10. Cerejas II

Fico sentado de frente para a lareira da cozinha da fundação. É tão grande que tem uma janela lá dentro. O tampo da mesa é feito de um único bloco de xisto maciço com quase uma régua-quitoso de espessura. Estou contente de não estar a almoçar sozinho n’A Minha Casinha.

Servem-me um caldo que me lembra as sopas da avó que eu nunca comi. Estou quase cheio quando avanço para o meu arroz de favas (que ainda há uma panela cheia para comer). No final, sem pensar muito agarro num pano de cozinha e vou ajudar a secar a loiça.

— Ai! Nunca tivemos um homem aqui a lavar a loiça — diz a Rosinha enquanto esfrega os pratos.

— Não acredito — digo, e não acredito mesmo.

— Verdade!

Sorrio: — Então e sempre posso ir convosco às cerejas?

Vou a casa, a correr, buscar o chapéu já que o sol decidiu mostrar-se. Seguimos pelo caminho da vinha que se separa do Caminho do Jacinto, logo após a primeira curva.

— E o senhor, é engenheiro ou doutor? — pergunta-me a Graça. — Que é para sabermos como o tratar?

Estamos os dois agachados a apanhar cerejas de uma trepa que o Maurício, marido da Graça, serrou do alto da cerejeira.

— Sou só Rodrigo.

— Se a minha patroa ainda fosse viva, não admitia que fosse só Rodrigo.

— Para mim é o escritor — diz a Rosinha, a apanhar cerejas de outra trepa ali ao lado.

— Epá… escritor é uma palavra muito forte — digo e levo mais uma cereja à boca; é o meu salário de apanhador de cerejas, por cada vinte como uma.

— Então, mas não escreveu aquele livro? — pergunta a Graça; a quem ofereci a Fénix e o Unicórnio para agradecer as favas.

— Escrevi, escrevi, mas… — tento explicar que eu não tenho obra e que não vivo da escrita, mas atrapalho-me.

Quando já não há mais trepas ao nosso alcance, regressamos pelo caminho até ao carro do Maurício, pomos tudo na bagageira e eu limpo o suor da testa, orgulhoso do resultado da minha primeira apanha da cereja.

Mesmo antes de se fechar a bagageira, aparece o investigador brasileiro que está a estudar a obra do Eça. Vai fazer o Caminho de Jacinto para ir apanhar o comboio.

Os meus companheiros da apanha param-no e fazem questão que leve com ele duas mãos cheias de cerejas para o caminho. Ele aceita e segue feliz. Eu percebo-o.

Eu no cimo de uma cerejeira

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