássaros, incluindo os melros que vinham conversar para a minha janela às cinco da manhã. De abrir as portadas e ver o verdejante Vale do Douro. De ir buscar uma folha de couve para o almoço. Dos meus amigos de Maio: a Anabela, a Carla, a Rosinha, a Nela, a Graça, o Maurício, a Joana, o Miguel, a Cristina, a Sofia, o Luís e o Fernando. Das memórias sobre a Casa de Tormes, em particular da Dona Maria da Graça que nunca conheci, mas de quem levo uma impressão de alma.

Profunda satisfação. Porque vim com o propósito de fechar o meu romance, e regresso com mais 26.149 palavras. A história do Duarte no Gerês passou a ter um princípio, um meio e um fim. Ao todo são mais de 54 mil palavras que ainda foi possível começar a rever. Levo, também, a experiência de estar dias a fio a escrever uma média de cinco horas por dia e descobrir que, apesar do pêndulo entre a euforia e a disforia, é possível manter esse ritmo e gostar do que estou a fazer.

Alegria. Pelo reencontro com a minha querida família que se meteu no comboio e fez de si mesma uma encomenda para vir passar comigo o último fim-de-semana. Por saber que vou chegar a casa e me irei deitar na cama sem ser na diagonal. Por reencontrar os gatos que me ensinaram a gostar de gatos. Por poder abraçar os meus pais e devolver-lhes o carro que tão generosamente me emprestaram. Por poder abraçar os meus irmãos, os meus sobrinhos e os meus amigos. Por ter descoberto que estar sozinho comigo próprio é melhor do que já foi em tempos.

Comecei estes Cochichos de Tormes com a frase “Estou prestes a partir para uma aventura como nunca vivi“. Era uma frase premonitória. Trazia comigo o intuito de escrever este diário que hoje chega ao fim e seis limoeiros para cuidar. Os limoeiros serviriam como veículo de memória para que um dia pudesse plantar um deles na Ilha do Pico. Um presente para o Rodrigo do futuro que assim poderia colher um limão com um neto e contar-lhe a história do mês de Maio em Tormes. O que eu não sabia é que iria deixar um dos limoeiros para ser plantado nas traseiras da casa da família Eça de Queiroz. É mais um bocado de coração que cá deixo.

Até já, Tormes.

(Se tiveres curiosidade em ler o primeiro capítulo de Deus é Imaginação, espreita o artigo anterior. E se te apetecer deixa um comentário, o teu feedback é valioso.)

7 opiniões sobre “31. Fim

  1. A tua família também celebra o teu regresso, cheia de vontade de ver este livro se materializar e poder ler o mesmo com a inspiração que Tormes trouxe. Muita curiosidade 🙂

    Liked by 1 person

Deixe um comentário