metade de mim é entusiasmo e a outra metade é medo
Estou prestes a partir para uma aventura como nunca vivi. Durante trinta e um dias vou ficar parado no mesmo lugar, longe da minha família, dedicado a uma só coisa: escrever. Quando paro para me sentir, descubro que metade de mim é entusiasmo e a outra metade é medo.
Em janeiro recebi um telefonema do Afonso Reis Cabral a revelar que o júri das residências literárias Eça de Queiroz tinha escolhido a minha candidatura. Foi um momento de felicidade. Gosto de ser escolhido, especialmente quando não acredito que o vou ser. Um mês em Tormes, com tempo e espaço para terminar o romance que estou a escrever há um ano. Que privilégio. Agradeci o telefonema e desliguei, contendo o adolescente excitado dentro de mim que se queria pôr para ali a elogiar o romance O Meu Irmão.
Com o passar dos dias, a excitação deu lugar à ansiedade. E se o que eu escrever não tiver nenhum interesse? E se eu não aguentar um mês isolado a escrever? E se eu tiver um ataque de pânico provocado pela solidão? Quantos dias sozinho em Tormes são precisos para começar a deprimir?
Ok. Obrigado, Ansiedade. Informação muito relevante, mas metade de mim é entusiasmo e, se é para ir, é para mergulhar de cabeça. Abraçar a experiência e permitir a emoção. Porque o que eu mais quero é sentir-me vivo.
Quando se mergulha em águas profundas, é importante levar o equipamento certo, e neste caso escolhi dois verbos que me fazem bem: cuidar e partilhar.
Estou a germinar um limoeiro para levar comigo para Tormes. Quero ter um ser vivo do qual cuidar. Pode ser que assim, à medida que as folhas brotem da terra, também as palavras brotem da minha alma. Imagino-me a plantar um dia o limoeiro na ilha do Pico e, assim, sempre que comer um limão dessa árvore, estarei também a saborear estes dias em Tormes.
E estou a montar um diário digital. Irei fazer aqui uma partilha por dia. Será um cochicho honesto sobre o meu dia em prosa ou poesia; permitirei que a alma se expresse. Irei partilhar contigo o desenrolar das minhas duas metades, sem edição, sem querer ser inteligente ou intelectual. Só um humano a relatar uma aventura que nunca viveu. Fazes-me companhia?
